AS CIDADES INVIVÍVEIS – 2

23 de setembro de 2013 por keyimaguirejunior

(Treze teses sobre a crescente inabitabilidade das cidades neo-lioberais – tipo Curitiba)

Segunda Tese – Clorofilofobia

– Mas a senhora cortou aquela árvore, tão bonita?!

– Cortei, sim: todo dia tinha que limpar aquela folharada em cima do carro.

Infelizmente, a maioria das pessoas está com a senhora preguiçosa. Diariamente, as árvores são assassinadas nas casas e nas vias públicas – grandes crimes desnecessários. Os calçamentos chegam até o tronco, matando-as por inanição, visto que não podem se alimentar da água da chuva. Jardins e quintais são cimentados ou asfaltados de ponta a ponta para não molhar as preciosas rodinhas dos carros e criar espaço para estacionamento. Ou são cortadas sem justificativa alguma, como no caso da senhora mencionada. Os motivos maiores, a maldição urbana chamada carro e a preguiça (“ah, dá muito trabalho cuidar de jardim…”), precursores da vida de apartamento.

Se, por um lado, há notícias – escassas no ambiente de devastação – de que alguns animais, escorraçados de seus habitats naturais, estão aprendendo a viver nas cidades (coitados!) – com a conivência de uns poucos humanos de bom caráter – por outro, os sinais de que as pessoas nada querem com a Natureza são cada vez mais intensos e mais agressivos. “Natureza” é aquilo que tem no Animal Channel…

Essas considerações não são ecológicas, mas éticas. Claro que a constituição de reservas naturais e parques de proteção é fundamental – mas também importa  transformar as cidades em ambientes menos agressivos, menos feios, menos hostis – e isso também para nós mesmos, humanos. Nunca ouvi falar de um garoto que pegasse a arma do pai e saísse matando quem encontra pela frente em área rural – isso só acontece em áreas urbanas.

Quem não acreditar, experimente colocar um esparadrapo em qualquer lugar do corpo e deixá-lo aí para sempre. É o que está sendo feito com o planeta: impossibilitando-o de respirar em extensas áreas e fazendo delas feridas na pele da Terra.

É estranho – mas muito estranho mesmo – que as prefeituras não levem a sério a exigência de solo permeável nos terrenos, como está na legislação delas mesmas. Estacionamentos cimentados ou pavimentados são um crime contra a cidade. Mas também o são as pequenas atitudes de arrogância de condenar e executar uma árvore porque ela derruba folhas. Quantos quilômetros quadrados de solo permeável seria possível obter se cada árvore plantada nas calçadas dispusesse dos dois metros quadrados, mínimo indispensável, para captar água da chuva? O que isso representaria no fim do processo de acumulação progressiva das águas pluviais? Não acho que  representaria o fim do atualíssimo problema das enchentes, que existe desde sempre, o atual só é mais grave. Mas certamente seria uma boa contribuição para tanto, a custo zero.

E também não se pode esperar que só fiscalização resolva o problema. Essa sufocação das árvores nas ruas está acontecendo diante dos olhos benevolentes da Secretaria Municipal do Meio Ambiente. Como todos os outros problemas – para citar um da moda, o lixo – só a participação consciente da população pode representar um avanço na direção de soluções.

O melhor retrato da mentalidade brasileira ainda é o de Sérgio Buarque de Holanda, em que pese a falência do mito do “brasileiro homem cordial”. Ele fala das leis políticas, criadas prá inglês ver. Para chegar aos ouvidos das comissões da ONU e da UNESCO. Para dar uma impressão de que tudo está sob controle, de que o problema está sendo atacado e será resolvido. Mas é só politicagem e demagogia, nossas leis são feitas para não serem cumpridas. Observe o trânsito por cinco minutos: você não deixará de ver motoristas (no plural) celulando nas barbas de impassíveis guardas da Diretran. E quanto do caos viário se deve a irresponsabilidades como essa, prevista em lei, com penalidades estabelecidas?

Reforçando: a questão é ética – como a que diz respeito aos animais abandonados – e não ecológica ou legal. Irresponsabilidade, aliás, que não é prerrogativa nossa. Os órgãos internacionais que dão esses títulos de sustentabilidade a Curitiba o fazem irresponsavelmente. De seus escritórios na Suíça, com paisagem para os Alpes, sem conhecer nossos pequenos assassinos – grandes criminosos.

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(O ERRADO E O CERTO – DÁ PRÁ ENTENDER?!)

                Sugestão ao prefeito de Curitiba: extinguir o órgão responsável por zelar pelo patrimônio ambiental da cidade e abater o custo dessa repartição do nosso IPTU.

Parece haver uma conspiração contra nossos habitantes mais benéficos e tranqüilos: a prefeitura, mas também particulares, acham os pretextos mais inaceitáveis para derrubar árvores. A jornalista Marleth Silva, recentemente, assinalou que Curitiba é uma cidade feia – e cada vez fica pior, mais desértica, mais inóspita.

