O BRASIL MIJÃO

29 de setembro de 2013 por keyimaguirejunior

(Quando nossos políticos dão esses vexames internacionais – tipo acolher bandidos dos outros, como se tivéssemos poucos; gastar rios de dinheiro com estádios quando nossas estruturas mais básicas são precaríssimas; adiar indefinidamente a punição de ladrões ricos e importantes – enfim, tanta coisa que cada um faça sua própria lista – eu lembro dessa crônica. Infelizmente não anotei a data – precisaria mergulhar por uns dias nos Insofismáveis Arquivos do João Antonio Bührer d’Almeida prá achar. Mas foi numa das primeiras edições do “O Cruzeiro” depois da renúncia do Jânio Quadros. Portanto, início dos anos sessenta. O autor foi José Alberto Gueiros, a secção tinha por título “Luzes da Cidade” – aquelas discretas meia-colunas onde saiam crônicas primorosas – ao que eu saiba, nunca reeditadas. Mas, uns cinqüenta anos depois, é impressionante como continuamos os mesmos…

As ilustrações são do álbum de figurinhas das Balas Atlas, de 1955. Portanto, apenas seis anos antes do texto.)

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         O Brasil – numa definição bocagiana – é o país que, quando começa a dar a impressão de estar atingindo a maioridade, faz pipi nas calças.

É triste pensar que viveremos assim, como republiqueta sul-americana, até o fim dos tempos. Mas não se pode tentar esconder o sol com a peneira. Tudo isso que aí está é o fruto da nossa imperfeita formação moral e cívica. É a resultante lógica do espírito baderneiro dos povos subdesenvolvidos.

Somos mesmo – queiramos ou não – a gente que cospe no chão das salas, que escreve pornografias nas paredes dos banheiros públicos, que atropela o pedestre quando na direção de um veículo e avança fora da faixa quando na posição de pedestre, que arranca flores dos parques, que joga pontas de cigarro pela janela, que destrói a sinalização das estradas, que rasga de navalha as poltronas estofadas dos teatros e dos cinemas…

Somos essa gente. No princípio fomos a mistura de escravos, índios, prostitutas e degredados portugueses. Hoje nos chamamos brasileiros de quatrocentos anos e nos especializamos em revoluções, tanto quanto nossos “colegas” da América Hispânica se especializaram em “pronunciamientos”. Falta-nos, pelo menos, quinhentos anos de civilização. Faltam-nos bom gosto, sentido de grandeza, senso político, maturidade intelectual, noção de responsabilidade. E o que é pior: cada um de nós se julga impecável. Só os outros merecem reparos. E “os outros” são todo mundo menos eu (terá pensado o leitor inteligente e bem formado).

É curioso como sabemos criticar a humanidade sem jamais olhar nossos próprios defeitos. População de analfabetos (de cada dez brasileiros, seis desconhecem totalmente a cartilha, dois sabem “ferrar” o nome e apenas dois conseguem ler o jornal), temos uma facilidade enorme de chamar os outros de burros e de nos achar, a nós mesmos, geniais. E na verdade somos, quando muito, uns índios civilizados, capazes de pronunciar sem maior respeito à gramática, certas frases repetidas dos colonizadores europeus ou norte-americanos. Nossos jovens dançam o “rock-and-roll” dos americanos, vestidos de “blue jeans”, mascando chicles e se dando ares de “beatniks” importados, ou entram na linha gasta da Brigitte Bardot, reduzindo o pano das roupas e o número de abluções faciais, deixando o cabelo esconder a sujeira da fronte.

Somos assim. Imitamos o que há de pior nos outros povos. Não gostamos de ser ordeiros como os suíços, responsáveis e distintos como os britânicos, pesquisadores à maneira dos alemães, progressistas e eficientes do modo americano, pugnazes segundo os soviéticos. Adoramos e adotamos – isso sim – as cafajestadas de outras terras. Somos, na acepção da palavra, uns grandes patuscos.

Não estamos contra “A” nem contra “B” no espírito deste artigo. Estamos contra o sistema nacional cheio dessas “mancadas” históricas. Já era tempo de havermos tomado vergonha na cara. Temos cara de adultos, roupa de adultos, atitudes de adultos, mas fazemos, de vez em quando, um humilhantíssimo pipi nas calças.

Ficamos assim com cara de palhaço, pinta de palhaço e jeito de palhaço até o fim.

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