LAMBRECULT EM CURITIBA

12 de setembro de 2013 por keyimaguirejunior

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(Lambrequim é cultura: boletins da FCC e do IPHAN)

Nunca saberemos a origem exata do lambrequim.

Embora ela seja atribuída a coisas tão díspares com as armaduras dos cavaleiros medievais, seu uso como elemento arquitetônico, no beiral das casas, pode ter, eventualmente, migrado como visual e como nome – não como função. Os mais antigos lambrequins curitibanos parecem evocar as formas da tulipa – o que poderia ser um indício geográfico, mas também ilusório: outra flor, estilizada, pode chegar na mesma figura.

O interesse da questão não é divagação acadêmica. Talvez Curitiba seja a cidade mais lambrequinada do planeta. Pelo menos no Brasil, pode-se afirmar que sim, embora ele exista em toda parte. Pode-se considerá-lo, então, elemento da arquitetura regional, não pela origem, mas pelo uso.

O que tenho por certo é que chega nas águas da industrialização da extração madeireira. Pode-se imaginar que na virada do século XIX para o XX, é possível produzir com facilidade tábuas de “meia polegada” e recortá-las com serrafita ou similar.

Deve, pois,ser associado à produção madeireira – cujo apogeu coincide, em linhas gerais, com o fluxo migratório europeu mais intenso para a região. Tudo fica complicado, imbricado e nebuloso… Mas não se pode restringi-lo à arquitetura das Casas de Araucária diretamente, visto existirem – ou terem existido – muitas aplicações em casas de alvenaria. Assim como não é correto associar as casas de madeira à imigração.

Image(LAMBREQUINS BRINCANDO DE RODA: LAMBREQUINS EXTROVERTIDOS E LAMBREQUINS INTROSPECTIVOS)

Se alguém tiver a paciência de seguir uma pista sherlockiana, sugiro investigar a comissão da Câmara Municipal de Curitiba que elaborou as posturas municipais de 1919 – a formação e origem de seus membros talvez revele alguma coisa.

De fato, nas “Posturas da Câmara Municipal de Curitiba”, dadas em 22 de novembro de 1895 – e portanto com a economia madeireira ainda em consolidação e expansão, não se trata objetivamente das casas de madeira. Não há, portanto, preocupação oficial a respeito.

No capítulo X, Artigo 22,lemos:

“As beiras das casas, quando estas não forem de platibanda, serão de simalhão de tijolos, não excedendo este de um décimo da altura das casas.”

À parte do curioso aumentativo, não oferece a alternativa do beiral de lembrequins.

Mas na Lei nº527, de 27 de janeiro de 1919 (vejam só, os vereadores não estavam em recesso!) a Secção IV trata das casas de madeira com cuidado. A Secção IV trata delas sob o título especifico “Casas de Madeira”, Artigo 61:

“Na segunda zona é permitida a construção de casas com paredes externas de madeira, com tanto que:

(…)

7º – sejam as abas dos telhados, exceto as dos fundos, guarnecidas de lambrequins;

8º – sejam cepilhados e pintados a óleo os lambrequins, portas, janelas, forro e paredes internas e externas.”

A preocupação é claramente ornamental, sendo as paredes dos fundos, dispensadas dos lambrequins.

(Me pergunto se algum vereador, ou seu parente próximo, não era dono de uma marcenaria equipada para produzir os ornamentos… Volta e meia se inventam essas coisas – por exemplo, trocar as tomadas de energia e plugs por alguma escrotice que vai apenas beneficiar algum financiador de campanha política…)

Aí está, portanto, a explicação – ou uma explicação viável – de como Curitiba se tornou a cidade mais lambrequinada do país. E de como esses elementos foram associados à arquitetura em madeira.

digitalizar0001 (2)(ESTUDO PARA A MARCA DO INSTITUTO ARQUIBRASIL)

Se as próprias casas de madeira estão em vias de extinção, as frágeis peças recortadas e colocadas onde a água pluvial termina seu percurso sobre as coberturas, mais ainda.

No entanto, são percebidos como uma das características – não exclusivas,repito – da cidade, e não lhe faltam apreciadores.

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     (COLEÇÃO DE LAMBREQUINS DO GABINETE DE ARQUITETURA BRASILEIRA DA UFPR)

  Quando, na edição de 14 de novembro de 1999, a “Gazeta do Povo” publicou matéria sobre a coleção do Gabinete de Arquitetura Brasileira, do Curso de Arquitetura e Urbanismo da UFPR, com uns 35 tipos diferentes entre si, recebemos várias doações.

As pessoas enviavam ou traziam pessoalmente peças de Prudentópolis, Palmas, Paulo Frontim, Tomazina, São João do Triunfo, Ponta Grossa – mas, principalmente, Curitiba e Região Metropolitana (São José dos Pinhais e Campo Largo).

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(LAMBREMODA: CAMISETAS USANDO AS FOTOS DO BOLETIM DA PRIMEIRA IMAGEM, E LAMBRESSAIA, QUE ESTEVE NUMA EXPOSIÇÃO NO MEMORIAL DOS 300 ANOS NUMA MOSTRA DA GIBITECA)

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