AS CIDADES INVIVÍVEIS – 3

7 de outubro de 2013 por keyimaguirejunior

(Treze teses sobre a crescente inabitabilidade das cidades neoliberais – tipo Curitiba) Terceira tese: contra o metrô.

Em “O moderno e o modernismo”, diz Federick R.Karl: “As pessoas matarão pelo que é moderno – ou matarão para se opor a ele”. Pode-se acrescentar que, mais facilmente, em nome do que é moderno, deixarão detonar suas cidades.

Com relação ao metrô de Curitiba – e demais obras do faraonismo esportivo – faço de bom grado o advogado do diabo. Escavo dificuldades, identifico problemas, coloco pontas em tudo. Explico: quando são deflagrados interesses desse porte, eles se tornam incontroláveis. Tudo se sacrifica para que a obra seja efetivada, aceita-se a perigosa idéia do progresso sem ordem, entram na ordem do dia insanidades do tipo “é o preço do progresso”, “não se faz omelete sem quebrar os ovos” e assim por diante.

Em sua crônica deste sábado, a jornalista Marleth Silva entra para o grupo – maior do que os partidários do trem enterrado possam imaginar – dos que se angustiam com a idéia, com a afobação com que nos deixamos envolver pela suposta modernidade inconsistente e global, deixando destruir o que nos é característico e específico, como se fosse a coisa mais natural do mundo:

     “…o desperdício de recursos nesse ciclo construir/destruir/reconstruir, a falta de personalidade das ruas sempre renovadas segundo o último modismo, que não contam a história da cidade e de seus habitantes…”

     Não pretendo discutir o metrô em si, principalmente porque ele é apenas um dos componentes do nó górdio que é o transporte coletivo nas nossas cidades. Mas tenho usado metrô em algumas grandes urbes do planeta e não sei se ele resolve problemas na medida de seu custo. Na relação custo/benefício, como dizem os neoliberais, acho que os custos vão muito além dos benefícios. Mas reconheço que é difícil avaliar como seriam as coisas, nas cidades que o têm, sem ele. Talvez piores, ou talvez os planejadores tivessem espremido seus cérebros de minhoca – literalmente – e achado soluções melhores, não simplesmente optado por uma pré-existente. Em cidades bem equacionadas e bem planejadas, o metrô é um elemento importante – mas não definitivo.

Também não sei se a sensação de ganho de tempo que se tem ao usá-lo não é mais forte que o ganho efetivo. Com o carro, essa ilusão é evidentemente uma ilusão mesmo; perde-se muito mais tempo usando o carro que não o usando. Mas com o metrô acontece um outro fenômeno: quando entramos numa estação subterrânea, o tempo da superfície deixa de existir. Perde-se a relação com as outras velocidades, nada mais se vê além das caras dos outros passageiros, todos ansiosos para chegar logo e sair dali. O tempo entre nossa entrada e a saída é como que recortado de nossas vidas, é tempo não vivido. Pelas janelas, vemos apenas as tenebrosas paredes escuras e os nomes das estações ao chegar a elas. Nem mesmo a velocidade se avalia bem e, mesmo para quem é apenas levemente claustrofóbico, o melhor do metrô é sair dele. É um alívio tão grande que talvez explique seu prestígio: sem ver nem sentir nada, chega-se ao outro lugar…

Mas, com dizia antes, não pretendo discutir aqui o metrô em si. Tenciono mencionar apenas uma – e só uma! – das preocupações que me causa essa cirurgia na minha cidade: foi tirada uma licença patrimonial? A licença ambiental, dizem as reportagens, foi tirada. Muito bem, mas e a patrimonial?

Das 22 estações previstas para a primeira linha-tronco – porque, não se iludam, metrô é daquelas coisas que jamais ficam prontas, é abacaxi para toda a vida – em pelo menos cinco passa por locais de interesse patrimonial cultural. Nesses locais, o risco teria que ser avaliado segundo critérios específicos. E é claro que estou me referindo apenas aos nomes das estações, visto que não conheço o projeto em si: Alto da Glória, Passeio Público, Rua das Flores, Eufrásio Correa e Osvaldo Cruz.

A preocupação é menor mas existe em relação ao visual das estações: se tiverem os projetos concursados, podem ser boa arquitetura, capaz de contribuir com a paisagem da cidade. Mas temo pela estabilidade das antigas construções, que não foram feitas para suportar esses tipo de circulação e muito menos, as obras de sua implantação. Quando a prefeitura joga – e a palavra aqui não é casual – trânsito rápido e pesado em bairros residenciais, surgem problemas nas construções – rachaduras nas paredes, coberturas deslocadas, ruído e poluição. Que deveriam ser indenizados, mas para essa gente, nós existimos para lhes fornecer dinheiro, não para receber pelos prejuízos.

Também me preocupo quando lembro do prof.Igor Schmyz, em reunião do Conselho Estadual de Tombamento, afirmando: “…onde tem rio, tem interesse arqueológico”.  E a tal obra rasga muitos locais com rios. Então, no rio de dinheiro que vai custar essa obra, há previsão de pesquisa arqueológica e consolidação das construções existentes?

Duvido muito, está todo mundo ofuscado com a aparente modernidade da coisa, e de olho em alguma sobrinha nesses bilhões de reais quase irreais…

ImageObservações:

-texto publicado na “Gazeta do Povo” de 11 de outubro de 2011

-o cartum é de Andrej Novak, num álbum interessantíssimo “Z mojega okna”, publicado em Ljubljana, Eslovênia, em 1989

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