A CASA DA ESTRELA

21 de maio de 2013 por keyimaguirejunior

 Imagem

         A Casa da Estrela é talvez o melhor símbolo arquitetônico para Curitiba: sempre insistimos na pluralidade das nossas origens étnicas, na diversidade cultural que nos torna alienígenas num país homogêneo.

E é precisamente essa a conotação maior emblematizada pela Casa da Estrela: seu construtor, Augusto Gonçalves de Castro, foi um fascinado pelo pensamento universalista e teosófico, de que a configuração mais clara terá sido a Esperanto.

Hoje fora de moda, a língua criada pelo dr.Lázaro Zamenhoff (1859-1917) – que dá nome à rua onde está a Casa da Estrela – exige apenas uma tarde para estudar suas 16 regras básicas – é possível imaginar um instrumento mais eficiente para fazer o entendimento universal? Não, e deve ser por isso que saiu de moda: a globalização não pressupõe entendimento, mas submissão. Tal como na Pax Romana, a homogeneização cultural se faz pela imposição de sistemas econômicos e, falhando esses, pelos mísseis.

Castro configurou seu idealismo universalista na construção da própria casa, num esforço de vontade que não se intimidou com a falta de formação profissional para a construção: contador, professor de matemática para fechar o orçamento, fez sua casa tábua a tábua, ao longo de quatro longos anos. Trabalhava sob o ideal da estrela verde do esperanto e sob a luz das estrelas nas congelantes madrugadas curitibanas dos anos trinta.

Toda a região do Alto da Glória, que hoje comporta até estádio de futebol, era um vasto descampado, com vista para a Serra do Mar e percorrido sem obstáculos pelas frentes frias vindas do Sul.

Sem noções de Arquitetura, construção ou de carpintaria que fosse, Castro edificou uma obra-prima inconteste: inventou encaixes, fez maquetes, desenhou, calculou. Convocou um primo para a fase mais pesada, o erguimento da estrutura de vigas. Os encaixes eram resolvidos na própria peça – todos, verdadeiros quebra-cabeças, com ângulos difíceis decorrentes da forma pentagonal exigida pela estrela.

O material não poderia ser mais paranaense: a madeira de Araucária, então abundante e barata, encontrada com facilidade nas serrarias em peças de mais de seis metros de comprimento. Vencida a etapa mais pesada do lançamento da estrutura, as vedações, foram o convencional das casas de madeira: tábuas e mata-juntas, o chamado tábua-e-ripa. E principalmente trabalho, muito trabalho, madrugada adentro, serrando e martelando.

A família cresceu na medida em que a casa se fechava ao redor dela. Cozinhando em fogão de querosene, iluminada a lampião de carbureto, bebendo a água que congelava no encanamento nas noites de geada.

Fechado o contorno da casa, Castro fez as janelas e vãos da sala central para os espaços laterais – agora, usando a estrela de seis pontas. O único problema que não conseguiu resolver a contento, foi o banheiro: a casa tem apenas um e no porão. Mas, se lembrarmos que na época em que a casa foi construída, muitas residências ainda tinham a famigerada “casinha”, entenderemos que a solução não foi assim tão precária.

Mais tarde, o porão foi refeito com blocos de pedra, “comprados de um espanhol”. Para fazer toda a casa, Castro usou apenas três serrotes e um martelo. Terminada a obra, foi contornada de árvores frutíferas, flores, horta e outras árvores – duas araucárias sobrevivem ainda.

O tempo passou e o vento soprou; a Casa da Estrela ficou. Os filhos cresceram, casaram e foram embora para suas vidas. Castro faleceu em 1970; a casa foi ficando velha, foi sendo abandonada. Agora (2002), está vazia há dez anos. Somente o prof.Moysés, filho de Castro, vem diariamente abri-la para ventilar. No Natal, arma no centro da sala a velha árvore artificial com bolinhas vermelhas. E mais nada. Nunca se publicou uma linha sobre ela. Foi o Esperanto ou a esperança que saiu de moda?

A dica foi do fotógrafo Zeca Moraes: “existe em Curitiba uma casa toda gerada a partir de uma estrela”. Depois, os dons diplomáticos da artista Didonet Thomaz nos aproximaram do prof.Moysés Azulay de Castro, um dos herdeiros. Fomos visitá-lo.

E os arquitetos, professores escolados nas arquiteturas feitas por esse Brasil afora, abriram a boca para reconhecer que ali estava algo de único, de original, a criação arquitetônica em estado puro. O mínimo que se poderia dizer é da sensação de assombro diante da riqueza das luzes e da concepção espacial. Veio-nos Le Corbusier à memória: “Arquitetura é o jogo magnífico dos volumes sob a luz…” O mestre do Modernismo ficaria admirado se entrasse na Casa da Estrela, que corporifica sua definição.

Pelas muitas janelas, e através das salas laterais, a luz se projeta para o centro do pentágono, e como que sobre em direção ao vazado que faz do piso superior um mezzanino, atingindo a estrela verde lá no alto, no teto do último nível.

A volumetria externa deixa ver, é claro, que não se trata da tipologia convencional das Casas de Araucária paranaenses. Ela se insere na honrosa tradição das concepções únicas – ia dizendo genial e talvez seja isso mesmo – que conta com a Casa Pereira em São Mateus do Sul; com a Casa Domingos do Nascimento (sede do IPHAN) na Rua José de Alencar: com a Casa de Erbo Stenzel, transladada para o Parque São Lourenço. É a tradição construtiva mais importante do Paraná.

Quando do levantamento preliminar, para desenhar as plantas, mais uma característica notável se revelou: além de bem concebida espacialmente, a construção é muito bem executada. Trabalhando com uma forma difícil como o pentágono, Castro não deixou uma fresta mal fechada, nem uma tábua mal colocada, um canto mal acabado. Não há enjambros, não há malfeitos, nem o famoso “xaxixo”, pesadelo dos arquitetos, construtores e usuários; nada disso se encontra na Casa da Estrela.

Dizíamos no início que a Casa da Estrela seria uma excepcional representante arquitetônica para Curitiba. E insistimos: nossa arquitetura antiga – como a moderna – conquanto tenha seus bons momentos, não tem representantes excepcionais. A Casa da Estrela, para além da inserção na cultura regional, é excepcional. A proposta urbanística da cidade é boa, mas o debate sobre ela foi apropriado pelas facções políticas e mediocrizado.

A Casa da Estrela está acima de tudo isso.

 Casa Estrela

Este texto foi publicado na Gazeta do Povo de 18 de março de 2002. Portanto, entre “as coisas que ninguém quer publicar”, algumas acabam sendo publicadas…

Na foto – da mesma época do artigo – ao centro o prof.Moysés Azulay de Castro; no degrau mais próximo Marialba Rocha Gaspar e Didonet Thomaz; no de baixo eu e Sandra Rafaela Correa (atualmente no IPHAN). Foto da profa.Andréa Berriel, que depois executou o levantamento e as maquetes com equipes de estudantes do CAU/UFPR.

A maquete foi executada por estudantes do CAU/UFPR em 2001, sob orientação da Profa. Andrea Berriel

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