ZEQUINHA, DE CURITIBA

26 de outubro de 2013 por keyimaguirejunior

Há sessenta anos – e mais, pelos relatos que já ouvi – as brincadeiras das crianças eram sazonais. Em algum momento, um brinquedo enjoava e se passava a outro – no recreio da escola, nas turminhas. Alternavam-se ao longo do ano, sem que a meteorologia em si participasse do processo. A não ser, é claro, no caso de balões e raias. A maioria dos brinquedos – seria mais adequado chamá-los de jogos? – não dependia de condições climáticas, embora só fossem praticados ao ar livre, em pátios e quintais: búrico, tique, pião, dobraduras (com embalagens vazias dos cigarros dos pais), tripa-de-mico e, no caso curitibano, figurinhas das Balas Zequinha.

Eram todos brinquedos muito baratos, ou mesmo sem custo – e talvez por isso mesmo tenham sido abandonados, rejeitados num mundo de caros troços eletrônicos que não exigem habilidade manual – apenas contas bancárias hábeis dos pais – e isolam as crianças, preparando-as para o merdismo.

Brinquedos havia – como a “amarelinha” das meninas – que nada requeriam, além de um toco de giz surrupiado ao quadro-negro da escola. Um brinquedo das meninas que devia ser muito bom para a cooredenação motora, eram as “Cinco Marias”.

Meu pai fazia misérias com uma caixa de fósforos, em jogos e brinquedos.

Valêncio Xavier, paulista aclimatado em Curitiba, fascinou-se com as figurinhas do Zequinha e produziu a primeira crônica que conheço sobre elas. É um dos melhores trabalhos sobre a cultura regional, e deu a partida para os Boletins da Fundação Cultural de Curitiba – existentes até hoje, publicados pela Casa Romário Martins. Isso foi em 197­4, e é pena que os brinquedos não tenham voltado a ser explorados na série.

Haveria muito o que pesquisar para contar – mesmo porque se trata de matéria quase sem bibliografia, ter-se-ia que revolver a memória de pessoas “antigas” como fonte quase única. O brinquedo antigo baseava-se na habilidade das crianças – inclusive para fazê-lo ou customizá-lo, ô palavrinha antipática.

“A criançada também se reunira ali. Pedrinho, de cócoras no último degrau da escada, abria com a ponta do canivete um furo no seu pião novo de brejaúva.(…)

     – Vai ser um caviúna batuta! exclamou o menino. Se esse piãzinho não assobiar que nem um saci, perco até meu canivete.” (Monteiro Lobato, “Viagem ao céu”)

Bem, o parágrafo é denso de informação, mas o interessante aqui é que Pedrinho faz – ou pelo menos, modifica – seu brinquedo.

Volto às Balas Zequinha  ou melhor, às suas figurinhas, visto que a bala em si, era intragável, mesmo no pequeno arco de opções. (A melhor bala era a “azedinha”, mas havia também a Iris, a “de ovo”, nome devido à forma e cor. A minha preferida era a de eucalipto…)

Na edição de 1975, foi feito álbum e cartaz – coisas que, nas versões originais, não existia. A coleção era guardada numa “carteirinha” – que cada um fazia por sua conta, mas havia a regra de colar duplicatas nas capas.

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     O desenho em si não era bom nem ruim – era apenas ingênuo, no mesmo nível, digamos, das prestigiosas “Estampas Eucalol”. E melhores, bem melhores, que as fotos das diminutas figurinhas das “Balas Seleções”.

Essa questão das figurinhas e cards promocionais colecionáveis vai muito longe, e não é o caso neste momento. Quando entram as figurinhas dos chicletes, em papel impermeável e com desenhistas profissionais, muda tudo.

Ficam aqui apenas as imagens solicitadas pelos “Arquivos Insuperáveis” do João Antonio Bührer d’Almeida. Aliás vi nesses arquivos um cartaz usado nas escolas inglesas, pedindo às crianças que ajudem a resgatar os antigos brinquedos de seus pais.

Começo de bibliografia

1-Quarenta brinquedos para dias de chuva (eu tive esse livro, mas perdeu-se na noite dos tempos…)

2-Mil brinquedos para a criança brasileira (Catálogo de exposição MASP/SESC Pompéia, 1982)

3-Pipas; a arte dos ventos (Três fascículos da Circo/Sanpa, 1991)

4-Brinquedos que nada custam (Marianne Jolowicz, Editora do Brasil, sem data)

5-Vamos brincar de brincar (Milene Coutinho Mauricio, Editora Comunicação, 1978)

6-Jogos e passeios infantis (Rose Marie Reis Garcia e Lilian Argentina Marques, Editora Kuarup, 1989)

7-Jogos, passatempos e habilidades (Nina Caro, Livraria do Globo, 1947)

😯 brinquedo português (Madalena Braz Teixeira e Carlos Barroco, Bertrand Editora, 1987)

9-25 kites that fly (Leslie L.Hent, Dover, 1971)

10-Childrens Games (Jennifer Brain, Victoria and Albert Museum, sem data. Seis posters: Ball games, Sticks and balls, Marbles bocols skittles fivestones, Hoop and tops, Swings skiping ropes seesaws stilts, Windmills kites shuttlecocoks)

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