OSCAR E EU

20 de outubro de 2013 por keyimaguirejunior

Evidentemente, estas achegas não farão falta a qualquer biografia do Oscar Niemeyer, autorizada ou não. Mas o coleguinha é o mais universal dos brasileiros, tem peso considerável minha vida e gosto de seus projetos.

Tentarei manter aqui uma ordem cronológica, mas para algumas coisas, não tenho anotações que permitam datar com precisão.

A primeira, sem qualquer dúvida, foi de 1962. Brasília, que já nasceu polêmica, tinha um ano de idade. Com tudo o que se disse sobre ela, meu pai colocou a família na Kombi e fomos conhecer a Novacap – neologismo que não pegou.

Depois de muitos dias e muito pó pelas estradas do Planalto Central, descortinei o que segue sendo uma das impressões mais fortes da minha vida. Num fim de tarde vermelho, dentro do poeirão que subia da cidade, a presença dos monumentais prédios brancos – muitos inacabados – era surreal, fantástica, indescritível.

Não sei quantas vocações arquitetônicas nasceram de Brasília, mas a minha foi ali, e naquele momento.

A cidade não só foi como continua sendo muito criticada – por quem não a conhece. Ou por quem não aceita que uma cidade possa oferecer uma vida diferente das demais, mais organizada, mais explícita – mais fácil, se quiserem. Nos poucos dias da minha vida passados na cidade, achei-a capaz de oferecer uma excelente qualidade de vida – apesar dos problemas, decorrentes da administração mais que do projeto – e ninguém fala mal do Lúcio Costa na minha frente, sob o risco de levar pohada.

A ilustração a seguir, evoca esse momento. Ela se baseia num desenho que o ON fez para a UNE, quando esta tentava se reerguer das cinzas. Comprei de uns subversivos que a andavam vendendo pelas universidades, e tinha a seguinte legenda: “Uma cidade diferente, sem injustiça, opressão ou desigualdade. Era o que pensávamos estar construindo – antes de 64” (sublinhado do autor). Sobre o desenho, o Pier Paolo Olivieri, seguindo minhas indicações, colocou cor, com seus sofisticados programas digitais.

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      O episódio seguinte é famoso, mas não conheço registro escrito feito por alguém que o tenha presenciado. Vamos localizá-lo, grosso modo, em fins da década de sessenta.

Niemeyer deu uma palestra no atual Auditório Leo Grossman, no Centro Politécnico. Ora, naquele tempo, o Jardim das Américas ficava um pouco prá cá do fim do mundo. Das janelas dos ateliers, via-se a Serra do Mar e, o que quer que seja que se necessitasse, era preciso vir comprar no centro da cidade. Não havia como conseguir material para o arquiteto desenhar – e ele só fala bem desenhando. Risco e palavras são, para ele, indissociáveis.

Mas, de algum lugar, surgiu um toco de carvão – e com isso, ele falou de suas obras, desde a Pampulha até o alojamento para os estudantes de Oxford. Ao falar deste, disse:

– Estou gostando de trabalhar com essas formas gaudiescas.

Ao fim da palestra, o prof. Almir Fernandes, sabedor do meu gosto pelas obras do arquiteto catalão, me perguntou:

– Você reparou que o único arquiteto que ele citou foi o Gaudi?!

Niemeyer desenhou uma faixa, de lado a lado, na parede atrás do palco, limitada abaixo e acima, pelo alcance da mão. Ficou um painel estupendo, coisa que, ao que me consta, nunca foi repetida.

No dia seguinte cedo, fui, de câmera em punho, documentar o mega desenho. A parede tinha sido pintada, com vários demãos de tinta e outros tantos de raiva, porque nada mais se percebia.

Fui a tantas obras do Niemeyer quantas tive oportunidade. A maioria me causou espanto admirativo, embora, em alguns casos, com desconfortos.

Uma dessas,é o Grande Hotel de Ouro Preto – que deveria ser demolido em homenagem e consideração ao profissional que ele foi. O volume e a arquitetura são incompatíveis com o lugar, no centro da cidade. Eu descia das Mercês de Cima em direção à Casa dos Contos, vi aquela cobertura e achei que era um barracão de obras – passando em frente é que a placa me informou do que se tratava. Ele reforça a idéia do Modernismo autoritário, desdenhoso da coisa histórica, independente e agressivo ao entorno. O lugar poderia comportar uma homenagem a ele, Niemeyer, como mineiro. Talvez uma estátua eqüestre entre árvores, sei lá…

Já me formando, em 1972, fui com colegas visitar as obras do “Olho” – onde se pretendia instalar o Instituto de Educação. Os boatos da época diziam que o governador queria as mocinhas enfeitando a paisagem visível do Palácio Iguaçú… Mas independente do que eu achava que devesse ser um colégio todo fechado numa caixa de concreto, sem aberturas para o exterior, estava ali uma obra inesquecível. A coragem extraordinária que nunca faltou em suas obras, a apurada concepção estética, a monumentalidade estarrecedora – características de todas as suas obras. As fotos deste post, foram feitas nesse dia, e são inéditas. Mais tarde (1982) percebi que era uma reproposta do partido de um colégio estadual de Belzonte – mais ousada.

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Outro desconforto, o Memorial da América Latina. Não em relação aos pavilhões em si – que são niemeyerescos e isso diz tudo: volumetria, luzes, uma soberba aula de Arquitetura. Mas aquela implantação ao redor de um pátio cimentado com milhares de metros quadrados. É o mesmo partido do Ibirapuera e evidentemente valoriza as construções com perspectivas ricas e inesperadas – principalmente quando chove e os prédios são refletidos nas poças dágua. Mas num dia de sol, atravessar aquilo de um lado pro outro, no calor do efeito estufa da poluição paulista…

Nas minhas aulas, eu costumava dizer que Niemeyer deu a Sanpa o  que a cidade mais precisava: concreto, aridez, ausência de vegetação. Talvez isso tenha sido contornado, faz tempo que não vou lá.

As outras impressões – e são muitas – me fazem saber que ninguém com um mínimo de sensibilidade freqüenta uma das grandes obras de Niemeyer impunemente. Alguma coisa sempre muda na nossa maneira de ver o espaço construído.

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Uma reação que sempre achei engraçada foi de meus alunos, desembarcando diante da igreja da Pampulha e comentando:

– Mas é só isso mesmo?! É essa a igreja ou é só a maquete dela?!

Entendo que essa impressão decorre de terem conhecido a Catedral de Brasília antes da discreta – e preciosa – capela de São Francisco da Pampulha.

Encerro destacando um aspecto da obra de Niemeyer que, ao que me conste, nunca foi explorado, e pede por isso. Trata-se da importância das curvas hiperbólicas em seus projetos. Está em toda parte, combinada e valorizada pelas linhas retas. Da Pampulha, passando pelo Ibirapuera, Brasília, obras européias – até o Museu Oscar Niemeyer de Curitiba. Este, para desespero de quem não sabe a diferença entre Arquitetura e política, apontado pelo historiador da Arquitetura italiano Leonardo Benevolo como “o grande olho aberto na direção do futuro”.

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