UMA VERGONHA PARA CURITIBA

4 de janeiro de 2014 por keyimaguirejunior

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O Belvedere: foto de hoje, 04 de janeiro de 2014

     O sr.prefeito desta infeliz cidade está despencando nas pesquisas de popularidade. No que me diz respeito, era o esperado para quem anuncia, nas vésperas da eleição, estar comprometido com os interesses dos imobiliaristas e conseqüentemente, contra a população.

O Setor Histórico da cidade é parte dessa insatisfação. Temos a sorte de ter uma área antiga articulada por um eixo de três praças: o Largo da Ordem, a Praça Garibaldi e a Praça João Cândido. Desse núcleo, irradia para a Praça Generoso Marques, Rua XV de Novembro, Rua Barão do Rio Branco – por onde se estende até a Praça Eufrásio Correa. A Rua XV, por sua vez, é articulada pela Praça Osório até a Comendador Araújo e Batel. Da Praça João Cândido, estende-se até o Reservatório do São Francisco, de passagem pela casa modernista de Frederico Kirchgassner. Da Garibaldi, sobe pela Trajano Reis até o Cemitério Municipal. Entendo que o envoltório desses eixos, e os bairros adjacentes, como São Francisco e Mercês – faz parte da área em que Curitiba ainda é Curitiba e não sul de São Paulo, como o resto.

E essa venerável área, indicada para preservação desde o Plano Preliminar de Jorge Wilhelm em 1965, definida pelo Plano de Revitalização do Setor Histórico de Curitiba, coordenado pelo arq. Cyro Correa Lyra em 1970, passou por ampliações, extensões, acréscimos – sempre bemvindos, visto que os imobiliaristas têm todo o resto da cidade para enriquecer.

O eixo formado pelas três praças inicialmente citadas tem um de seus melhores espaços na João Cândido – onde se concentram arquiteturas dos imigrantes, num panorama do qual participa um Ecletismo como nenhuma outra cidade brasileira tem. E essa praça contém algumas construções que são testemunhos preciosos dos tempos e da história que vivemos: entre outras, as “ruínas” de antiga capela, o Palácio São Francisco e o Belvedere.

Antes de entrar nesse espinhoso assunto, diria que as grades de proteção das “ruínas” e do Belvedere são muito ruins: melhor teria sido – e continua sendo – seguir a idéia original da “praça fechada”, como se percebe claramente. Mas gostei da construção da galeria com escadaria, e palco, para o qual as “ruínas” funcionam como cenário. Morei 25 anos na Garibaldi, continuo freqüentando assiduamente o logradouro e sei o quanto o “canto abandonado” da cidade era nocivo, depósito de lixo para gente irresponsável.

ImagemFoto de um estudo da CRM de 1976. Pelas antenas, presume-se que da época da PRB-2.

      Agora, o Belvedere. Essa construção, à qual atribuo mais uma influência “Jugendstijl” que art-nouveau, foi construída em 1914/15, e fala de uma Curitiba que se está arrasando sob nossos complacentes olhos neoliberais, em nome de um retrocesso pintado com cores progressistas. Foi equipamento de laser quando não havia parques para passear: havia, sim, uma bela vista da Serra do Mar e da cidade que crescia ao redor da praça. Houve quem fizesse, nas próprias casas, mirantes para desfrutar esse visual. É dos pontos mais altos da cidade, daí se sobe apenas na direção das Mercês.

Sempre em função dessa cota – não lembro de cor, mas são mais de 950 metros SNM – aí esteve também a rádio PRB-2. Teve outras ocupações que, se não o mantiveram nas merecidas condições, também não o agrediram. Já no século XXI, instalou-se ali um posto policial – ótima idéia, visto que aí se concentra uma população de maloqueiros, drogados e marginais em geral que são o pesadelo dos moradores. Mas não esqueçamos que os marginais são os filhos queridos do neoliberalismo, protegidos com impunidade, bolsas e outras regalias que os cidadãos “normais”, como nós, não temos.

Tendo sido um acerto foi, portanto, abandonado. E agora, esse monumento importante, tombado inclusive, virou dormitório e sanitário dessa gente, que ali dorme, defeca e se droga. Coisa finíssima, devidamente apreciada pelos milhares de pessoas – inclusive turistas – que ali circulam na Feira de Artesanato de Domingo. Ou visitantes do Museu Paranaense, ou simples passantes dos ônibus da Linha Turismo. Claro, um retrato da Curitiba atual – que já foi conhecida por ser uma cidade limpa e aprazível, sem que eu embarque na conversa política da “cidade de primeiro mundo”, “melhor qualidade de vida do país” e outras insanidades.

O Belvedere, nesse estado, não chega aos cem anos… Mas parece que o estádio, esse, vai ficar pronto e tem todas as atenções e verbas de que necessita, certo?

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Maquete realizada por estudantes de Arquitetura do CAU/UFPR

Algumas referências

-Centro Histórico, espaços do passado e do presente. Curitiba, CRM/FCC, 2006. Boletim Informativo nº 130.

-Espirais do Tempo, bens tombados no Paraná. Curitiba, Secretaria de Estado da Cultura, 2006.

-Estudo visando à implantação de um Museu das Etnias do Paraná. Curitiba, CRM/FCC, 1976. Documento datilografado.

– Cyro Correa Lyra. Guia dos bens tombados – Paraná. Rio de Janeiro, Expressão e Cultura, 1994.

-Key Imaguire Junior & Nadia Besciak. Acervo documental do Gabinete de Arquitetura Brasileira da UFPR. Curitiba, UFPR, 2011.

– Plano de Revitalização do Setor Histórico de Curitiba. Curitiba, IPPUC, 1970.

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