ALGUMAS OBSERVAÇÕES SOBRE A PRESERVAÇÃO DE CASAS NO BRASIL

29 de novembro de 2013 por keyimaguirejunior

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Foto: Marialba RG Imaguire – Santuário do Caraça, Minas Gerais

 

“O ninho, como toda imagem de repouso, de tranqüilidade, associa-se imediatamente à imagem da casa simples. Da imagem do ninho à imagem da casa, ou vice-versa, as passagens só se podem fazer sob o signo da simplicidade.”

(Gaston Bachelard – “A poética do espaço”)

“Do estilo de mobiliário da segunda metade do século XIX, a única apresentação suficiente, e análise ao mesmo tempo, é dada por uma espécie de romance de crimes em cujo centro dinâmico está o terror da casa. A disposição dos móveis é ao mesmo tempo o plano topográfico das ciladas mortais, e a enfiada de cômodos prescreve à vítima o itinerário da fuga.(…) O interior burguês (…) com seus gigantescos aparadores entalhados transbordantes de objetos, os cantos sem sol onde se ergue a palmeira, o balcão que a balaustrada fortifica e os longos corredores com a cantante chama de gás, torna-se adequado como moradia unicamente para o cadáver. Neste sofá, a tia bem pode ser assassinada.”

(Walter Benjamin – “Rua de mão única”)

 

         As duas citações falam de situações que vão do despojamento total à complexidade máxima – e entre elas, toda a variabilidade possível ao ser humano para habitar a Arquitetura.

Aqui cabem duas reflexões:

– o último dos maloqueiros, entrando numa mansão de alto luxo – aquelas de Campos do Jordão – conseguiria habitá-la? Vamos supor que ele não achasse os cobertores e não soubesse usar o fogão – ficaria ou voltaria para a rua?

– os “Kastello” dos ciganos romenos. Enriquecidos no comércio de metais com o fim da URSS, construíram mansões enormes, com uso dos materiais mais caros. Coisas de matar de inveja o Frank Gehry. Pronta a casa, erguem uma tenda nos fundos do terreno – e é aí que moram.

Poderíamos pensar que o ser humano – um animal bastante precário – precisa de pelo menos três envoltórios para sobreviver.

O mais básico, junto do corpo – a roupa. É a adaptação básica, variando do nada (na praia…) ao sobretudo sobre tudo, protetor contra frio e umidade.

O envoltório intermediário, em linhas gerais constituído pelo mobiliário e equipamento da casa, penso nos eletrodomésticos, que otimizam o uso da construção.

Por fim, a Arquitetura propriamente dita, que o protege das variabilidades atmosféricas e outros “inconvenientes” naturais. Ou não.

Essa questão de envoltórios, que um bom benjaminiano chamaria de “limiares” pode ser desenvolvida ad nauseam e quem quiser, que o faça.

Mas o quê tudo isso tem a ver com a preservação e restauro de casas como patrimônio cultural?

É que deveríamos ter como preocupação segurar, manter, resgatar a maior parte dos conteúdos culturais de uma construção, ao preservá-la. Também em outros tipos de edifícios, é claro, mas aqui estamos tratando das casas. Muito de uma casa se lê por seus espaços, tout court. Como uma concha achada na praia preserva a quase totalidade do que se quer saber do marisco que a fez e habitou. (Dá-lhe Bachelard!) Também nem sempre as ações de preservação são feitas a tempo de salvar algo além da casa em si. E é melhor ter só a construção, a arquitetura, do que perder tudo.

Muitas casas são refuncionalizadas no ato da reciclagem – o que, em parte, viabiliza a preservação. Como exemplo, a Casa Romário Martins – o estado de degradação interna era tão avançado que nem mesmo uma organização espacial foi possível compreender. De onde resultou o novo uso, em galeria de exposições.

Casa Romário MartinsCasa Romário Martins (2)

Casa Romário Martins: 1970 e 1976

No outro extremo, temos a Casa Lacerda, na Lapa – onde, mais do que a vida dos moradores, fica também legível a medida em que estes assimilaram as modernidades residenciais que se sucederam durante a ocupação pela família.

Menos perfeita, embora excelente como didática, é a Casa de Sinhara de Castro. Os equipamentos foram trazidos de outras casas, mas há a preocupação com o resgate do uso dos ambientes de modo genérico.

Um exemplo intermediário é a Casa Domingos do Nascimento, atual sede do IPHAN. Casa de madeira trasladada – e aí já vai uma boa dose de heroísmo – à arquitetura em si tenta-se agregar um pouco da identidade original, com vasos de flores, horta, casa de cachorro, árvores nativas. É o possível – e agradável, prazeroso.

A Villa Demeterco – depois Palácio do Governo, depois TRE, atualmente Museu Paranaense – tem, como uma das peças mais importantes de seu acervo, o banheiro que sobreviveu ao seu currículo.

Mupar02

Está nos fugindo por entre os dedos das mão e dos pés uma oportunidade de ouro. Como dizem os gaúchos, “o tordilho tá passando arreado e ninguém tá montando”.

Trata-se da Casa Kirchgassner, vandalizada criminosamente todos os dias por pichadores. Além das honras de ser a primeira casa modernista do Brasil, está com seu interior intacto: mobiliário projetado pelo arquiteto e a produção artística dele e de sua esposa Irma. Não sei o que se poderia instalar ali – a casa é, afinal, pequena e um uso “qualquer” poderia ser desgastante. Mas sei que algo tem que ser feito com urgência. Uma fração infinitesimal do que se gasta com teratologias urbanísticas seria suficiente.

A Casa Stenzel funcionou durante um período após o traslado como memorial do artista. Parece que o material foi – adequadamente – para o Museu Paranaense. Mas abandonar a casa depois disso, é idiota. Gastou-se com o traslado, que era merecido por sua qualidade projetual. Um novo equipamento, para mostrar como se vivia numa casa de madeira tradicional – que maravilhoso tema para uma pesquisa! – criaria mais uma atração para o parque.

Pois é – acho que todos gostamos de entrar numa casa de avós e curtir coisas que nossa vidinha virtual perdeu. A sensação é, sempre e certamente, de duvidar sobre os caminhos que estamos trilhando em nossas moradias, que são mais o carro que a casa.

No mínimo para essa reflexão, deveríamos estar atentos aos nossos critérios de preservação caseira.

Observações: palestra na UTFPR, para os alunos da profa.Cintia, 27/11/2013.

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