CURITIBA: A PRIMEIRA CASA MODERNISTA NO BRASIL

8 de setembro de 2013 por keyimaguirejunior

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          Em 1984, para um trabalho acadêmico “Fontes para o estudo da Arquitetura no Paraná, I: Fontes Orais para a história do Curso de Arquitetura e Urbanismo da UFPR”, a arquiteta Vânia Renaux van Deeke entrevistou, a meu pedido, o arquiteto Federico Kirchgassner. Devido à idade avançada, era-lhe mais fácil o idioma alemão.

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     Declarou ter nascido a 12 de abril de 1899, na Colônia Hansa Harmonia (atual município de Ibirama, SC) tendo a família se mudado para Curitiba no início do século XX. (O Marcelo Sutil discorda desses dados, mas estou seguindo aqui as declarações do arquiteto à entrevistadora. Os objetivos do presente texto, são a divulgação desse documento como argumento para preservação da casa.)

Em Curitiba, estudou na Escola Alemã, depois Colégio Progresso, atual Faculdades Martinus. Tendo enviado desenhos a um tio na Alemanha, este sugeriu que cursasse Arquitetura – era o ano de 1916, quando começou a trabalhar como desenhista para a Prefeitura de Curitiba. Houve algum atraso, devido à Primeira Guerra Mundial na Europa, mas em 1928 conclui o curso e vai à Alemanha buscar o diploma, ficando um ano no país. Volta casado com a artista Hilda.

Começa então a pensar na construção da casa, que será concluída em 1932. Segue-se a do irmão Bernardo, em 1936. Projeta outras obras, mas sem ênfase no vocabulário modernista, devido à reação encontrada.

O projeto foi condicionado, antes de mais nada, pela topografia: sendo o terreno muito íngreme, os espaços foram distribuídos em quatro níveis. A casa é coroada por um belo terraço do qual, além de toda a então horizontal paisagem da cidade, enxergava-se até a Serra do Mar. Nas imediações, fica o Belvedere da Praça João Cândido, e pelo menos mais uma residência nas imediações possui mirante com a mesma finalidade.

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     A verticalização indiscriminada permitiu a construção de enorme prédio no terreno ao lado, criando uma barreira à vista. Durante essa construção, dna.Hilda foi para a Alemanha, para não testemunhar o crime.

Outras modernidades introduzidas na obra,foram:

-a laje dupla da cobertura, proporcionando isolamento térmico;

-as janelas com contrapesos, que permanecem abertas na medida da necessidade interna;

-o vidro da janela da curva de concordância que, não sendo tecnicamente possível no Brasil, foi trazido da Alemanha;

-os móveis que, não existindo no comércio em design compatível com a arquitetura da casa, foram por ele projetados.

Vejamos agora o que diz Yves Bruand, em “Arquitetura Contemporânea no Brasil” ( São Paulo, Perspectiva, 1981), sobre a casa construída na mesma época em São Paulo por Gregori Warchavchic, considerada a primeira seguindo o receituário modernista no país:

1 – [a casa] Parecia uma construção de concreto armado – que era a idéia original -, mas o edifício foi  construído quase que inteiramente em tijolos, ocultados sob um revestimento de cimento branco. Conquanto haja participação da alvenaria de tijolos, Kirchgassner usa o concreto largamente e em sua expressão autêntica, como é evidente no terraço e nas formas verticais ali existentes.

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2 – As janelas horizontais de canto davam à obra um toque característico inegável mas, sob o ponto de vista técnico, não se justificavam numa construção executada com materiais tradicionais, tendo elas acarretado complicados problemas d construção. Kirchgassner não busca simetrias ilusórias, muito pelo contrário, a construção tem equilíbrio visual assimétrico e independente.

3 – A solução, que consistia em dar à ala direita da fachada o mesmo aspecto externo da ala da esquerda, quando esta correspondia a uma varanda a não a um interior como a ala oposta, contradizia a afirmação feita em termos por demais absolutos no manifesto de 1925 [da autoria do mesmo  arquiteto]: “a beleza de uma fachada deve resultar da racionalidade da planta da disposição interna, assim com a forma de uma máquina é determinada pelo mecanismo, que é sua alma”l. A casa de Kirchgassner atende com perfeição ao axioma negado na obra de Warchavchic;

4 – A cobertura do corpo principal não era um terraço, conforme se poderia supor, mas um telhado de telhas coloniais cuidadosamente escondido pela platibanda. Como é evidente nas fotos, o terraço plano que cobre o corpo principal da casa de Kirchgassner é uma laje autêntica, e imagino as dificuldades para executá-la aqui na Província.

Conclui Bruand: “A adoção dessas soluções assegura ao edifício uma aparência enganosa, contradizendo a rigorosa doutrina funcionalista…” o que não é absolutamente o casa da(s) casa(s) projetadas por Kirchgassner.

De mais a mais, a circulação vertical junto à garagem, com entrada pela Rua Portugal, remete ao art-déco – fazendo portanto uma ligação da obra com a primeira tendência modernista, vigente com plena força na década de trinta.

Essas razões somam-se à presença da construção do Setor Histórico da cidade, onde toda a história da arquitetura local está representada – finalizando o percurso que se inicia com as construções coloniais da Casa Romário Martins e a Igreja da Ordem.

Pode-se afirmar que a construção ainda está íntegra, muito embora necessitando de acurada manutenção que o herdeiro, sr.Arwed Kirchgassner, não pode fazer enquanto pessoa física.

Após o falecimento do arquiteto, em que pesem os esforços do sr.Arwed, a constante agressão por vândalos e pixadores torna-se um deplorável exemplo de como deixar escapar do patrimônio cultural da cidade uma obra com valioso conteúdo de idéias.

ALGUÉM FAÇA ALGUMA COISA ! ! !

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Observações:

-as duas primeiras fotos pertencem ao acervo do sr.Arwed Kirchgassner;

-a foto de Frederico e Hilda Kirchgassner, durante entrevista à arquiteta Vania van Deeke, foi feita por José Humberto Boguszewski;

-a maquete pertence ao acervo de Arquitetura Brasileira da UFPR, tendo sido executada por estudantes;

– a foto do terraço foi feita por mim, com muita indignação.

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