AS CIDADES INVIVÍVEIS – VI

5 de dezembro de 2013 por keyimaguirejunior

(Treze teses sobre a crescente inabitabilidade das cidades neo-liberais – tipo Curitiba)

TESE VI – PAISAGEM URBANA

         Não estou me referindo, aqui, a áreas parciais das cidades – mas a elas como um todo. Ao “pouco caso” com que os moradores das cidades litorâneas se referem a nós, planaltinos:

– Ah, cidade sem mar…

    Claro que um oceano é um poderoso definidor de paisagem, mas não o único. Mesmo, nenhum acidente geográfico está a salvo de ser oculto pelo imobiliarismo verticalizante, inclusive o poderoso mar. Essa questão teria que ser abordada numa tríplice perspectiva cultural, ambiental e urbanística.

ImageTorino fica lá looooonge… mas na foto de baixo, feita da Sacra de San Michele, a paisagem que eles têm de lá.

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    Cordilheiras são espetaculares como paisagem para uma cidade. Torino, Santiago do Chile, Teresópolis – são cidades com a skyline valorizada pelos Alpes, Andes, Serra dos Órgãos. Curitiba já teve belvedere, mirantes e terraços para se apreciar a Serra do Mar – hoje isso só se faz com uma hora de viagem.

     Grandes rios também podem ser interessantes – estou falando de coexistência pacífica. Montréal usa muito bem o São Lourenço, Montevideo e Buenos Aires têm um Rio da Prata que é quase mar. Em Porto União da Vitória o Iguaçú pode ser um definidor importante, dependendo de como for tratado pelos municípios da bacia, inclusive por ela mesma. Foz do Iguaçú e Manaus têm rios poderosos, dos quais quase não tiram partido paisagístico. Curitiba também fica nas margens plácidas do Iguaçú, mas bem no comecinho.

ImagePor-de-sol no Rio de la Plata, visto de Colônia del Sacramento.

    São exemplos ao correr da pena e, como dizia Machado, “coisas escritas ao correr da pena são para serem lidas ao correr dos olhos”.

    Mesmo porque, se a gente olha o mapa esquemático do zoneamento de Curitiba, tem-se a sensação de que os urbanistas entenderam o espírito da coisa: só sobrou, para dar identidade paisagística à cidade, a Floresta de Araucárias. Bem onde esta encontra a Floresta Atlântica – privilégio duplo, dois ecosistemas (é essa a nomenclatura técnica?) Identifica-se, envolvendo a área central do município, um grande “Y” verde: a maior, área de proteção do Iguaçú; a menor, a oeste, do Passaúna. A cidade fica no divisor de águas do Iguaçú com o Barigui – este já engolido pela malha urbana. O que é pena, tratando-se do mais longo afluente do Iguaçú na região. Mas a tal mancha verde é o maior dos acertos, talvez. Os parques são, sabidamente, “a praia dos curitibanos”. Alguns têm até jacarés e capivaras.

    O que não significa, é claro, que nesse particular estou de acordo com o andar da procissão. Era o que me faltava! Essa mancha verde ainda tem muito para crescer e ramificar, reconquistando espaços, invadindo as áreas impermeabilizadas até ser realmente tão presente na cidade quanto um mar ou cordilheira ou rio. Os parques irradiando para cada praça, quintal, garden pocket, o que mais queiram, desde que a favor.

    Há quem preconize o inverso, dizendo que “lugar de árvore é no mato”. Não, nem mesmo se elas lá estivessem garantidas. É absurdo querer em Curitiba praças como as européias: secas, sem vegetação alguma. É analfabetismo urbanístico: lá eles têm belas Arquiteturas como cenário em suas praças, aqui nós temos o que temos. Com vegetação, não há erro, é sempre mais bonito.

    Claro, sempre vai haver quem se preocupe com queda de galhos, que amassam carros e quebram telhas. Tem que ser assim, o ser humano se colocou contra a Natureza e vai ter que agüentar o revide. Cidade com mar vai ter cada vez mais tsunamis. Junto às cordilheiras, deslizamentos. Próximas de rios, enchentes. E assim por diante, terremotos, furacões, trânsito, políticos, epidemias, drogas.

Em vista disso, qual o problema de levar uns galhos na moleira quando tem temporal?!

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Em Montréal, a terra retirada das escavações para o metrô, foi usada para fazer umas ilhas no São Lourenço – um grande parque, onde foi a Expô 72 e as Olimpíadas. Inteligentes, não?!

OBSERVAÇÃO: FOTOS DA MARIALBA RGI.

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