A CIDADE QUE TINHA MUITOS PINHEIROS

19 de novembro de 2013 por keyimaguirejunior

(Lenda histórica da fundação de Curitiba. Ou história lendária idem. Como não gosto de nenhuma das existentes, fiz a minha própria lenda.)

DSC_0036(Ébano Pereira, na rua com seu nome, escultura de Elvo Benito Damo)

     -Ôrra meu! Quanto pinheiro!

Ébano Pereira, apoiado no bacamarte, enxugava o suor decorrente da travessia da Serra do Mar – morro acima, dias e dias escorregando na trilha e envolto em neblina. A pausa era o primeiro refresco, forçado pelo cansaço e pela grandiosa vista do planalto – coberto pela mata, acima da qual as copas das araucárias, que tinham motivado a exclamação.

Enquanto se embasbacava com a paisagem à frente, às suas costas a indiarada, acostumada com aquilo, tirava com a cara dele.

– Que massa, gente, o chefe hoje tá prá fazer frase!

– Até que ele consegue, né? Essa aí dá samba…

– Samba não, que isso nunca vai pegar muito prá esses lados. Quem sabe um nome de cidade…

– É, prá ele virar nome de rua…

– Uma ladeira bem empinada, prá lembrar a subida da serra…

DSC_0060

(O cacique Tindiquera, no Parque da Vilinha, escultura de Elvo Benito Damo)

Caíram na gargalhada. Algum tempo depois, acamparam à margem de um rio. Ébano mandou batear o cascalho prá ver se tinha o ouro de que ouvira falar. Baltasar Carrasco dos Reis completou:

– … e depois vocês vão caçar alguma coisa, uma paca ou veado, que essa farinha de pinhão é boa mas dá uma prisão de ventre desgracida.

– Fora os gases, né, Baltasar? riu o Capitão povoador Gabriel de Lara.

– E veado ainda não tem, que os civilizados agora é que estão chegando! disse o Tindiquera.

– Vai pro inferno, índio!

Mateus Leme deu um corridão no silvícola, que foi para o mato com seu arco e suas flechas. Mas antes respondeu:

– Nesse nós já estamos, seu Mateus. Em todo lugar onde chega a cobiça do homem branco, o inferno chega junto.

DSC_0055

(Balthazar Carrasco dos Reis, na rua com seu nome, esquina da Rua João Negrão)

Os “civilizadores” lembraram da borduna que o cacique fizera recentemente e acharam que aquele não era o momento para discutir o modo de produção extrativista ou o sistema colonial português.

Outro índio que passava para acompanhar o cacique na caçada, ainda debochou:

– Fiquem na farinha mesmo, assim demora um pouco mais prá começar a poluição das cabeceiras da bacia do Iguaçú…

No entanto, Gabriel de Lara, fiel ao seu cargo de capitão povoador, estava menos interessado no resultado da bateagem ou nas pacas do que nas índias, que naquele momento se banhavam no rio.

Portanto, se não foi assim que nasceu Curitiba, foi pelo menos como nasceu o primeiro curitibano.

DSC_0019

(Gabriel de Lara, na rua com seu nome, escultura de Elvo Benito Damo. Que emgraçado, o capitão-povoador era parecido com o Sérgio Kirdziej!)

– Ôrra meu! Quanto pinheiro!

O tropeiro estendeu a cuia de mate para o colega ao lado, olhando para cima, o perfil das araucárias recortado contra o céu estrelado da noite gelada. O outro despejou água quase fervendo da chaleira sobre as brasas.

– Bonito feito prenda  de vestido curto dançando na frente da fogueira, concordou.

Um terceiro sorveu a infusão e profetizou:

– Vocês curtam bastante, que isso não dura. Vem por aí uma tal de serraria que vai acabar com todas as árvores, como os bandeirantes acabaram com os índios. Antes de começar o outro milênio, vai estar tudo acabado, vai ser só lembrança.

– Mas mate ainda vai ter, né?

– Vai, só não vai ser essa riqueza toda, que separou esta terra da Província de São Paulo…

– …e trouxe a capital aqui pro planalto, deixando os parnanguaras a ver navios.

– Ah, mas isso não foi o mate nem o tropeirismo que fez, foi o medo das piranhas.

– Piranha no mar?!

– Não, no porto…

– Não acredito, os gringos lá do norte nem inventaram a Aids ainda…

O vento glacial varreu os últimos fiapos de nuvens do céu. Vinha direto das regiões polares, soprando sobre a foz do Rio da Prata, minuando sobre o Uruguai e os pampas sem amenizar o gelo.

Outro tropeiro se ajeitou dentro do poncho e resmungou:

– E o frio, também acaba?

– Esse fica. Tu não vai entender se eu explicar, mas é o que vai salvar um pouco essa terra: ser mais fria do que os tropicais agüentam…

– Pergunta aí prá tua bola de cristal como é que vão fazer  prá subir o gado lá do Continente de São Pedro do Rio Grande pro resto do país.

– Tu não vai acreditar… eles vão arrebentar e acabar com tudo quanto é floresta, campo e coxilha prá estender uns caminhos pretos, que vão encher com umas máquinas fedidas e barulhentas, movidas a dinossauro podre, prá levar as coisas de um lado pro outro. Ou só pelo gosto de ficar dentro daqueles troços, correndo e se matando.

– Eu acho que a tua bola de cristal tá pirada, meu…

A gargalhada do tropeiro-profeta ecoou pelo pinheiral, por cima da geada começando a se formar sobre o capim.

– O que tem de piração e idiotice prá acontecer por aqui, não tá no gibi, compadre…

– Quê que é gibi, vivente?!

– É uma das poucas coisas não idiotas que estão prá ser inventadas…

DSC_0022

(Mateus Leme, no Parque São Lourenço, próximo à rua com seu nome. Escultura de Elvo Benito Damo)

     – Ôrra meu! Quanto pinheiro!

Na verdade, a abundância da araucária era apenas simbólica, na camiseta da garota passeando pela Feira de Artesanato. O curitibólogo João Antonio, do Instituto de Altos Estudos Curitibanos de Itapeva, dominava até mesmo as nuances dialetais regionais.

Já fizera o percurso gastronômico completo pela Blumenau, Famílias, Santa Felicidade, Stuart, Mignon, Bar Palácio, Bar do Alemão… Pelo caminho, trocentas exposições, parques, arquiteturas antigas e modernas, a  banca do seu Melo, enfim… a aula de curitibanidade completa.

Claro que matreiramente o desviei dos pontos de maloqueiros, de prostitutas, de drogados, de bandidos – mazelas que, a bem da verdade, não são curitibanas mas brasileiras.

Já tínhamos rodado pela feira toda, sido abotoados pelo Helio Leites, comido o bolinho de bacalhau do Mozart – mas a melhor atração era a tal camiseta com pinheiros, na garota digna daquele pinheiral, que começou a descer a rua em frente ao Belvedere.

O curitibanólogo despediu-se do curitiboca às pressas e despencou-se ladeira abaixo.

– Nos encontramos para o almoço, gritou já meio longe. Deu mais uns passos e virou-se:

– A propósito, qual é o nome dessa rua?

– Ébano Pereira, gritei. Um dos primeiros freqüentadores desses pinheirais…

Observação: esse texto foi publicado na “Trezentinha” – agosto de 1992, ano l, nº 1, editado pela Rosirene.

DSC_0059(Ouvidor Pardinho, na praça com seu nome, escultura de Elvo Benito Damo. Não entrou na história acima, mas faz parte da História…)

 

Anúncios
%d blogueiros gostam disto: