TRAUMATISMO UCRANIANO

25 de setembro de 2013 por keyimaguirejunior

(O “making of” do livro “Igrejas Ucranianas: Arquitetura da Imigração no Paraná”)

Se eu tivesse que escolher uma preferida, entre as centenas de trabalhos de pesquisa em que me meti – certamente seria essa, em que tudo funcionou bem e deu certo, da escolha do tema ao desenvolvimento e resultado.

O começo foi como um rio: vários riachinhos vão se juntando até formar, para não ser muito pretensioso e ficar no Paraná, um riozão tipo o Iguaçú.

Um desses inícios foi durante o meu mestrado (1981) quando perguntei à profa.Oksana Boruszenko:

K- Conheço as construções dos imigrantes italianos, dos poloneses e dos alemães na região, mas o quê os ucranianos nos deixaram?

O- Fizeram as igrejas com cúpula de cebolinha…

K- Mas e as casas? Onde eles moravam?

O- Os ucranianos são muito religiosos, a igreja era a prioridade.

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(Nas paisagens do interior do Paraná, é frequente a presença das cúpulas metálicas, nas cidades como nas áreas rurais)

     Outro início: chamaram em caráter emergencial “algum professor do Departamento de Arquitetura da UFPR” a Porto União da Vitória. Um padre queria demolir uma igrejinha de madeira na localidade de Barreiro e a encarregada do Patrimônio Cultural da cidade discordava. E estava com toda a razão: fomos conferir e a tal igreja era muito interessante, aquelas coisas cheia de raízes na cultura local. Foi indicada para preservação e, felizmente, salva.

A essa altura, já tínhamos percebido a ponta do iceberg – e fomos visitar o Museu do Milênio, em Prudentópolis. Dona Meroslawa Krevei nos mostrou um painel com suas próprias fotos, coisa simples, mas que surpreendia: igrejas com planta octogonal, ou cruz grega, paramentos ortodoxos, cúpulas metálicas… A Marialba ficou encantada com isso, e anunciou estar interessada em ver mais. Começamos então a visitá-las por nossa conta, indo a lugares tão ermos quanto o XV de Cima.

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(Dona Meroslawa Krevei, uma lutadora pela preservação da cultura ucraniana no Brasil, Diretora do Museu do Milênio de Prudentópolis)

     O passo seguinte e definitivo foi devido à existência do Instituto Arquibrasil, da Jussara Valentini e do Roberto Martins. Daí surgiu a possibilidade de constituir uma equipe, com o Fabio Batista e a Sandra Rafaela.

A pesquisa foi proposta à Petrobrás, que a aprovou, e depois inscrita na Lei Rouanet. E, acredite quem quiser, o dinheiro veio mesmo…

A profa.Oksana abriu a porta da frente, nos apresentando aos bispos ucranianos das igrejas latina e ortodoxa: D.Jeremias, D.Volodemer, D.Efraim e D.Daniel – de quem tivemos a melhor acolhida e colaboração. Foi a base da pesquisa: uma relação de todas as igrejas ucranianas existentes no Paraná, bem como autorizações escritas para o trabalho. Basicamente, estão localizadas numa faixa que começa em Curitiba, passa por Prudentópolis e se estende ao longo do Rio Iguaçú até depois de Porto União da Vitória.

Na região central do Paraná também há comunidades e igrejas, mais dispersas. Para quem esperava um universo de umas cinqüenta unidades, constatou-se que havia quatro vezes mais objetos de estudo…

A primeira etapa de trabalho, foi percorrer todas elas, fichando e fotografando. Os carros alugados – e abastecidos com combustível da Petrobrás, é claro – foram dirigidos pela Marialba, única motorista da equipe, ao longo de uns doze mil quilômetros. Ao fim dos quais, ela já esquecia até de puxar o freio de mão e tinha que pegar na corrida  o carro descendo a ladeira. Essa fase foi dela, do Fabio e do Ramóm, fotógrafo oficial do trabalho.

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(Primeira fase da pesquisa:Fábio, Marialba e Ramón percorrem os interiores do Paraná; Ramón descobre a fotogenia de sua bolsa)

Essas unidades foram tabuladas, mapeadas e daí surgiu uma seleção de 25 igrejas especiais – pela antiguidade, por serem de madeira ( mais frágeis, menos prestigiadas ) e as mais veneráveis ( que demonstravam maior esforço da comunidade ) .

Depois houve o curso de treinamento em levantamento, dado pela Jussara, com aula prática numa igreja de Curitiba.

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(Curso de levantamento arquitetônico)

     Aí começa a melhor etapa da pesquisa, a mais “romântica”: essas escolhidas foram visitadas novamente, agora para levantamento fotográfico, arquitetônico e histórico. As equipes aumentadas pelos estagiários, eram alugados dois carros. O importante era que o combustível fosse da Petrobrás…

O lado mais emocionante ficou por conta das próprias igrejas – com suas cúpulas metálicas, seus gramados cuidados, sua implantação entre plantações, araucárias (ainda tem algumas), estradinhas precárias. Algumas tão perdidas nos sertões que nem restaurante havia na localidade. E eram refeições divertidas, em alpendres, à base de sanduiche de mortadela, maria-caxuxa e refrigerante morno. Claro que também havia refeições sérias, em restaurantes…

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(Refeições, saco vazio não pára em pé nem mede igreja, e estudo de reflexos pelo Fabio)

       Houve um desses almoços na igreja da “irmã inferiora” – uma criatura enfezada que, ao longo do trabalho, foi a única a revelar hostilidade, só falava em demolir a igreja. E conseguiu… sem a carta de autorização do bispo, ela não nos teria permitido fazer o trabalho.

