CARLOS ZÉFIRO EM CURITIBA

19 de dezembro de 2013 por keyimaguirejunior

Conheci Carlos Zéfiro em 1992, na mostra curitibana da Bienal Internacional de Quadrinhos.

Nada a ver com a figura do “dirty old man” do Bukovski. Nem com aqueles personagens do Crumb – olhos arregalados, gotas de suor pulando da testa, língua prá fora babando, à passagem de uma guria de shorts e botas.

Parecia mais um burocrata de interior, daqueles que passou a vida sentado numa escrivaninha, frente a frente com uma Remington Rand preta, dactylographando infindáveis processos administrativos.

Magrelo, óculos fundo-de-garrafa, terno surrado – contou como produziu e distribuiu seus disputados “catecismos” com um ar de garoto que assaltou a despensa em busca de biscoitos – muito mais que o Joãozinho espiando as amigas da irmã no banheiro pelo buraco da fechadura.

A produção dos gibizinhos se estendeu ao longo das décadas de cinqüenta e sessenta, mas a descoberta do Clark Kent do Carlos Zéfiro era, então, coisa recente. As antologias do Otacílio d’Assunção, de 1984, e do Joaquim Marinho, de 1983, ainda desconheciam o alter ego de Alcides Caminha.

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Livro “escavado” para esconderijo da coleção de catecismos, muito comum na época…

Causou preocupação à coordenação da mostra, essa primeira exposição zefiriana. Antes de mais nada, porque são conhecidos os relativismos da democracia e da liberdade de imprensa no Brasil. Depois, preocupava a proximidade física da mostra do Pinocchio. E se, digamos, toda aquela explicitude do Zéfiro provocasse ereções nas versões do boneco de pau expostas? Bem na hora em que houvesse uma visita de criancinhas em tenra idade, acompanhadas de inadvertida professorinha?! Como faria ela para conter o súbito acesso de priapismo coletivo dos Joãozinhos?! Complicado…

Felizmente, no labirinto espacial da antiga fábrica de cola onde foi instalado o Centro de Criatividade da Fundação Cultural de Curitiba, havia um tipo de “bunker” que pôde ser reservado para nosso autor. O próprio Ota montou a exposição, volta e meia interrompendo o trabalho para uma corrida ao banheiro.

O valor dos quadrinhos do Zéfiro é relativo a tempo e espaço. Está a pedir por teses de psicologia mais que de arte gráfica. Tanto o roteirista quanto o desenhista carecem de qualidades excepcionais – foi um naïf do erotismo quadrinizado. Tinha uma certa habilidade manual – sem trocadilho -, um pouco de habilidade para o desenho, e usou isso para ganhar “algum”.

Os eight pages americanos também não eram obras primas – sabe-se lá se ele viu algum circulando no porto do Rio de Janeiro. A produção americana era mais forçada no sentido caricatural, fazendo uso freqüente de personagens dos comix mais conhecidos. Tinham mais cunho moralista, enquanto o Zéfiro enfatizava mesmo era o tesão.

O sexo explícito quadrinizado só irá adquirir foros de arte nos anos setenta, com a produção de Guido Crepax. Ah, não me encham o saco – é claro que não estou comparando, estou apenas mencionando referenciais.

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Depois de algumas horas acompanhando os eventos inaugurais daquela Bienal, alguns dos quais ciceroneando a “lenda viva”, eu estava convencido de que aquele respeitável senhor não era o Carlos Zéfiro coisa nenhuma – era antes alguém que, em busca de quinze minutos de celebridade, fazia-se passar por ele. Como uma velhinha assanhada que de repente surgisse dizendo:

– Olha, eu sou a Betty Page, aquela que desapareceu na década de cinqüenta…

Mas daí… surge entre os visitantes uma proto-adolescente lindona, vestida de curitibana: jeans colados, botas, camiseta fina, irradiando charme. Sem hesitação, entrou no bunker onde estavam expostos os vinte anos de sacanagem do Zéfiro. Olhou a exposição como quem vê uma mostra das cenas mais picantes entre o Pato Donald e a Margarida  produzidas pelos Estúdios Disney.

Nosso personagem a acompanhou com o olhar, por cima dos óculos, sem nada perder do andar, dos gestos e dos sorrisos da mocinha.

E naquele olhar, comecei a acreditar que ali estava, realmente, o Grande Patriarca do Gibi Pornográfico Brasileiro…

digitalizar0001Programa da peça “Os catecismos segundo Carlos Zéfiro”, de Paulo Biscaia.

ALGUMAS LEITURAS

Dirty Comics. Toulouse, Transet, 1978.

-Joaquim Marinho. A arte sacana de Carlos Zéfiro. Rio de Janeiro, Marco Zero, 1983.

-Joaquim Marinho,org. Os alunos sacanas de Carlos Zéfiro. Rio de Janeiro, Marco Zero, 1986.

-Otacílio d’Assunção. O quadrinho erótico de Carlos Zéfiro. Rio de Janeiro, Record, 1984.

-Gibitiba nº 14, abril de 1992, referente à Bienal de HQ.

Os catecismos segundo Carlos Zéfiro. Peça de Carlos Biscaia. Guairinha, 2011.

OBSERVAÇÃO

Esse é um texto fora de controle. Foi escrito bem depois da Bienal de HQ mencionada, e não sei por que espaços virtuais navegou, nem em que navios. De vez em quando, alguém me falava dele…

Não sou grande admirador do Zéfiro como autor. Acho apenas interessante a malandragem brasileira contida no processo todo, ao criar e distribuir material proibido. A bem da verdade, não há produção erótica brasileira de qualidade nos quadrinhos. De safados, só temos a fama.

A ilustração, achei dentro de um livro comprado em sebo. Não, não era livro de sacanagem – era um manual de desenho de figura humana.

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