Acontece todo domingo, enquanto os fiscais descansam: as moto-serras trabalham. Como bom xerife ecológico, eco-chato, pentelho verde e outros apelidos que os partidários da desertificação me queiram atribuir, já denunciei os cortes criminosos varias vezes. Claro que foi inútil.

-Um cedro centenário – contei os anéis de crescimento – na esquina da minha casa foi cortado alegando-se poda, mas qualquer idiota percebeu que era prá árvore não sobreviver. Ela derrubava agulhas sobre os carrões importados do dono da instituição. Resposta do órgão “competente”: -“ nós examinamos e ela está brotando”. Com tanta desfaçatez não adianta discutir. Logo depois o tronco restante foi arrancado até as raízes, e as construções feitas no local nem sequer precisavam desse espaço.

-Denunciei a transformação gradativa de um jardim em estacionamento, na mesma propriedade. Árvores foram cortadas e jogadas na rua, inclusive uma inofensiva palmeira com uns doze metros de altura e outras fruteiras que atraíam passarinhada para a quadra. Uma alegria a menos para os moradores, e uma a mais para o bolso dos imobiliaristas e da prefeitura, que querem trancafiar todo mundo em apartamentos.

-Lá se foram as árvores da Rua Teffé, para os planos sinistros que a prefeitura tem para essa rua: torná-la mais comercial e com o tráfego das transversais mais veloz.  Aí já se pratica mais de cem quilômetros horários em carrões e caminhões que abalam as casas. Mais carros, mais poluição, mais destruição de jardins, mais árvores assassinadas.

-Há alguns anos, foram os antigos cedros da Av.NS da Luz, para favorecer um supermercado. Eles acham que a gente esquece em pouco tempo, mas estou lembrando a todos a revolta de passar por lá e não encontrar as árvores, amigas de infância. Mas tem um supermercado, coisa rara nesta cidade, certo?

-Não sei se é dentro do município, mas foi uma perda o corte das árvores no canteiro central da rodovia para Campo Largo. É que essas concessionárias de pedágio ganham pouco dinheiro, então cortaram as árvores para fazer uma caixinha complementar. O pretexto foi primoroso: as árvores causavam um efeito ótico que poderia provocar acidentes. Depois de estarem lá por décadas, sem nunca causar problemas,começariam a atacar os olhos dos motoristas…

-Não fui eu quem denunciou, mas reclamou-se do corte de várias araucárias numa esquina da Manoel Ribas, e a reposta foi de truz: estavam doentes e teriam que ser cortadas mesmo. Mentira deslavada: freqüentei a pizzaria em cujo estacionamento estavam as árvores – na companhia de engenheiro florestal – e as árvores estavam perfeitamente saudáveis, inclusive produzindo pinhas.

-O primeiro corte de árvores que me revoltou,  foi o da Ébano Pereira,a na década de sessenta. Deixaram, piedosamente, quatro delas diante da Praça Santos Dumont, como deboche prá gente ver o que a cidade perdeu e poderia ser uma paisagem única entre a Praça João Cândido e a Rua XV de Novembro.

Esses crimes contra a cidade são diários. Grandes terrenos, que a prefeitura adoraria destruir e transformar em qualquer coisa mais tributável do que casas – são as vítimas primárias, junto conosco, população. Os réus não vão a julgamento, estão absolvidos antecipadamente. Jardins de casas são transformados em estacionamentos para meia dúzia de carros, que os administradores adoram ter onde enfiar. Suspiram em êxtase e depois vão se fazer de preocupados e pesarosos com enchentes e outras catástrofes com que a Natureza se defende da agressão humana.

Admito: a irresponsabilidade e mau caráter é nacional, não só curitibano. Depois da defenestração do Código Florestal em favor de latifundiários, é só esperar pela saarização do país.

Não se alegue que a cidade tem área permeável suficiente nos parques, que tem tantos metros de parque por habitante e outras lérias. Isso é conversa que os suíços da ONU acreditem se quiserem, nós que moramos aqui sabemos como são as coisas. Prá uma cidade que está nas nascentes de um dos maiores rios do planeta, teria que haver muito mais parques e maiores. Mas isso é outra tese.

A humanidade está cavando sua ruína. Talvez sua extinção, como os dinossauros. Só que eles tinham um cerebrinho diminuto, não sabiam o que estavam fazendo. Nós sabemos, mas deixamos a turma do mal – os inimigos das árvores e dos animais – fazerem o que bem entendem. Merecemos ser varridos do planeta com inundações, tsunamis e furacões.

Observação: esses dois textos foram publicados na Gazeta do Povo em 2010, e portanto não dá prá dizer “que ninguém quer publicar”… mas coloquei aí duas fotos e fiz umas modificações.)

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