CURITIBA-VARIG-MONTRÉAL-VARIG-CURITIBA

5 de janeiro de 2014 por keyimaguirejunior

(Ou: minha primeira aventura no Primeiro Mundo)

Em 1977, o Cortiano – é, o da Casa de Tolerância – foi aceito pela segunda vez no Salon International de La Caricature, com um cartum publicado no Gibitiba. Ficou tão entusiasmado que, em uma de suas férias anuais nos EUA, “esticou” até Montreal para conhecer Robert LaPalme, idealizador e coordenador vitalício do Salão. Recebido por ele, e tendo sido um dos “causadores” da Gibiteca, falou dessa idéia – que pareceu suficientemente interessante a Monsieur de LaPalme para vir a Curitiba conferir, alguns anos depois.

Isso foi em 1981 – portanto, um ano antes da Gibiteca de Curitiba ser efetivada. LaPalme achava interessante a participação dos cartunistas brasileiros em seu salão e publicados no monumental catálogo da mostra. Pouco depois da visita ilustre, recebi uma enorme caixa contendo a coleção completa dos volumes. LaPalme era o que se pode classificar como uma boa companhia: irônico, inteligente, com uma descomunal cultura cartunística, receptivo, educação sofisticada.

ImagemColeção dos catálogos do Salon de la Caricature. Abaixo, cartum do Cortiano ironizando o crescimento dos volumes.

Imagem     De longe, dava prá perceber que seu Salão era um primor de organização e eficiência. Em parte, graças ao prestígio social do organizador junto ao prefeito Jean Drapeau – com quem viajava no Concorde a Paris…

Prestígio que ele transmitiu ao seu Salão – anos mais tarde, ele me mostrou, com justificado orgulho, fotos de celebridades dos mundos políticos e culturais canadense, inglês e francês diante dos painéis contendo  as caricaturas do Salão. Outras fotos, filas enormes para entrar no Pavillon de l’Humour, remanescente da Expô 72 na cidade, e no qual ele sonhava instalar o Museu do Humor. Ou o episódio de sua condecoração como “Chevalier de l’Ordre” pela rainha. Tudo sob os auspícios de Bès, deus egípcio da galhofa, símbolo da instituição.

ImagemCartaz do Salão, desenho de LaPalme, com Bès, o deus egípcio da galhofa.

     Em meados de 1988, após anos de correspondência, recebo dele uma das cartas mais felizes da minha vida. Contava que Will Eisner aceitara presidir o júri daquele ano, e embaixo, um recado manuscrito:

“Sous pli, vous trouverez les billets d’avion retour qui doivent vous permettre d’être ici le 27. Votre hotel est retenu pour sept nuits. Je serai a l’aeroport pour vous conduire en ville.”

     ÛRRA, MEU !!! Por quê isso não me acontece, digamos, umas duas ou três vezes por ano?!

 ImagemTotem Pole no Park Royal, em frente do meu hotel…

     (Corte epistemológico. O texto a seguir, escrevi alguns anos depois, para não perder as impressões.)

Cenário: “African Bar” do Holiday Inn na Avenue de Sherbrooke de Montréal. Queiram perdoar a falta de modéstia deste convidado a participar do júri da 25ª e última edição do Salon de La Caricature.

Horário: 19:30 horas de 27 de setembro de 1988.

Ação: entram no bar Robert LaPalme e seu cachimbo, 1,45 metros de uma impecável elegância de gentleman; com ele um indivíduo alto, careca, quase magro (parece Le Corbusier, pensei): Will Eisner. LaPalme nos apresenta, quase esqueço a deixa cuidadosamente elaborada durante quase todo o vôo de doze horas:

Eu: – Mr. Denny Colt, I presume?

Will Eisner: – Sim, mas não espalhe!

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Elenco de personagens: eu sou o japonês, o alto é o Will Eisner e o do cachimbo, o LaPalme

Não sendo uma entrevista no sentido exato da palavra, as opiniões seguintes foram captadas em ocasiões diversas, durante as pausas do trabalho, refeições e cafés da manhã no hotel. LaPalme não participa das reuniões do júri, entende assegurar assim sua isenção como coordenador da competição. Mas nós nos entendemos – o que não se pode dizer dos cartuns vindos de mais de setenta países do mundo inteiro. Tenho que me virar, no meu inglês de leitor do Al Capp, para explicar legendas em línguas latinas. Evidente que o francês, os dois canadenses do júri, Guy Metras e Roland Pier, dominam. Will Eisner faz questão de entender todos os cartuns – e seu sentido. Gosta dos mais simples, de humor direto, com desmaio de um dos personagens no fim:

Will Eisner: – …and so, she faints?

Eu – Yes…

Will Eisner: – I like it!

Às refeições, nos incríveis restaurantes aos quais nos leva LaPalme, Joe Szabo, o americano, monopoliza Will. Ele se incomoda com isso e puxa papo comigo. Conta que o pai era pintor em Viena.

Eu – Adolf’s pal, perhaps?!

Will – Talvez, a mesma profissão, na mesma cidade, que não era tão grande quanto as modernas…

Mas aí entra a assumida influência do expressionismo alemão. Preocupa-se com tudo o que se relaciona a seu trabalho. Ao saber que sou arquiteto diz que, se houvesse tido oportunidade, é o que teria sido. Como professor, exige bastante de seus alunos com relação a perspectiva e cenários. Eu já conhecia “O Edifício” e outros trabalhos seus para saber o quanto isso era certo.

Arte prá ele é cem por cento trabalho, transpiração. Ficou chateado ao ler uma biografia de Picasso, que achou cabotino.

