A CASA PEREIRA

13 de setembro de 2013 por keyimaguirejunior

São Mateus do Sul tem um dos melhores acervos de construções em madeira do Paraná. Em região próxima ao centro, há pelo menos umas vinte notáveis e, um pouco mais afastadas, outro tanto.

A cidade começa efetivamente a se afirmar na segunda metade do século XIX. Embora o local já fosse conhecido pelos tropeiros, é com a economia ervateira – trafegando, em grande parte, pelo Rio Iguaçú – que conhece a estabilidade. Recebe, nos primeiros anos do século XX, imigração ucraniana.

A erva mate ainda tem representatividade na economia da região, mas a usina da Petrobrás, para processamento de xisto, é para São Mateus do Sul o que foi o Matarazzo para Antonina: um perigo…

Como em todo o Paraná, a construção com madeira foi a mais presente. Uma das fases de crescimento da cidade coincide com o desenvolvimento da extração da Araucária, nessa época já invadindo o interior do estado.

Mas o que não me fica muito claro, é como na cidade se gerou a elevada quantidade de casas de madeira de surpreendente expressão arquitetônica. Claro, não é difícil supor a presença de um ou mais carpinteiros de alta capacitação e experiência, que ao longo de algumas décadas fizessem todas essas casas. O próprio Pereira, construtor da casa com seu nome, deve ser um deles. Mas tudo isso ainda não está explicado direitinho…

Essa pesquisa, mais do que necessária, é imprescindível a curto prazo, para o estabelecimento de uma política de preservação da Arquitetura da Araucária.

Porque, em que pesem suas qualidades construtivas, o carisma negativo sobre a madeira continua a destruí-la. Se uma casa de madeira receber os tratos de conservação que se dão normalmente a uma em alvenaria, dura tanto quanto ela. Na verdade, o que destrói as casas de madeira é o mercado imobiliário aliado às prefeituras, que vêem numa pequena casa um estorvo à sua insaciabilidade por lucros e impostos.

Image              Mas voltemos à Casa Pereira. Fui conhecê-la em 1991, e a vi surgir dentro da infalível neblina que sobe do Rio Iguaçú todas as manhãs. Numa esquina tranqüila, entre árvores, o insuspeitável: art-nouveau em madeira… Era habitada (não sei agora) pelos descendentes do construtor, que me permitiram fotografar inclusive o interior. Que tem uma elaboração ainda mais surpreendente que o exterior. Não só pelo mobiliário de época, mas pelo tratamento dado às ligações entre as peças e pela própria pintura das paredes, em faixas entre o piso e o elevado teto. O projeto do Seu Pereira é um documento muito distante da impessoalidade do que se faz hoje, mesmo antes do CAD, segunda normatizações prefeiturais.

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     A anotação no alto da prancha da elevação é infinitamente mais saborosa e esclarecedora que os “carimbos” contemporâneos: “Começada no 1º de agosto de 1927 e mudei-me em janeiro de 1929 nos princípios do mez”. As medidas estão em palmos e também há uma em metros. A planta é esquemática, não há proporção entre os espaços, vê-se que houve preocupação com algumas especificações: “Porta com almofada”, “Janela com banderola”, “Com degrau de um palmo”, “Sepilhado” e outras. Todas as anotações numa caligrafia art-nouveau simplificada, acho que eram mais lembretes para ele mesmo do que alguma exigência de projeto da prefeitura local.

Image               As notícias recentes que tenho dela são alarmantes, mas prefiro não comentar…

O episódio a que se refere o cartaz abaixo é dos mais toscos da minha carreira docente, e é melhor não comentar também: ele fala por si…

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