A SENHORA LÊ FOTONOVELAS?!

3 de dezembro de 2013 por keyimaguirejunior

É que fotonovela, minha senhora, não é necessariamente aquela coisa lacrimosa e sentimentalóide que não se pode ler em véspera de exame de glicemia. Há mais entre as lentes de uma câmera e uma página impressa do que supõe vossa vão filosofia doméstica, penosamente haurida diante dos debates da televisão.

digitalizar0004“Capricho” nº433, edição comemorativa dos 25 anos da revista

     Por quê as fotonovelas sempre foram pensadas prioritariamente para o sexo feminino? Além do muito já explicado em psicologês e comuniquês, há uma que acho principal: os quadrinhos desenhados são pensados, eminentemente, para público masculino.

E gibi vende mais, ao que eu saiba. Fotografar ou filmar uma aventura espacial custa um rio de dólares em maquetes, trajes, efeitos especiais, etc. Desenhar tudo isso custa baratinho, nas mãos de um desenhista de talento médio. Já um romanceco proibido para diabéticos, dá prá fazer na sala do diretor da editora – que evidentemente fica lisongeado – com dois ou três atores, que também não precisam ser lá essas coisas. E fica todo mundo feliz – ou pelo menos ocupado, com sua evasãozinha cotidiana.

Há muito a dizer, a partir do cultivo das profundas raízes do aventureirismo masculino e da domesticidade feminina. Mesmo depois da superação do discurso feminista dos anos sessenta.

Mas daria prá assinalar pelo menos três tipos de fotonovela que saem dessa linha:

– as FN satíricas, exploradas desde os anos 50 pela Help! (antecessora da MAD) e que no Brasil teve sua representação no Pasquim. Costumam ser escrachos, em crítica ao excesso de lambeção das FN tradicionais. Houve em Curitiba experiências do Dante Mendonça, Grupo Boca Maldita Comics e Cláudio Seto – tudo isso, fins dos 70 e começo dos 80. Tudo bastante experimental, e experimentar nessas coisas é sempre válido, o que abunda não prejudica.

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FN EXPERIMENTAL DO DANTE MENDONÇA

– as FN que chamarei de “doutrinárias” – ou, pelo menos, explicitamente doutrinárias – como se usou na China maoísta. Interessante pelas idéias passadas pelas legendas sob o desenho, jamais interferindo com esse. A FN em si é chapante, o que há de mais sensaborrão como narrativa. Tudo muito lambido, muito posado, muito lento, muito muito muito chato… AS FN experimentais pelo menos fazem um uso criativo da fotografia, essas usam a técnica fotográfica no mais convencional, mais elementar.

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“I fumetti di Mao” – Chesneaux, Eco, Nebiolo – Editori Laterza, Italia, 1971

– tem as FN que daria prá chamar “cinematográficas”. Elas representam uma tentativa de faturamento complementar para filmes dispendiosos e bem cultuados. São feitas a partir dos fotogramas do filme, e é onde a FN pode concorrer com a HQ de aventuras. O que é covardia, ninguém pode desenhar a Michelle Pfeiffer melhor do que ela é na fotografia…

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“Alien” Movie Novel – Avon Books, EUA, 1979.Só salva a Sigourney…

     De uma maneira geral, pode-se afirmar que o potencial criativo de representar da fotografia ainda não chegou às FN. Ainda não surgiram obras-primas capazes de afirmar e dar prestígio ao gênero. Tudo o que foi feito fica entre o experimental e o convencional; uma pífia dialética entre safadinho e o bobinho.

A FN erótica, surgida junto com a chamada “distensão” política foi tão brochante quanto a dita cuja. Como a “pornochanchada” cinematográfica, prá ser baratinha saiu vagabundinha, com perdão pelo trocadilho pouco correto politicamente.

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“O estranho mundo de Zé do Caixão” – São Paulo, Prelúdio, 1969

“Fun House” – Nova Girls, USA, sem data

TRASH É TRASH…

     Então era isso, minha senhora. A FN ainda não é um gênero que se possa recomendar, arrasta-se pelos lodaçais consumistas sem dar nada à nossa cultura, ao contrário dos quadrinhos. A senhora leia uns bons gibis e compare com a “Sétimo Céu” da sua juventude romântica. Como, isso foi há muito tempo?! TANTO ASSIM?!!!

OBSERVAÇÕES:

– esse texto é de 1994, não lembro se chegou a ser publicado em algum lugar. Mas acho que ainda vale.

– tenho uns textos para recomendar, quando achar eu posto. O acervo por aqui anda meio fora de controle…

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