Num café da manhã, faço a pergunta encomendada pelo Cortiano, sobre ele ter afirmado que inventou a Graphic Novel.

Will – Bem, existe essa forma européia muito antiga, o álbum. Mas na América, os quadrinhos são tiras diárias, páginas dominicais e comic books. Em “Um contrato com Deus” não uso nenhuma dessas formas, e acho que também não me enquadro no conceito europeu de álbum. E como ninguém fez isso antes, acho que fui o primeiro.

Isso é dito com seriedade, sem o menor sinal de orgulho ou pretensão. Eu acredito sem discutir, mesmo porque já achava isso.

Eu – E os quadrinhos estão entrando numa nova Fase de Ouro, por conta das Graphic Novels?

Will – Certamente. O compromisso do autor é muito maior, inclusive por se tratar de leitura para adultos. Pode ser mais complexa no tratamento literário, exige mais fôlego, mais trabalho, mais seriedade por parte do autor. Por outro lado, se ele tiver talento, também lhe dá mais liberdade.

Em outra ocasião, e com certo receio de que ele goste de um autor que não me agrada, pergunto pelo então na moda Frank Miller. O “Cavaleiro das Trevas” tinha sido recentemente lançado no Brasil, a badalação era grande. Mas eu não gosto das histórias do Miller. Minha preocupação era que ele, Will Eisner, autor da estatura de um Le Corbusier para a Arquitetura ou de um Beethoven para a música, aprovasse o colega. Mas ele foi coerente além do que eu esperava:

Will – Eu conheço o Miller. É um grande artista. Mas seus textos ainda são imaturos e pretensiosos.

Eu – Não gosto desse culto da violência…

Will – Ah, mas o “american way of comics” não existe sem isso…

Essa definição – “American way of comics” – é magistral.

Na verdade, a preocupação de fazer um bom trabalho no juri domina todas as conversas e não sobra muito tempo para assuntos paralelos. Mesmo assim, consigo encaixar algumas perguntas de vez em quando.

Eu – O quê significa a presença de tantos cartunistas renomados tentando a sorte junto com quase amadores, aqui no Salão?

Will – É o prestígio do Salão do Robert. Mas também porque suas criações pararam no tempo e estão perdendo mercado.

Eu – No panorama geral, nota-se também muita influência dos grandes cartunistas, como Quino, Steinberg…

Will – Concordo, mas nós não queremos premiar Quino nem Steinberg, certo?

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Exposição sobre o Salão de Montréal nos primeiros anos da Gibiteca de Curitiba

     Em outra ocasião, aguardando o início dos trabalhos, perguntam como LaPalme me conheceu. Falo da idéia da Gibiteca, e pergunto se alguém conhece uma instituição congênere em algum lugar do mundo.

Szabo – Não, existem Museus dos Comics, escolas para formação de quadrinistas, espaços para preservação dos acervos de alguns autores. Mas uma instituição pública, destinada a abrir o campo para novos autores, não conheço.

Todos concordam, inclusive Will.

Evidentemente, isso é um pouco da conversa, do que se tenta escutar quando se pode conviver com Will Eisner. Findo o julgamento dos cartuns, numa bela tarde do outono canadense, voltamos a pé da Place des Arts até o hotel, falando principalmente de arquitetura. Perguntei se ele conhecia, ao menos de fotos, Ouro Preto. Respondeu que não, mas ficou curioso. Prometi mandar um livro e cumpri a promessa, o que me valeu receber uma aquarela do Spirit autografada. Na carta que acompanhava, ele dizia:

“… passei muitas horas viajando, maravilhado (por essa cidade) e apreciando cada foto…”

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Terminado o trabalho – ganhou, pela segunda vez, um autor mexicano – houve entrevista coletiva à imprensa. Will, evidentemente, muito visado pelos caçadores de autógrafos. Faz questão de colocar o nome das pessoas e ainda agradece:

– Muito obrigado… na minha idade, isso tudo é muito gratificante…

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Matéria no Journal de Montréal de 30 de setembro de 1988

Prá terminar, um jantar no Helène de Champlain. Devo assinalar que se trata de um cottage de arquitetura medieval, construído na Ilha de St.Helène, para abrigar Her Magesty the Queen, quando veio inaugurar a Expô 72. Depois foi reciclada em restaurante chique. Portanto, e ninguém precisa ficar nervoso por tão pouco, eu e a Betty, quando estamos no Canadá, freqüentamos os mesmos espaços…

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Mais podre de chique que isso, ainda não me aconteceu…

     Montréal começou em 1642, portanto 51 anos antes de Curitiba. O que é pouca diferença, em se tratando de cidades – só que eles têm o Canadá em volta e nós, temos o Brasil… Cair de repente no Primeiro Mundo é uma sensação de maravilhamento que prefiro não tentar explicar. O duro é a volta. A gente passa a alfândega ainda com o ronco do Wide Boeing da Varig na cabeça, depois de doze horas de vôo. Então esbarra com crianças (depois me contaram que os pais as fantasiam de favelados prá isso) de mão estendida e dizendo com voz chorosa:

– Tem dula, tio? Dá um dula aí, tio?

Além das muitas experiências, essa viagem me proporcionou uma das minhas mais inabaláveis convicções: nosso subdesenvolvimento – e não adianta mudar o nome da coisa, porque é isso o que é – mais que econômico, é cultural.

ImagemPorque VOLTEI do Canadá: Marialba vestida de cocota (gíria de época) canadense, com roupas que comprei para ela numa boutique de jovens na Vieux Montréal.

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