O QUE SE COME EM NAPOLI

26 de junho de 2013 por keyimaguirejunior

 

La pizza

Observação: esses parágrafos iniciam o capítulo “O que se come” do livro “O ventre de Nápoli”. A autora é Matilde Serao (1856/1927) e retrata os tempos difíceis que se seguiram à unificação da Itália. Em Nápoli, a pobreza era extrema, e a pizza era alimento popular.  O livro todo é uma espinafrada em um ministro do governo central,  que andou dizendo besteira sobre a cidade. Lá como cá:

“… se não a conhece o governo, quem deve conhece-la? Se não servem para saber das coisas, para que então esses funcionários em níveis altos e baixos, que compõem o vasto mecanismo que nos custa tão caro? E se você não é a inteligência maior que tudo deve conhecer, porque é ministro?”

       Parole sante… e muito irônicas se pensar que chamamos, às acomodações políticas para encobrir a incompetência governamental, de “terminar em pizza”…

Um dia, um industrial napolitano teve uma idéia. Sabendo que a pizza é uma das paixões culinárias dos napolitanos, e sabendo que a comunidade napolitana em Roma é enorme, pensou em abrir uma pizzaria nesta cidade. O bronze das panelas e das formas brilhava, o fogo estava sempre aceso. Havia todas as pizzas: pizza com tomate, pizza com muzzarella e queijos, pizza de alici e óleo, pizza com óleo, orégano e alho. No início, acorreram multidões, depois a coisa foi minguando. A pizza, tirada de seu ambiente napolitano, parecia desafinada e causava indigestão, sua boa estrela empalideceu e apagou. Em Roma, a planta exótica morreu com a formalidade romana.

No entanto, é verdade: a pizza pertence às comidas que custam um vintém e faz a maior parte do almoço ou da janta de grande parte do povo napolitano.

O pizzaiolo que tem um boteco, à noite faz uma grande quantidade dessa massa circular e achatada, massa densa que queima mas não assa, com muito tomate quase cru, alho, pimenta, orégano. Essas pizzas, cortadas em fatias de um vintém, são entregues a um garoto que vai vende-las nas esquinas, com um banquinho portátil, e fica ali o dia inteiro. As fatias gelam com o frio, secam ao sol, são visitadas pelas moscas. Há também fatias de dois tostões para as crianças que vão à escola. Quando o estoque acaba, o pizzaiolo o refaz à noite.

Para a noite, há também os garotos que levam sobre a cabeça uma bandeja de estanho com as fatias de pizza. Andam pelos becos soltando um grito especial, significando que têm pizza com tomate e alho, com muzzarella e alici. As mulheres pobres, sentadas nos degraus, compram e jantam – ou almoçam – com um vintém de pizza.

Cartum de Pier Paolo Olivieri

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