ENGENHOCAS DE MADEIRA

12 de novembro de 2013 por keyimaguirejunior

No Brasil, em se tratando de cultura, não sabemos coisa alguma – o que significa, como é óbvio, que perderemos tudo. Preciso atribuir a culpa aos nossos políticos? Não preciso, todos sabemos disso. Os mais titulados são os mais tapados, e os mais espertos, são ignorantes.

Sem pensar numa definição, o que aqui entendo por engenhoca precisa de umas exclusões:

– não são peças de artesanato em madeira;

– não são brinquedos, por mais engenhosos que sejam;

– não são peças ou partes de construção.

Todos esses capítulos são interessantíssimos, mas não é o que tratamos aqui. Penso em rodas dágua (noras), aqueles contrapesos que mantém as porteiras fechadas, carros de boi e carroças, moendas de cana e mate, manivelas de poço e outras mais. Por exemplo, a canoa a rigor não seria uma engenhoca – mas se a considerarmos um conjunto que inclui remos, às vezes vela e leme, estamos dentro do conceito. Uma jangada, mais ainda.

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Moinho de erva-mate – Campina Grande do Sul

     São tanto mais interessantes quanto mais abrem mão de peças industrializadas – madeira talhada a machado e não de serraria, encaixes em vez de pregos e parafusos. Embora o uso de algum material feito a máquina não exclua um mecanismo da categoria: arames, cordas, às vezes dobradiças, embora essas possam ser também artesanais.

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Carro de boi – litoral de Santa Catarina

     Já se vê que são difíceis de encontrar – na verdade, desde que passei a documentá-las – e faz tempo prá burro, eram meus tempos de fazer trabalho de Composição I pro Marcos Prado – não achei mais de meia dúzia.

Como se percebe, não são criações urbanas, sendo muito fácil encontrar materiais industrializados nas cidades. Mas mesmo nas regiões rurais, são raras. Qualquer porteira de curral tem funcionamento eletrônico. Ê mundinho sem graça, esse dos neoliberais.

Na verdade, o neoliberalismo está enterrando os mais simples traços culturais. Não faz muito tempo, os jardineiros enfeixavam os galhos da poda dos arbustos e faziam uma vassoura simples, eficiente e gratuita para varrer gramados e canteiros. Agora usam um infernal aparelho soprador, que além do ruído, levantam um poeirão diabólico. E que causam um evidente dano ambiental, do qual prefiro que alguém mais qualificado avalie. Mas percebe-se que é mais um ponto a favor da destruição da natureza. É o preço do retrocesso.

Segue um pouco do que consegui documentar das engenhocas brasileiras.

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Moenda de cana – litoral de Santa Catarina

Algumas referências

-ARAÚJO, Nearco Barroso Guedes de. Jangadas. s/local, Banco Nordeste, 1985.

-BARDI, Pietro Maria. A madeira, desde o pau-brasil até a celulose. São Paulo, Sudameris, 1982.

-BERRIEL, Andrea M.S. A habitação de madeira como opção para o século XXI. Dissertação de Mestrado, PUC.PR/UFRGS, 2002. (Capítulos 2.1 e 3.1)

GUARAKESSABA MAR E MATO. (sei que existe, já vi, mas não achei para referenciar)

-SAIA, Luís. Madeira e civilização. Edição especial da revista Acrópole, ano 32, nº379, novembro 1970.

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Moenda de cana – foto de Elvo Benito Damo – deve ser das imediações de Clevelândia

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