A CASA DA GERDA

1 de outubro de 2013 por keyimaguirejunior

Certa tarde, ao voltar das aulas no Centro Politécnico, encontrei sobre minha mesa três volumes muito antigos. Era “Der Russisch-Japanische Krieg”, de G.E.Reventlov, de 1905. Meu pai explicou que uma antiga cliente o trouxera – não tinha condições de pagar pelo tratamento dentário. Embora não podendo ler o alemão gótico do texto, consegui entender a narrativa histórica pelas muitas ilustrações “Nach einem Photographie”. Mesmo sendo uma perspectiva dos perdedores da guerra, e portanto viciada, sugeri a aceitação do “pagamento”.

Anos mais tarde, na minha fase de arqueologia quadrinística, lembrei dessa cliente e fui à sua casa. Cheguei tarde, o Aramis Milarch já comprara todos os gibis…

Mas me fascinei com a casa e com a moradora.

C (6)

As janelas frontais do sótão; e o poço com gato.

     Antiga construção em madeira, feita aproximadamente em 1930 por um mestre de obras alemão (“bauentenemer”) meio inexperiente, era um exemplar particularmente interessante.

Antes de mais nada, pela planta. Resolvida em função da rua, tinha duas entradas, uma em cada lateral, como era normal nas construções com influência da imigração européia, contrariando a tradição lusitana de entrada frontal. Passado o portão da rua e o afastamento ajardinado, percorria-se as varandas até o fundo. A da esquerda, passava pela entrada social e ia até a sapataria aos fundos. A da direita, passava pela entrada íntima – o saguão da escada para o sótão dos quartos – até a cozinha. Essas varandas eram formadas pelo prolongamento das águas do telhado, na direção  das laterais do terreno.

C (3)C (4)

Plantas do terreo e do sótão

     Outro aspecto diferencial, era percebido no corte transversal. As paredes externas – feitas com tábuas inteiras com mais de 3,50 metros, prolongavam-se acima do pé direito das peças térreas, gerando um sótão de grande volume, com circulação e quatro quartos.

C (2)

Corte transversal

     Nunca havia passado por manutenção, mínima que fosse – e resistia impávida, contrariando a má-fé de quem afirma a pouca durabilidade da madeira da araucária. Tinha uma cor acinzentada, abaixo da linha de proteção dos beirais.

As moradoras – a Gerda e sua mãe – se lavavam naquelas banheiras de folha de flandres, mais altas atrás e usavam a casinha, a uns vinte metros em direção aos fundos do terreno. Água vinha do poço e o fogão a lenha era alimentado por galhos secos catados no pequeno bosque atrás da casa. Foi já na década de oitenta que – nunca me contaram o episódio – foram obrigadas a instalar água corrente na cozinha e um pequeno banheiro na casa.

Além da Gerda e sua mãe, moravam na casa doze gatos (de idades variadas), cinco cachorros (um dos quais cego, não saía da sala-depósito) e três galinhas. Todos muito à vontade e felizes apesar da pobreza. Na hora do almoço, ela cozinhava um panelão de arroz com chouriço – com os cães e gatos ao redor do fogão, esperando a distribuição, às vezes chamuscando os bigodes pela ansiedade. As galinhas punham seus ovos nas terrinas do guarda-louça sempre aberto, como o presente que lhes era possível, para a dona.

C (5)

Varandas da esquerda e da direita, com a Marialba durante o levantamento.

      Muita gente a visitava, querendo comprar antiguidades, das quais lamentava muito se desfazer: era tudo “de estimação”, herdado de parentes e amigos. Muito honesta mas também muito ingênua, quando vendia alguma coisa, por uns trocados, chorava na despedida…

O que recebera na casa, pertencente a Erbo Stenzel, tinha catalogado na memória com precisão. Jamais vendia sem ir à casa de repouso onde o escultor viveu o fim de sua vida, perguntar se podia vender. Foi assim com uma magnífica prensa antiga para gravuras; presenciei também uma tentativa de compra de um Vanguard dos anos cinqüenta apodrecendo na garagem.

Tinha chegado ali dezoito anos antes, para ocupar uma casa vazia há cinco ou seis, “provisoriamente” e por cortesia da família Stenzel. Não lhe cobravam aluguel nem impostos…

Às vezes, mostrava coisas surpreendentes. Como a maquete da Praça 19 de Dezembro, de autoria de Erbo. Ou uma pele de raposa – tinha trabalhado como peleteira na Casa Amhof, e sabia lidar com isso. Fazia outros pequenos trabalhos artesanais, sempre muito bem feitos, por uns trocados.

C (7)

A “Sala Grande”, vista a partir da menor; o quarto do Bobby.

     Um belo dia, pesquisando a obra de Erbo Stenzel, surge na casa a Didonet Thomaz. Como não podia deixar de ser, tornou-se freqüentadora assídua daquele paraíso surrealista. Para alegria da Gerda, a quem pesava a solidão depois da morte da mãe, dez anos antes.

Quando a família requisitou a casa – tinham planos para o grande e valioso terreno, a uma quadra do Cemitério Municipal – foi quem articulou a doação à Prefeitura e traslado para o Parque São Lourenço. Não por acaso, diante da oficina de escultura do Elvo Benito Damo.

Essas articulações já aconteciam, envolvendo órgãos oficiais diversos, e lideradas pela Didonet, quando a Gerda ficou doente e faleceu.

Faleceu antes da inauguração da casa trasladada, em junho de 1998. Eu quase não fui também porque, em que pese meu respeito pela obra do Erbo Stenzel – que não conheci pessoalmente – aquela casa nunca foi dele. Foi sempre da Gerda. De sua mãe sempre sorridente, fazendo crochê sentada na cadeira de balanço da “sala grande”. Do cão cego Bobby, e dos demais, que latiam numa alegre algazarra quando a gente chegava e batia palmas no portão, mas não mordiam. Da dúzia de gatos, sempre circulando ou dormindo em algum lugar por toda parte, todos tratados com carinho imenso. Da paz entre todos eles, vivendo numa pobreza franciscana – mas felizes.

C

O “Quarto da Caixa d’água”, onde eram guardados os materiais de Erbo Stenzel; e a cozinha, durante o almoço dos gatos.

Antes da Gerda adoecer, a Marialba fez o levantamento arquitetônico para o traslado – com as então estudantes Claudia Joly e Cristiane Michel. O fim do trabalho foi comemorado com um bolo “toalha felpuda”, sobre a qual um dos gatos passeou, deixando pegadas como num campo nevado…

Com a doença, deixei de visitá-la. Egoisticamente, preferi ficar com sua imagem “clássica”, arrastando os pés para não pisar no rabo de algum bicho, se locomovendo em busca de alguma coisa para mostrar.

C (8)

     A casa, novamente abandonada, tem um futuro fácil de prever: será invadida pelos maloqueiros e incendiada. Filme antigo, já reprisado até a exaustão.

Quanto à alma da casa… não sei o que foi feito dos felizes cães, gatos e galinhas. Não sei onde foi parar aquele tesouro de revistas, livros, fotos, postais, gravuras, objetos, roupas, móveis antigos e nem sei bem o quê mais, que nunca vi. Não sei se as árvores foram poupadas ou cortadas. O quê foi feito do Bobby, o cãozinho cego?

Tem coisas que é melhor não saber mesmo.

Leitura recomendada:

“A Casa de Araucária; arquitetura da madeira em Curitiba”, do Instituto Arquibrasil.

Observação:

As fotos em B&P são minhas, a colorida, da Marialba

Anúncios
%d blogueiros gostam disto: