AS CIDADES INVIVÍVEIS – 1

17 de setembro de 2013 por keyimaguirejunior

(Treze teses sobra a inabitabilidade das cidades neoliberais – tipo Curitiba)

Primeira Tese: sobre as pixações

Entre 1979 e 1982, eu e a Marialba anotamos todas as pixações que encontramos nos nossos percursos, a pé ou de ônibus. Nessa data, paramos porque houve eleições e os muros ficaram sujos com outro tipo de imundície, a política.

Revendo aquele trabalho hoje, percebo o quanto as coisas mudaram. Não havia os “painéis autorizados”, muito bons do ponto de vista artístico. Mas por outro lado, eram muito raras essas mensagens cifradas que são a quase totalidade das pixações atuais: troca de informações entre bandos e gangues que, se não fossem ilegais, não seriam cifradas.

A coleção, que fechamos em 500 exemplos,foi dividida em dez grupos de preocupações. Essa classificação hoje seria muito diferente, mas tentei manter o espírito da época…

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1-Antiurbanas e ecológicas. Algumas poucas são interessantes:

“Abaixo a caça às baleias. A)Daniel”

“Na capital, que a paz venha do interior”

2-Avisos:

“Jogue lixo”

“Futuras pixações”

3-Música, ainda o trauma do assassinato de John Lennon:

“Um já foi”

“Yoko is over”

4-Demarcatórias:

“Registramos nossa presença no mundo.a)Mancha Muros”

5-Enigmáticas, isto é, sem um sentido para incluir nas outras categorias:

“Curitiba vai ter mar”

“Queremos poder viver em paz com os terráqueos”

(Todas as temáticas anteriores contaram com menos de vinte exemplos, as demais passam a ser mais freqüentes)

6-Mensagens pessoais (35):

“Pau no Leminski a)J.Joyce”

“Alter Hugo como vai verdugo?”

7-Piração (50):

“Não fume maconha, curta a vida que é a mesma droga”

“Se não tem broa, cheire da boa”

“O governo guenta a grana e nóis a bagana”

“Fume e plante que o João garante”

8-Políticas (75): prá quem esqueceu, eram os tempos do presidente João Figueiredo.

“Mais feijão e a cabeça do João”

“A Amazônia é nossa fora Jari”

“Reza, Pahlevi!” e “Vai Atolá!”

“Cutucou com jeito a coisa cai” (a seguir,em outra caligrafia:)

“Derrubou com jeito não levanta mais”

“Fazer 69 é melhor que pixar 64”

“USA = United States of Amazonia”

“Itaipum! Tiro e queda, sete tiros sete quedas. A)Thadeu”

9-Poéticas (111):

“Por ares nunca dantes voados”

“Palpite: o grafite é o limite”

“A alternativa é a arte nativa”

“Seguro morreu de novo”

“Como é bela a partida das caravelas!”

“Ser ou não ser cadê a conclusão?”

“Morreu de asma o navio fantasma”

“Sou poetarado de letras virgens”

“Para ter a lei convém ser a lei”

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10-Amor e tesão (156)

Representam cerca de 30% da amostragem e, como é evidente, contém desde mensagens insípidas até as literárias ‘trovate bene’.

“Atrevida invadiu minha guarida”

“Menina da areia seria ou não sereia?”

“Invade os nove buracos da minha existência a tua presença”

“Ela abril eu maio” (a seguir:) “Se ela abril eu maio agosto!”

“Quero te comer inteirinha. Posso?”

Na época, falou-se muito no “Caso Polaka” (às vezes Polaca) que cheguei a fotografar e rendeu umas vinte pixações.

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A conclusão era que, embora pudesse ser vandalismo se praticada “Nos mármores do Guaíra ou nas colunas da Universidade”, quando usava muros abandonados ou tapumes a pixação poderia ser válida.

O ensaio referente à pixação – junto com quatro outros – foi publicado em livro mimeografado (tiragem cem exemplares) com capa em bela serigrafia de Josilena Gonçalves. Isso foi em 1983, portanto lá se vão trinta anos. O Aramis Milarch gostou e usou uma edição inteira do “Tablóide” para comentar.

Hoje, a amostragem que fizemos ao longo de trinta anos, dá prá fazer numa tarde…

Há quem busque amenizar o caráter vandálico da atividade, alegando que os autores “se sentem excluídos e buscam apropriação e pertencimento à cidade”. São versões urbanísticas do “quem ama castiga” ou, freudianamente, uma relação sado-masoquista… Mas, independente de explicação ou teoria explicativa, a prática passou a se odiosa, desrespeitosa à cidade como aos moradores.

A concentração em áreas culturais, como o Setor Histórico, comprova que não há qualquer consideração pelas manifestações artísticas, mas vandalismo puro e simples. Pixação não é cultura, ou deixou de ser…

Nos edifícios e locais públicos, custa nossos suados impostos – o que denuncia os pixadores como gente que não os paga. O visual resultante demonstra que não há intenção de fazer arte, mas de agredir – essas marcas nada significam além de sujeira desagradável.

Existem formas mais civilizadas de “marcar” a cidade. O grafite autorizado, sem dúvida é a melhor delas: permite elaboração, criação, expressão. Há outras técnicas além do deletério spray: os stickers, que permitem tratamentos gráficos interessantes e são estimulantes no sentido de fazer criar uma mensagem numa pequena área. E há os stenceis, técnica milenar e riquíssima de possibilidades criativas, pouco usada entre nós.

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Alguma bibliografia: eu sei que tem muito mais coisas, quando achar eu coloco.

1-BRITO Luciana & NADOR Monica. ARTE NA RUA 2; Brasilia, São Paulo, Rio de Janeiro. São Paulo, MAC, 1983.

2-GUIA ILUSTRADO DE GRAFFITI E QUADRINHOS. Belo Horizonte, Lei de Incentivo à Cultura, 2004.

3-CASTLEMAN, Craig. LOS GRAFFITI. Madrid, Blume, 1987.

4-AMERICAN GRAFFITI. Catálogo de exposição na Casa Andrade Muricy, Curitiba, 1998.

5-CALÓ, Flavia Camerlingo. PINTURA MURAL E GRAFITES: TRAVESSA DA LAPA, CURITIBA, BRASIL. (Monografia de Especialização). Curitiba, EMBAP,2004.

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