CIDADES, FUTURO E SANDY

20 de junho de 2013 por keyimaguirejunior

 V Vingança

     Um exercício profético sobre o futuro das nossas cidades e da vida urbana implica, antes de mais nada, em colocar a questão: cidade do futuro de quem? Do nosso futuro ou do futuro deles? A cidade que nos convém ou a que convém a eles?

Quanto à cidade que nos convém, tenho poucas dúvidas: queremos uma cidade espalhada e harmoniosa, em paz com a natureza – muito parque, muito verde, muita água limpa, muitos animais. Boa para os cidadãos de todas as idades, em paz com as criaturas humanas – trabalho, educação, saúde, cultura para todos. Para falar só no mais básico e essencial.

A cidade que eles querem é vertical e densa, agressiva ao planeta, desigual e violenta, competitiva e angustiante. Funções misturadas e tumultuadas, não se pode morar, trabalhar é um castigo, circular é estressar e ver a vida gasta em congestionamentos e filas. Falta de tudo, para que mesmo no essencial se possa colocar preço. E preço alto, para estimular desigualdade e injustiça.

Não dá prá excluir que vão predominar as formulações intermediárias. Nenhuma das alternativas irá se realizar em sua plenitude, como sempre acontece. Nem paraíso nem inferno, apenas purgatório: que é um lugar sombrio, sem sol, congestionado e insalubre. Vejam o Dante. No tempo e no espaço, todas as cidades transitarão entre o nosso modelo e o deles. O que já é bastante ruim para nós perdedores: na queda de braço entre quem quer apenas viver bem e quem acha isso um absurdo, porque não gera lucro nem poder, perdem os primeiros, que são os pacifistas.

Também não há dúvidas quanto aos engodos, como estimular e subestimar a criminalidade convencendo as pessoas de que a vida vertical e encaixotada é mais segura. Quando essa apenas gera outros tipos de violência e de crime, talvez piores. As farsas são muitas, sob acobertamento do politicamente correto, que é apenas a captação dos votos das minorias – e também das maiorias – complexadas. O politicamente correto é uma invenção urbana e é o que o nome diz: correto para os políticos deitarem e rolarem.

A ficção científica no cinema, no gibi, na literatura pulp – onde houver liberdade para imaginar, projetar para o futuro, prever sem censuras – já mostrou esse rumo exaustivamente. Não é fazer gênero terror, mas observem que, quando é final feliz, implica em abandonar o vertical em favor do horizontal.

Não é pessimismo de minha parte: dias antes das eleições, os dois candidatos à prefeitura de Curitiba declararam estar ao lado deles. Intenção explícita de favorecer a verticalização e o adensamento – os dois vilões da vida urbana – com óbvia destruição do que ainda resta de habitável nesta pobre cidade. A democracia é uma farsa; só funcionou há uns 2.500 anos, numa diminuta cidade chamada Atenas. Os dois quase-prefeitos estão do lado deles, como políticos que são, e nós não temos alternativas. Motivo mais do que suficiente para me levar a votar nulo.

Observação: este texto me foi pedido por Salvador Gnoato, que evidentemente não pode ser responsabilizado por ele. Como já assinalei antes, algumas coisas deste blog foram publicadas, este artigo saiu na “Gazeta do Povo” de 05 de novembro de 2012.

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