O MESTRE-DE-RISCO E OS POMBOS

3 de outubro de 2013 por keyimaguirejunior

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Mestre Antonio Francisco Lisboa

perambula pelas ruas desertas da Vila Rica do Ouro Preto.

Ele sabe

que não tem mais tempo

que não quer mais tempo.

Mestre Antonio Francisco Lisboa

o maior artista desses novos continentes

o maior toreuta

o maior escultor

o maior arquiteto

está morrendo indigente

doente

e só.

Mestre Antonio Francisco Lisboa

passa pela São Francisco de Assis

e como não tem a alma pequena

sabe que valeu a pena.

Os pombos aplaudem

sobrevoam o mestre de gênio

brincando de não reconhecer

o criador de tantas belezas imortais.

Mestre Antonio Francisco Lisboa

às duras penas

do corpo cansado

mutilado

aleijado

chega à Igreja da Ordem do Carmo

feita desdenhosamente de costas

para o Paço do Conselho dos Homens Bons

para a praça onde foi exposta

“em marca de ignomínia”

a cabeça libertária do dentista

de onde toda a Vila Rica

seus arraiais

seu ouro

seus poderosos del Rey

seus escravos

pode ser admirada

ou desdenhada

como a maior cidade destas Minas Gerais

incomparável jóia deste continente vespuciano.

Mestre Antonio Francisco Lisboa

no átrio da Nossa Senhora do Carmo

lembra os tempos em que fazia igrejas com o pai

metendo nas obras do velho português

novas formas

novas volutas

novos medalhões

novas portadas

Toda a sua arquitetura

para a fé dos habitantes da Vila Rica do Ouro Preto.

Mas,

principalmente,

para seus pombos

como gostaria o outro Francisco, o de Assisi.

Mestre Antonio Francisco Lisboa

desde os tempos da doce samaritana

até os tempos dos amargos profetas

foi deixando pedaços do corpo doente

e de vida

em Sabará

em Congonhas do Campo

em Mariana

em São João Del Rey

mas, principalmente,

nesta inconfidente Vila Rica do Ouro Preto

que traiu Dirceu de Marília

e se deixou continuar escrava.

Mestre Antonio Francisco Lisboa

envolto em trapos

sujos da terra do ouro da terra

e da impiedade dos homens

dolorido e esquecido

se despede das montanhas, do bizarro Itacolomi,

do medalhão das Mercês

das muitas casas brancas

(com tudo o que elas contem)

e voa leve para o céu brilhante

no ruflar das asas dos pombos

e dos anjinhos barrocos…

RECADO: aluninhos e aluninhas, estou indo para uma semana nas Minas Gerais. Senti falta de ligar reservando o Jorge da Montana,os quartos da Pureza e da Vaticano, a Casa das Sanpaias no Caraça… talvez um almoço no ZéDias com um sorvete de sobremesa em Tiradentes… mas, enfim, é a vida… Estamos  indo apenas dois casais de velhinhos, para encarar as ladeiras da Vila Rica do Ouro Preto. Saudações mineiras,

Key

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