OURO PRETO! OURO PRETO!

19 de outubro de 2013 por keyimaguirejunior

OURO PRETO, OURO PRETO !!!

“Ouro branco! Ouro preto! Ouro podre! De cada

            Ribeirão trepidante e de cada recosto

            De montanha o metal rolou na cascalhada

            Para o fausto d’El-Rei, para glória do imposto.

      Que resta do esplendor de outrora? Quase nada:

      Pedras… templos que são fantasmas ao sol-posto.

      Essa agência postal era a Casa de Entrada…

      Esse escombro foi um solar… Cinza e desgosto!

            O bandeirante decaiu – é funcionário.

            Último sabedor da crônica estupenda,

            Chico Diogo escarnece o último visionário.

      E avulta apenas, quando a noite de mansinho

      Vem, na pedra-sabão lavrada como renda,

      -Sombra descomunal, a mão do Aleijadinho!

                                   (Manuel Bandeira, “Antologia Poética”, 1977)

      “Conta o Padre Antonil que, numa expedição de paulistas vindos de Taubaté, na região de Cataguazes, um mulato desceu das alturas da Serra do Tripuí – antigo nome da região de Ouro Preto – até as margens do riacho do mesmo nome, hoje Antonio Dias. Mergulhou a gamela na correnteza, revolvendo a areia e, quando a retirou viu que havia, com a água, uns grãos pretos, que ele não reconheceu – ele que havia trabalhado antes nas minas de Paranaguá e de Curitiba. Voltando a Taubaté, vendeu-os a um tal Miguel de Souza, por meia pataca. Alguns foram enviados ao governador do Rio de Janeiro, Arthur de Sá e Menezes. Este os quebrou com os dentes e descobriu o metal: era ouro, e da mais fina qualidade. Assim, um mulato descobria, no humilde gesto de recolher água para matar a sede, aquilo que, havia muito tempo, as expedições impacientes e sempre decepcionantes procuravam pelo sertão.”

                  (Também Manuel Bandeira, no “Guide d’Ouro Preto”, 1948)

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Há mais ligações entre Ouro Preto (1698) e Curitiba (1693) do que supõe nossa vã filosofia.

A antiga capital mineira é um exercício de percepção: tem uma riqueza visual que a torna a mais bela das cidades brasileiras. Embora prá dizer isso eu tivesse que conhecer todas as demais, um simples passeio, um primeiro olhar traz essa sensação: não há no país outro conjunto arquitetônico comparável, seja pela unidade, seja pela harmonia espacial, seja pelo valor documental e afetivo.

Ouro Preto figura sem o menor desdouro ao lado das cidades e centros históricos medievais italianos e europeus – eu diria que, como documento e como espaço, é única em sua configuração e personalidade. Tanto que sempre se cruza pelas ruas com estrangeiros que, ao desembocar na Praça Tiradentes ou no Largo de São Francisco, exclamam:

– Ma é meravigliosa! Wonderful! C’est merveilleuse! Minunat! Wunderbar! Riquissima!

E no entanto, apaixonado como sou por ela, preferia que não fosse brasileira. Melhor que estivesse em qualquer país europeu, por menor que seja, desses que se alardeia que estão numa crise braba mas, salvo bombardeio americano, cuidam carinhosamente de suas cidades. Que crescem, evoluem, progridem sem perder coisa alguma. Porque essa idéia de que progresso se faz detonando o existente é tão bronca que só mesmo em países com uma classe dirigente  bronca como a brasileira é possível.

Freqüento Ouro Preto há várias décadas e a única melhoria que aconteceu na cidade foi o paisagismo do antigo córrego Tripuí, que tangencia a Casa dos Contos.

Só isso. Ônibus, carros e caminhões continuam sacudindo tudo, rachando paredes, fazendo deslizar as telhas, estragando os importantes calçamentos.

A instalação do Museu do Oratório na Casa do Noviciado do Carmo é um peso-pesado. Trata-se de um dos melhores museus brasileiros, onde tudo é como deve ser. Mas é iniciativa particular, e tão louvável quanto insuficiente.

E o quê mais? Algumas obras de socorrismo, prá evitar a cassação do título de Patrimônio da Humanidade. Os políticos, enquanto isso, jogam dinheiro pela janela para se garantirem no poder, e uma continha safada de gostosa nos paraísos fiscais. Ou, na pior das hipóteses, uma aposentadoria régia para seus apadrinhados.

Mas voltemos ao assunto. Falar de política e políticos dá vontade de pegar faixas e megafones e ir gritar a indignação nas ruas.

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     Nem toquei no pior ainda. Ouro Preto está afundando que nem Veneza. Só que a Sereníssima República será salva, disso não tenham a menor dúvida, porque lá o problema é apenas o Mar Adriático. Aqui é a incomensurável má fé, incompetência e ignorância das classes políticas brasileiras. O cinturão de sub-habitações escala as encostas do Itacolomi até a cota da Praça Tiradentes; invade e descaracteriza a Ladeira da Santa Ifigênia. Interfere e sufoca todas as vistas da cidade, que dependem dos morros como fundo para serem entendidas.

Como cidadão deste pobre país e deste malfadado planeta, tenho direito a algumas providências imediatas com relação a Ouro Preto.

PRIMEIRO, supressão ou pelo menos neutralização paisagística do Grande Hotel perpetrado por Niemeyer. A meia-água com cara de barracão de obra rodoviária denigre a obra de nosso arquiteto mais conhecido. Por seu volume e localização, interfere na área mais importante da cidade. Havia em Olinda uma interferência semelhante, também projetada por um figurão local, e os pernambucanos tiveram o bom senso de remove-la. A paisagem da cidade ganhou muito.

SEGUNDO, supressão total do tráfego de veículos. Poucos moradores ainda restam na parte central da cidade, e para eles pode ser adotado um sistema de carros elétricos, leves e não-poluentes, como já são usados no centro de Salvador e aí pertim, no Inhotim. Um esquema bem planejado atenderia às necessidades da população, mas não se pode resvalar de volta para o veículo individual.

TERCEIRO, remoção das construções interferentes na paisagem da cidade. Há quem diga que lá “é o melhor lugar para se morar em Ouro Preto, porque de lá se vê aqui e daqui se vê aquilo”… Poder-se-ia construir conjuntos em locais não visíveis, atrás dos morros, com bom transporte e estruturas urbanas atraentes. E devolver a Ouro Preto a paisagem a que ela tem direito.

É difícil? É, sim, muito difícil. Dificílimo. Mas vocês deixaram isso acontecer, agora arrumem. Achem os meios de resolver que satisfaçam a todos. Virem-se, achem os técnicos e os financiamentos certos, e resolvam. Prá isso são pagos, os brasileiros e os ouro-pretenses pagam impostos de dar saudades dos quintos d’El Rei. E nós, cidadãos brasileiros e do mundo, estamos de olho.

Observação: minhas fotos são do dia 12 de outubro de 2013

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