AS CIDADES INVIVÍVEIS – VII

26 de dezembro de 2013 por keyimaguirejunior

(Treze teses sobre a crescente inabitabilidade das cidades neoliberais – tipo Curitiba)

ARQUITETURA ESTILOSA

         “A clientela continuava a querer casas “de estilo” – francês, inglês, colonial – coisas que eu então já não conseguia mais fazer.” (Lucio Costa, 1932)

Passados mais de setenta anos, os arquitetos voltam a essa situação como se, nesse espaço de tempo, não houvesse existido o Modernismo, um dos mais poderosos, articulados e plenos estilos já acontecidos no planeta. Ele foi capaz de se sobrepor, conviver e assimilar todos os lugares e todas as culturas. Agora, voltamos às arquiteturas “de estilo”.

No entanto, estou longe de preconizar a eternidade para o Modernismo. Ele foi o que foi: manifestação entre as mais fortes do século XX, talvez a mais representativa, articulada com a industrialização, numa hegemonia de mais de meio século.

Na falta de melhor expressão – ou mesmo de um conceito definido do que venha a ser isso – chama-se pós-modernismo ao que se localiza depois do Modernismo cronológico, às várias tentativas, díspares entre si, de procurar por novos caminhos.

“O pós-modernismo, que é mais uma expressão ou um rótulo do que um movimento, é uma evolução do Modernismo(…) que procura fazer com que a rejeição da História pelo Modernismo se torne uma vantagem.”(Frederick R.Karl)

O Brasil terá sido um dos países do mundo que embarcou com mais convicção no Modernismo – para nós, correspondeu a uma fase de progresso e entusiasmo – e construiu sua capital nesse vocabulário, reconfigurou suas cidades segundo a nova estética e foi quase tardiamente que entendeu o desgaste das fórmulas. Mas enquanto duraram, foram usadas com criatividade e brilhantismo.

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Kitsch Brasilia

As colunas de Niemeyer para o Alvorada: deu até prá entender…

      Não escapa a quem quer que seja: o pós-modernismo é a face visível da pós-modernidade – e essa sim, é de difícil apreensão. Ela se compõe de conceitos descontínuos, impalpáveis, contraditórios, imprecisos: globalização, neoliberalismo, virtualidade, para ficar nos mais imediatos. Conceitos que governo e mídia manipulam ou irresponsavelmente ou em proveito próprio.

Ao contrário do que aconteceu com o Modernismo, o pós-modernismo custa a encontrar seus caminhos no Brasil. A razão central, entre outras, será nosso descompasso econômico e cultural, referenciado ao Primeiro Mundo, abissal, intransponível a curto prazo. Claro que há cabeças pensantes no país, mas submissas ou simplesmente obedientes a essa instituição mercenária, guindada à posição de religião chamada “mercado”. A ela foram entregues – sob denominações várias e enganosas – os destinos dos países, dos povos e, o pior de tudo, de suas culturas. E do mais que há sobre o planeta.

Não é o momento de demonstrar essa afirmação, se é que tanto é necessário, mas de constatar o quanto a Arquitetura deixou de ser atribuição dos arquitetos e passou a ser conduzida por obtusos agentes – ia dizendo sacerdotes – do dito mercado.

Nossas paisagens urbanas não são mais marcadas pelos túmulos dos deuses, como eram as egípcias; nem pelas catedrais, como eram as medievais; nem pelos edifícios de uso público, terminais de transportes por exemplo, como no século XX. O que está na iminência de dominar nossas cidades são áreas de edifícios, residenciais ou não, agrupados em bairros da moda e, pior, dispersos por toda parte, onde somos obrigados a vê-los.

Não é preciso mais que uma olhada às promoções de venda e campanhas de lançamento para confirmar essa tendência. Antes de mais nada, o uso de nomes em inglês quase tão numerosos quanto a soma de todas as demais línguas: mercantilismo vulgar à americana. Depois, o aceno constante e infalível com que se seduz o comprador com muita grana e pouca cultura: “edifício inteligente”, “segurança total”, “alto padrão”, “qualidade de vida”, “requinte e sofisticação”, entre outros.

Mas o que é atroz deboche às nossas cidades e um insulto – merecido – à cultura do comprador, é atribuir um “estilo” à construção. “Estilo” – palavra por si mesma de uso difícil – que supostamente faz resgate de arquiteturas passadas para pessoas refinadas.

Claro, não é a primeira vez que a arquitetura chega a esse ponto, um momento de indecisão em que a falta de imaginação e a mediocridade impõem seus critérios – ou alardeia a falta deles. É possível e até mesmo provável, ver aí uma tendência de alguma duração. Curta, praza aos céus. O que não significa um acerto, mas uma regressão de três quartos de século, aos tempos do Ecletismo, à qual se referia Lucio Costa na citação inicial.

O mau entendimento do que seja a pós-modernidade – e sua face descoberta, o pós-modernismo – permite esse retrocesso, apropriação fácil de formas de outras arquiteturas.

O único conceito aplicável a essa tendência é o de “kitsch” – palavra alemã para designar móveis feitos a partir de restos de outros, e utilizáveis apenas em áreas de serviço.

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A CADA CULTURA, SUAS COLUNAS

A absorção dos esforços verticais é, evidentemente, preocupação central em qualquer construção – e a coluna, a solução mais evidente. Todas as arquiteturas desenvolveram colunas – via de regra, variações do cilindro e do prisma reto. Das milenares colunas papiriformes egípcias, passando pelas gregas e chegando às modernas, além das funções estruturais, as colunas modulam e marcam o ritmo dos volumes e dominam as composições.

As colunas desenhadas por Niemeyer para os palácios de Brasília são magistrais, únicas – as do Alvorada simbolizaram, durante muito tempo, a modernidade brasileira. E tão compreensíveis, apesar do conceito estrutural tecnicamente sofisticado, que deram margem a versões populares pelo país inteiro.

Mas nenhuma outra formulação de coluna foi tão cultuada como as das ordens gregas. De origem muito remota, não foram criadas na Grécia Clássica, mas nesse período levadas à sua máxima representatividade. Delas se apropriaram os arquitetos do Império Romano e mais tarde os do Renascimento. No século XIX, as descobertas arqueológicas as trazem de volta – agora como um modismo cultural, o Neoclássico. A evolução do cenário, levará ao Ecletismo. No Brasil, toda a ornamentação do período eclético conterá predomínio das colunas e colunatas das ordens “clássicas”, com capitéis seguindo as mesmas formas.

O Modernismo criou colunas – e outros elementos – honestos, rigorosamente racionais e, no nosso caso, nacionais. Talvez mais racionais do que o planeta estivesse preparado para suportar. Mas será possível que o questionamento do exagero racionalista não se possa fazer senão dando uma vergonhosa marcha-à-ré?!

Coluna Key

O Turin desenhou uma coluna paranista, da qual não gostei. Desculpa aí, seu João, mas é fálica demais pro meu gosto… Então, fiz a minha, da qual aí vai a maquete esculpida.

CRÉDITOS

A ilustração é do livro:

-L.MALERBA. Forme e Spazio,1: Il Tempio. Bologna, Ponte Nuovo, 1967.

As fotos são minhas, de 2010.

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