LENDAS URBANAS, PIRATAS E LEPROSOS

13 de junho de 2013 por keyimaguirejunior

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Há lembranças que, depois de algum tempo, se tornam neblinosas, imprecisas – só muito chá com madeleine para resgatá-las. Ou então, algumas fotos.

Bairro tradicional – atualmente detonado pelos modelares erros de planejamento da Prefeitura (ou de seus patrões, os imobiliaristas) – as Mercês não poderiam deixar de abrigar algumas lendas urbanas. A melhor delas, acho é a do Zulmiro. Teria sido um pirata ou corsário  bretão, que aprontou tais e tantas que foi obrigado a fugir e se esconder entre as araucárias do planalto curitibano.

Não há qualquer referência histórica, confiável ou não, à existência do tal personagem. O que é, precisamente o encanto dos mitos: eles são uma verdade – ou mentira – conhecida de poucos.

Falava-se de um túnel ligando seu esconderijo nas Mercês às “ruínas” do São Francisco, e que os moradores usavam como rede de esgotos, deixemos assim, pirata. Por isso sua existência era mantida em sigilo – com receio de que a Prefeitura viesse a criar um ISUTPA, Imposto Sobre Uso de Túneis de Piratas Aposentados.

Há falta de lógica para uma tal obra faraônica às avessas: prá quê túnel, se nessa época e região, até um elefante poderia trafegar, sem ser visto, pelos ínvios caminhos usados pelos escassos moradores das chácaras? Mas havia outros sinais visíveis: por exemplo, duas enigmáticas piscinas, que poderiam ser entendidas como cisternas abandonadas.

Mas um esconderijo, ah, isso existiu, estive lá, vi e fotografei, mesmo antes que o sem-gracismo das obras do Bosque Gutierrez acabasse com ele. E não fui só, comigo estavam amigos e parentes do pedaço.

Não há muito o que dizer do bairro nessa época: ruas sem pavimentação, interstícios de mato, poucas e distantes casas. Sob uma dessas casas de madeira, de aspecto decadente, havia um porão. Difícil de ser encontrado, no matagal do terreno. Do porão, descia-se por um alçapão de tampa metálica para uma estreita passagem escavada na terra. Rastejava-se então de costas até uma sala de dimensões razoáveis – digamos, três por cinco metros – coberta por uma abóbada de tijolos. Comunicando com ela, uma chaminé para respiro, junto de alguma coisa que pode ter sido um fogão. Por fim, uma passagem – que é a única coisa a justificar a denominação de “túnel” – cortada por uma parede visivelmente mais nova que as demais.

Muito grande e muito complicada para adega – e que morador de uma pequena casa de madeira poderia guardar tanto vinho?! – não havia de que duvidar na nossa cabeça adolescente: só podia ser esconderijo de pirata inglês!

     A passagem saindo da sala parecia sugerir uma rota de fuga. As piscinas, dizia-se, eram para inundar o porão isolando a grande sala, cortando o acesso. Aqui a lenda esbarra com o “princípio dos vasos comunicantes”: as tais piscinas ficavam abaixo da cota da sala… Mas sabe-se que mecânica dos fluidos não era o forte dos piratas ingleses.

A grande aventura do nosso grupo era chegar à tal sala – com um cheiro de lugar abafado e mofado muito forte – sentar numa pilha de tijolos e ficar imaginando engenhosas hipóteses sobre as origens do esconderijo. Talvez até para fugir da ira dos pais, se descobrissem por onde andávamos: havia risco real. Tanto as abóbadas quanto as paredes estavam esburacadas por buscadores de tesouros escondidos, Indiana Jones de província… Mais tarde constatei que esse pessoal anda esburacando qualquer parede antiga, principalmente se for de pedra, “feita por escravos”. Entende-se: antigamente pirata era pirata e tinha que enterrar a poupança em ilha deserta – ou planalto pouco freqüentado – sem bancos que, como sabemos, guardam saques dos piratas políticos.

O que absolutamente não era o caso: ainda hoje, as fotos que fizemos na ocasião mostram um bom conhecimento de construção. A “bovedilla” do porão de entrada – talvez única jamais feita no Brasil – a própria abóbada da sala grande, o assentamento regular dos tijolos – tudo denuncia uma certa prática e saber fazer no erguimento das paredes.

Só muito mais tarde é que o pirata Zulmiro se desvaneceu definitivamente. Soube que houve nas imediações um lazareto – desativado quando da inauguração do Asilo São Roque em Piraquara. Então, pouca dúvida resta: a construção era um esconderijo, refúgio para caso de perseguição. Não há notícia de que tenha havido perseguição a leprosos em Curitiba – mas não se pode ignorar que era prática da época.

Claro que eu preferia o pirata com olho de vidro, perna de pau e papagaio no ombro… escavando num canto da sala para esconder um baú com a bandeira da caveira, um par de garruchas e mapas das ilhas onde escondera sua poupança… mas, “pas de document, pas d’histoire”…

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Observações: publicado originalmente na “Coisa Paralela”,revista dos estudantes de arquitetura do CAU/UFPR, em maio de 2003. Ver também matéria de Pollyana Milan para a Gazeta do Povo em 10 de abril de 2010.

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Observação 2: essa fato dá o que pensar, pela semelhança do espaço com a dos “túneis”. É possível que em vez de esconderijo de doentes leprosos, fosse um forno de olaria? A favor, além da construção parecida, a existência da chaminé visível. Contra, a entrada secreta.

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