AS BALADAS DE FRANÇOIS VILLON

22 de setembro de 2013 por keyimaguirejunior

BALADAS DE FRANÇOIS VILLON

    VILLON(François), poeta francês,n.em Paris em 1431, m.depois de 1463. Levou vida desordenada, foi estudante, viveu entre malandrins e, culpado de roubo e assassínio, esteve várias vezes em risco de ser justiçado; autor do Pequeno Testamento e do Grande Testamento, confissão de um patético pungente, obra poética original, sincera e muitas vezes encantadora. (Lello Universal, Porto, Lello & Irmão, 1988)

F.Villon

Balada dos provérbios

Tanto se ajeita a cabra que mal deita

Tanto vai o pote à fonte que um dia quebra

Tanto se aquece o ferro que vai ao rubro

Tanto se bate com malho que ele dobra

Tanto vale um homem quanto se o preza

Tanto se vai longe que se esquece

Tanto alguém é mau que se despreza

Tanto se espera pelo Natal que ele chega.

Tanto a gente fala que se contradiz

Tanto vale a fama quanto o favor obtido

Tanto a gente promete que não cumpre

Tanto se pede uma coisa que se obtém

Tanto é mais valiosa quanto mais é procurada

Tanto se procura que afinal se encontra

Tanto é mais fácil quanto menos é procurada

Tanto se espera pelo Natal que ele chega.

Tanto se gosta do cão que se o alimenta

Tanto se ouve a canção que se decora

Tanto se guarda uma fruta que ela estraga

Tanto se ataca um forte que ele se rende

Tanto a gente atrasa que perde o compromisso

Tanto se teme o mal que ele acontece

Tanto se acua que se perde a presa

Tanto se espera pelo Natal que ele chega.

Tanto se debocha que depois não se ri

Tanto se compra que nu se fica

Tanto se doa que se fica pobre

Tanto vale o “toma lá” como a coisa doada

Tanto se ama a Deus que se vai à Igreja

Tanto é doado que pedir convém

Tanto sopra o vento que em brisa termina

Tanto se espera pelo Natal que ele chega.

Dedicatória

Príncipe, tanto o fole vai quanto volta

Tanto ele sopra que ao fim recomeça

Tanto o apertam que ele retorna

Tanto se espera pelo Natal que ele chega.

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Balada das coisas óbvias

Conheço bem as moscas no leite

Conheço pela roupa o homem

Conheço inverno e verão

Conheço da macieira o fruto

Conheço a árvore por sua seiva

Conheço tudo o que é evidente

Conheço quem é vadio e quem engana

Conheço tudo – menos eu mesmo.

Conheço pela costura o colete

Conheço pela batina o monge

Conheço o senhor por seu criado

Conheço pelo véu a freira

Conheço pela gíria o malandro

Conheço insano que não aprecia queijo

Conheço pela garrafa o vinho

Conheço tudo – menos eu mesmo.

Conheço o cavalo e a mula

Conheço sua carga e seu fardo

Conheço Maria e conheço Alba

Conheço o ator que representa

Conheço o sono e a visão

Conheço os excessos dos boêmios

Conheço o poder de Roma

Conheço tudo, menos eu mesmo.

Dedicatória

Príncipe, conheço de fato tudo

Conheço caras coradas e pálidas

Conheço a morte que tudo encerra

Conheço tudo – menos eu mesmo.

Traduzido de “Les oeuvres de François Villon”, Paris, Athéna, 1947. Com apoio da versão italiana em “I Meridiani”, da Mondadori, de A.Carminati e ES. Mazzariol, fornecida por Pier Paolo Olivieri

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