NATAL NA CURITIBA DE D’ANTES

24 de dezembro de 2013 por keyimaguirejunior

(Publicado na “Gazeta do Povo” de 22/12/2011)

Os primeiros indícios do Natal não eram no comércio. Vinham, às vezes, de muito longe, enviados por algum amigo que, mal começado dezembro, se apressava em ir ao Correio para encaminhar seu cartão de “Boas festas”. Ainda não havia, é claro, os cartões virtuais – até mesmo esses, caindo em desuso.

Depois – ô dia feliz! – surgia, diante da Ghignone, uma pilha de livrões embalados em envelopes de papel craft contendo – pasme! – o “Almanaque do Tico-tico” para o ano seguinte. (Os almanaques ainda não tinham sido desvirtuados – atualmente, qualquer edição fora da numeração da revista é chamada de almanaque.)

Faziam-se passeios. Chamava-se “passear” andar pelas ruas sem um objetivo consumístico definido. Sem pavor das situações de pânico decorrentes da – dizem – diferença de renda do país.

Um dos passeios obrigatórios era a pé – sim, se é perto, prá que carro? – pelo centro. Algumas lojas tinham bonecos animados do Papai Noel que voltavam, a cada ano mais empoeirados, às vitrines – mas com o mesmo encanto. Os movimentos mecânicos – para bater com um bastão no vidro, por exemplo – permanecia. Viam-se também presépios beirando pelo surrealismo, com trenzinhos elétricos e outra traquitanas. Vitrines com os novos brinquedos da Estrela (suspiro), nada de chinesices eletrônicas, nas lojas prestigiosas das saudosas empresas regionais, mas que atraíam gente até de outros estados: Prosdócimo, Hermes Macedo e outras.

Presépios, havia também nas casas. Figuras que saíam das caixas onde tinham repousado o ano inteiro para menos de um mês de participação na decoração das salas. Cheias de truques cênicos de maquete: areia (peneirada ou de praia), espelhinho meio submerso nela para representar um laguinho, barba-de-velho (colhida nas árvores dos bairros) para representar a vegetação, e assim por diante. Às vezes faltava uma figura ou pedaço dela, quebrada no desmonte do ano anterior, mas o quê que tem, puxa vida…

E tinha o passeio de carro. Os pais embarcavam os filhos – no nosso caso, uma vistosa Nash Airflyte – e iam percorrer os bairros em busca dos jardins enfeitados com luzes coloridas, mais presépios. Muito presépio, sim, em toda parte inclusive nas igrejas – o aniversariante ainda não tinha sido neoliberalizado…

Tinha o lado contraditório, é claro, como tudo nesta vida. Hoje entendo que uma celebração de nascimento não deveria implicar na morte de um ser vivo – e anualmente eram sacrificadas para a festa pelo menos duas vidas: um pinheiro e um peru. Não eram raros os caminhões vendendo pinheiros – araucária e outros – nas praças centrais da cidade, mas o mais comum era sair pelas áreas rurais mais próximas em busca de um. Que era impiedosamente cortado, levado para casa e ornamentado. Passadas as festas, ficava num canto do quintal secando para depois ser cortado e queimado no fogão a lenha.

A outra vítima, era algum peru, não sei porquê, e eles, sabiam menos ainda… Também era procurado nas imediações da cidade, muitos eram criados para a ocasião. Nesse tempo, não tinha nada de mais em vender o peru. O coitado do bicho era levado para casa, onde ficava – esse é o lado sinistro da história – até a véspera, quando então era embebedado na marra com vinho; depois degolado, depenado e estripado. Aqui defendo os tempos de consumismo atuais: o serviço sujo é feito profissionalmente. Aquela forma irregular que se compra no supermercado embalada em plástico mal lembra uma ave.

Havia uma série de comezainas que hoje estão no comércio o ano inteiro, mas naquele época caracterizavam as festas natalinas: nozes, avelãs, amêndoas e castanhas, figos, damascos e uvas – todos em forma desidratada, passas. E panetone, e stolle, rosca folhada e glaceada… “fatia dourada”, também dita “rabanada”, eram igualmente coisas dessas festas.

No dia 24 à tarde, o cheiro do peru assando no forno só aumentava a expectativa para a noite – ganhar e abrir os pacotes com presentes. Só os ricos podiam pagar um Papai Noel “de verdade”, para ir em casa com seu saco. Depois, comer o peru e ir dormir, para no dia seguinte acordar cedo e brincar com os brinquedos novos…

O consolo da festa passada era que, uma semana depois, havia a do ano-novo. Menos aguardada – não tinha presentes, ora essa! – e sem o lance trágico do peru, visto que a comilança era articulada sobre algum bacalhau pescado em águas de Portugal. Como todo mundo sabe, nesse dia não se come peru, que cisca prá trás, mas peixe que nada prá frente ou porco que fuça idem.

E lá pelos dia 6 de janeiro, os Reis Magos iam embora, em direção ao Rio da Prata, visto que lá são eles que dão presentes. Com a ida de Gaspar, Belchior e Baltazar para as caixas e estas para os armários – um longo ano de repouso -, a expectativa passava a ser o Coelhinho da Páscoa.

Será que daqui a cinqüenta anos, as crianças terão lembranças dos natais de hoje?!

Imagem(Anúncio na “Tribuna do Paraná” em dezembro de 1974 – portanto, 40 anos exatos.)

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