Fora ela, fomos sempre bem recebidos. Como na Igreja da Vargem Grande onde, após um dia esticando trena, fomos agraciados com uma suculenta melancia colhida especialmente para a nossa sede.

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(Melancia fresca num fim de tarde quente…)

     Sempre que possível, na busca de documentos e fotos antigas, deixamos com as pessoas insidiosos recados visando a preservação:

Ucraniano – … agora a igreja está velha, precisamos de uma nova…

Nós – Mas a que custou o trabalho dos imigrantes foi essa, ela é que mostra o esforço que precisaram para construir, fizeram em madeira porque naquele tempo era o material mais barato… eles sacrificaram muita coisa prá fazer essa igreja!

Ucraniano – É, os imigrantes sofreram muito prá construir… nós não sofremos nada, vamos todos morrer de pé e dando risada…

Nunca colidimos com o meio ambiente, mas sempre, à porta das igrejas, encontramos besouros mortos ou agonizantes – efeito da iluminação incomum. Entrando, o cheiro característico: xixi de morcego (das cúpulas e campanários) com mel de abelha (que fazem suas usinas de produção no vão das paredes duplas de madeira.

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(Entre besouros, abelhas e morcegos, prefiro os primeiros)

     Na igreja do XV de Cima havia tantas abelhas mortas que foi preciso varrê-las antes do levantamento – o que foi aproveitado para uma homenagem ao nosso patrocinador. Elas tomaram cruel vingança, no levantamento da igreja de Gonçalves Junior, irritadas com a trena eletrônica que eu usava no coro, me atacaram com 42 picadas…

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(Não cometi esse abelhocídio, mas paguei a conta…)

     Enquanto a gente media, o Fábio ou a Monize iam lançando os dados no CAD de um note-book e, no fim do dia, o levantamento estava não só feito como também fechado. Os cortes eram feitos no escritório, com apoio das fotos.

Muitas coisas interessantes foram descobertas na pesquisa de campo: a riqueza das soluções dos campanários, das cúpulas, dos limpa-pés… O Fábio ainda inventou de aprofundar na construção das cúpulas, das iconostases, das faixas decorativas de stênceis – para o que se aproveitou da paciência nipônica do Álvaro.

Houve algumas decepções, como por exemplo o obstáculo visual representado pelos volumosos “baracões do churasco”. No entanto, compreende-se sua importância para manter agregadas as pequenas comunidades rurais e cidades que tendem a se esvaziar.

Apesar de não ser um trabalho lá muito leve, era divertido porque as equipes eram boas: Aline, Camila, Cintia, Eliara, Lucas, Luz, Kelen, Nina, Thamile…

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(Vista do coro para o altar. Monize com pressa de trabalhar)

     Ao mesmo tempo em que os levantamentos arquitetônicos iam sendo feitos, era pesquisada a bibliografia e a documentação. Como nenhum de nós entende ucraniano, a profa.Oksana e dna.Olga Blachechen liam e nos relatavam o mais importante. E quem “fechou” a pesquisa, com os últimos dados e históricos, foi a hiperativa Nadia Besciak, como compensação pela frustração de não ter participado das viagens para levantamentos…

Tudo isso ia sendo encaminhado pelo Sedex para a Sandrinha lá nos Nordestes, que escrevia e devolvia, aqui era modificado quando necessário, voltava prá lá – teve até conferências internéticas prá acertar a infinidade de informações.

Essa foi a fase mais complicada, de sentar no computador por horas seguidas, olhar cada coisinha procurando defeito… só vale a pena quando o resultado chega da gráfica e é satisfatório. O Fabio Stinghen sofreu prá diagramar a infinidade de dados, textos, fotos, desenhos – que às vezes tinham que ser completados ou substituídos. A Michelle produziu vinhetas para a abertura dos capítulos e uma perspectiva prá quem não entende as representações arquitetônicas de planta e corte.

Já o texto antropológico da Macia Kersten caiu “redondo”, foi só incluir.

Tudo isso era administrado pela Jussara e pelo Fábio: felizmente, não sobrou prá nós acertar as contas com o Brito, que veio em nome da Petrobrás, conferir o que estávamos fazendo.

Apresentei o lançamento no Museu Paranaense por sugestão das pessoas do Arquibrasil – os demais lançamentos, em Prudentópolis e Porto União da Vitória, ficaram por conta do Fábio e da Marialba.

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(Lançamento do livro no Museu Paranaense)

     Para esses lançamentos foram feitas maquetes inacreditáveis pelo Gerson, que foram depositadas no Gabinete de Arquitetura Brasileira do CAU/UFPR. E banners, que foram doados ao Museu do Milênio.

Sempre eram lançamentos festivos – as pessoas da comunidade ucraniana aproveitavam para mostrar a amplidão da cultura do país, do qual nós estávamos valorizando a arquitetura como um fato isolado.

Numa das tradicionais festas nacionais ucranianas, em geral no Salão Nobre da Prefeitura de Curitiba. Mas foi na Sociedade Amigos da Cultura Ucraniana que o Ministro da Cultura da Ucrânia outorgou diploma de honra ao mérito – compreensivelmente, em incompreensível cirílico… – aos autores.

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(É… bem… São Cirilo e São Metódio que expliquem isso)

Enfim, esse foi um trabalho-modelo. Uma equipe que trabalhou afinada (a gente nem brigou!), patrocínio suficiente para chegar a um resultado satisfatório para todos – e a divulgação de um universo cultural, entre os muitos a serem explorados no Paraná.

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(Sandrinha em seu “dia de estrela”, na inauguração do restauro da igreja da Serra do Tigre, uma das consequencias do livro)

Créditos: as fotos deste post são da Marialba, do Fábio, do Álvaro, do Ramón, da Eliara e minhas. Só que houve tanto troca-troca de arquivos que não sei mais qual é de quem…

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