O CEMITÉRIO MUNICIPAL DE CURITIBA

16 de dezembro de 2013 por keyimaguirejunior

(Impressões preliminares sobre a Arquitetura.)

“Noi morirem, ma non morremo inulti.”(Tasso)

Toda a História da Arquitetura certamente poderia ser contada pelo que se constrói para os mortos, tanto quanto pelo que se constrói para os vivos. Para não mencionar civilizações em que o Além era mais presente que o Aquém, como a egípcia, quase tudo o que se construiu para os mortos é determinante em relação ao patrimônio dos vivos.

A amostragem da Arquitetura funerária (fúnebre? cemiterial? tumular?) em Curitiba é bastante diversificada: entre o cemitério-parque e o neoliberalíssimo cemitério vertical, pelo menos dois locais reúnem características para patrimônio cultural da cidade. Um é o cemitério de Santa Felicidade, construído segundo o padrão vêneto, e infelizmente descaracterizado: o Panteão central perdeu sua monumentalidade com o volume dos sepultamentos feitos diante dele. O outro, é o Cemitério Municipal São Francisco de Paula.

É ele um bom retrato da cidade que o envolve: se nos ativermos exclusivamente à Arquitetura, como é o propósito aqui, veremos sepultamentos que vão da maior simplicidade – pouco mais que um retângulo demarcado – até os mais complexos mausoléus.

Tal como na cidade, os burgueses se comprazem na companhia e competição uns com os outros formando, entre o centro e o portão principal, como que um bairro onde todos os estilos se fazem presentes – sendo as construções mais notáveis, é evidente, as das famílias mais tradicionais, os “nomes de ruas”.

De um ponto de vista formal, encontramos três tipos de sepultamento:

– aqueles sob o chão. São, como já dito, a opção da simplicidade. Além do espaço delimitado por grade, com a exclusiva finalidade de evitar pés descuidados – pouco ou nada há além de uma cruz e um par de vasos. Às vezes, elevam-se um discreto palmo acima do solo. Não pudemos identificar as criptas, parece-me que são poucas.

– a grande maioria dos túmulos, é da superfície do solo para cima. É aqui que encontramos os de feitura mais elaborada, os “jazigos perpétuos”, via de regra familiares.

– e por fim, aquilo de quem nem a morte nos poupa: os “predinhos”, construções em altura. Mais do que vários níveis, sua característica é a pobreza da concepção e execução – como que feitos “por obrigação”.

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     Estamos aqui interessados na segunda categoria, onde a diversidade arquitetônica e a qualidade do acabamento são marcantes. Com relação à execução, fica evidente a preocupação com materiais nobres – granito, mármore, bronze, latão – a durabilidade aliada à perenidade e à Eternidade – mais do que à ostentação, como seria reducionista supor.

Quanto à variedade estilística e diversidade artística, repete-se a caracterização das paisagens ecléticas da cidade, em que o limite temporal inferior é a arquitetura egípcia e o superior, o pós-modernismo.

Representadas uma ou mais vezes, encontramos, claramente expressas, as arquiteturas do antigo Egito, do Império romano, do manuelino, do Renascimento, do neoclássico, do neogótico, do art-déco, do modernismo. E até demonstrações de uma certa erudição regionalista, como a capela rural paulista do século XVII, o paranismo e o “rústico”.

O que remete ao período do Ecletismo pleno onde as construções representam, misturadas, de uma a mais dessas vertentes.

Além dos elementos decorativos típicos e cada uma das fases da Arquitetura, está presente um cipoal de símbolos, nem sempre os mais tradicionais ou cristãos – e presumivelmente apostos para leitura por grupos místicos ou quetais.

Nesse particular, a Escultura contribui tanto quanto a Arquitetura para a consolidação da representatividade cultural dos monumentos. Parece-nos – e é sensação pessoal – identificar uma alteração na simbologia proposta. Nos túmulos mais antigos, as figuras de anjos e cruzes sugerem a via de mão única da vida para o Além. Nos mais recentes, Cristo e pessoas convidam a uma reflexão e aceitação tranqüila da morte.

Mas também na Arquitetura são explorados recursos simbólicos: o portal (para a outra vida), o obelisco (marco de presença), a solidez (do exemplo de vida) e outros menos legíveis.

E há muito mais.

digitalizar0002      Talvez se procure demonstrar como na alma sobrevive a personalidade individual, apondo nas sepulturas retratos, assinaturas e até, mais raramente, hermas.

Procura-se um certo isolamento, uma neutralização da interferência visual dos outros túmulos mais imponentes, como uma grade tomada por uma hera, atrás da cruz. Os jardins têm sido pouco usados, e se tornam raros, em vista da necessidade de manutenção permanente – não só na véspera do dia de Finados…

Algumas soluções se repetem sem razão aparente, talvez copiadas de algum lugar, ou umas das outras, ou ainda sugeridas por um construtor hábil com a fórmula.

Embora sem presença arquitetônica maior, não poderíamos deixar de mencionar os túmulos de crianças, construídos como casa de bonecas, com as paredes internas cobertas por coleções de anjos.

Não causam surpresa, é claro, os epitáfios nas línguas dos imigrantes que fizeram a cidade, principalmente alemães, italianos, ucraínos e poloneses.

Tudo isso, na área relativamente pequena do Cemitério Municipal de Curitiba, convive, interfere e se sobrepõe, cruz com cruz, volume com volume, coisa com coisa – resultando em paisagens, visuais e perspectivas surrealistas, inesperadas, exóticas.

Os túmulos são testemunhos do respeito dos vivos pelos mortos – com raízes tão antigas quanto a sedentarização do ser humano e o surgimentos das cidades. Assim, sua configuração arquitetônica é carregada de símbolos e alegorias aceitos de parte a parte – o morto e seu grupo – de que a imaginação humana tem repertório inesgotável.

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Algumas sugestões de leitura

-Carl Gustav Jung. El hombre y sus símbolos. Madrid, Aguilar, 1966.

-Cassiana Lacerda. O Cemitério Municipal São Francisco de Paula. Boletim da Csa Romário Martins, nº104, abril de 1995.

-Clarissa Grassi. Um olhar…a arte do silêncio. Curitiba, FCC/LMIC, 2006.

-Fustel de Coulanges. A cidade antiga. Lisboa, Clássica, 1971.

Souvenir du cimitière de Gênes. (Sanfona de fotos, data anotada de 1920)

(Edição da década de 80, da revista “Double Page”, sobre o Cemitério do Père Lachaise)

Observação:

Em 1995, a profa.Cassiana Lacerda me pediu para fotografar o Cemuni, o que fiz. Enxeridamente, com é meu hábito, escrevi esse texto por minha conta, e que nunca foi publicado.

E se antes eu já visitava cemitérios, passei a freqüentá-los com mais assiduidade. Desde o monumental Cemitério de Gênova, o Staglieno, talvez o mais importante da Europa, até os pequenos cemitérios de cidades de interior, com meia dúzia de sepulturas. Aí pelo meio, ficam os das igrejas coloniais, os das cidades brasileiras e não-brasileiras que visitei.

 

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