A ERA DO KITSCH

18 de maio de 2013 por keyimaguirejunior

A ERA DO “KITSCH”: DO ECLETISMO AO PÓSMODERNO

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INTRODUÇÃO    

     O interesse básico em explorar a idéia de kitsch aplicado à Arquitetura, é a sensação (poderíamos dizer evidência?) de que a Arquitetura da contemporaneidade é o kitsch. Indo mais longe, pode-se afirmar que o Modernismo situou-se entre dois períodos de kitsch muito intensos: o Ecletismo, produto da burguesia do século XIX; e o Pósmodernismo, produzido pelos meios de comunicação do século XX.

Relembrando uma das mais conhecidas frases de Lucio Costa:

Os anos que antecederam a construção da sede do antigo Ministério da Educação e Saúde – 32,33,34,35 – foram anos de penúria. Eu só era procurado por pessoas desejosas de morar em casas de “estilo”, estilos ingleses – elisabethano ou Tudor – franceses – dos Luises ao basco e normando -, e ainda “missões” ou “colonial”, contrafações que, depois do meu batismo contemporâneo, já não conseguia perpetrar. Era a chamada arquitetura “eclética” da segunda metade do século XIX e começo deste, vertente acadêmica ou “beaux-arts”…

Parece muito claro que a burguesia – clientela por excelência de um arquiteto também ele burguês – vive ainda no embalo cultural do historicismo, “…que se contrapunha ao surto das estruturas metálicas e ao “art-nouveau” nascente.”  E como o arquiteto citado bem destaca, está defasada da Modernidade. Mesmo aqui na Província, já é dominante a estética art-déco.

Em minha tese “O espaço burguês; Arquitetura eclética em Machado de Assis” (1999) tratei da representatividade do Ecletismo como traço cultural da burguesia. Na ocasião, usei muito Walter Benjamin, que, como alemão, tem citações extraordinariamente reveladoras a respeito. Em uma das mais ricas – seria possível escrever toda uma tese explorando-a – compara as casas dos pescadores do Sul da Espanha com os interiores burgueses (Alemanha das primeiras décadas do século XX) em que viveu:

“Através de portas abertas, em frente das quais estão recolhidas cortinas de pérolas, nas pequenas aldeias do Sul da Espanha, o olhar penetra nos interiores, de cuja sombra o branco das paredes se destaca deslumbrantemente. Essas paredes são caiadas várias vezes ao ano. E em frente à parede dos fundos geralmente ficam, rigidamente alinhadas e simétricas, três, quatro cadeiras. Mas em torno do seu eixo central atua o fiel de uma balança invisível, na qual o acolher e o repelir têm o mesmo peso. Assim como estão ali, despretensiosas na forma, mas com a entrançadura singularmente bela, muita coisa se pode ler nelas. Nenhum colecionador poderia expor tapetes de Isfahan ou pinturas de Van Dick com maior altivez nas paredes de seu vestíbulo como o faz o camponês com essas cadeiras. Mas não são apenas cadeiras. Quando o sombrero está pendurado no espaldar, num abrir e fechar de olhos mudaram sua função. E o novo grupo do chapéu de palha não aparece menos precioso que a simples cadeira. Assim podem se encontrar a rede de pesca e o tacho, remos e ânfora de barro, e cem vezes ao dia, por conta da necessidade, estarão prontos a mudar de lugar, a se unir novamente. Todos eles são mais ou menos preciosos. E o segredo do seu valor é a sobriedade – aquela parcimônia do espaço vital no qual não ocupam apenas o local visível que ocupam, mas também os espaços sempre novos para os quais são criados. Na casa sem cama existe o tapete com o qual o morador se cobre à noite; na carroça sem coxim, a preciosa almofada, que é colocada em seu piso duro. Mas em nossas casas bem providas não há espaço para o precioso porque não há folga para seus serviços.”

O contraste apontado por Benjamin é mais interessante para o caso brasileiro do que se possa imaginar. É útil em direção ao passado – a sobriedade da casa colonial brasileira, comparada ao interior eclético – e em direção à fase seguinte, do interior modernista, em que o despojamento “menos é mais” também foi aplicado.

Para além do espaço ocupado pelo Modernismo, já no ocaso do XX, um arquiteto com escritório bastante movimentado – isto é, com muitas placas pela cidade – lamentou: “os incorporadores me mandam uma planta com o recado: ‘queremos um prédio neoclássico com essa planta”. O que é MUITO PIOR do que as encomendas dos clientes de Lucio Costa, visto que não são “pessoas desejosas de morar em casas de estilo”, mas capitalistas que vão impor, através de publicidade, um “estilo” aos despreparados compradores: daí afirmarmos que o pósmodernismo é responsabilidade dos meios de comunicação atuais.

Embora no período em que cursei Arquitetura o Modernismo fosse considerado eterno, facilmente se percebia que não o seria. Em grande parte, era apresentado como contraponto à tendência anterior eclética, mas de forma reducionista. Não se considerava, por exemplo, que dentro do Ecletismo houve assimilação das tecnologias e estéticas que conduziram ao Modernismo. Era quase inevitável pensar na teoria de Jean Baptiste Vicco, em que a História da Arte oscila entre um eixo de romantismo (melhor dito: formalista) e um de racionalidade (funcionalista).

A volta do pêndulo em direção ao formalismo decorativo parecia, portanto, inevitável. Como também se deveria esperar que a nova tendência viesse dos Eua. Toda a teorização e as obras referenciais vieram impostas pela mídia brasileira, sempre subserviente aos interesses americanos. E o que deveria ser a busca de uma expressão condizente com as tecnologias do final do XX e início do XXI, naufragou em mais um historicismo. Embora, a bem da verdade, a presença individual de alguns arquitetos tenha mantido o rumo, sendo uma tendência americana é uma tendência de orientação mercadológica – o que diz tudo    Para chegar a uma idéia do kitsch na Arquitetura –e à nossa hipótese de que o pós-moderno é kitsch – precisamos antes explorar o conceito contido nessa palavra. Mesmo porque, se a Arquitetura do nosso tempo é o kitsch, e independente dos nossos pudores sobre a herança que deixaremos em nossas cidades, será preciso descriminalizar essa palavrinha, de modo que deixe de ser o palavrão que é.

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CONCEITOS

     Portanto, o que é o kitsch?

Esclareçamos antes de mais nada que não estamos escrevendo uma tese acadêmica, apenas assinalando a conveniência de que alguém o faça. Então, a discussão dos conceitos abaixo vai pelo mais sumário, apenas o contra-argumento pelo qual não a acho aceitável, ou pelo menos não plenamente satisfatória. São definições relacionadas, na totalidade dos casos, ao design, não à Arquitetura.

1 – “O kitsch é a pseudo-arte” (Anatol Rosenfeld). Nada mal, mas implica na discussão conceito muito complexo de arte. Que é muito mais difícil que o conceito de kitsch…

2 – “O kitsch é uma mentira da informação estética” (Umberto Eco). Num certo sentido, vai adiante da anterior, mas, da mesma forma depende de discussão sobre estética e informação.

3 – “O kitsch é uma aparência de repertorio mais amplo” (Décio Pignatari). Tá, mais é o caso de perguntar: como assim, repertório?

4 – “O kitsch é a arte da felicidade” (Abraham Moles). Na verdade, é a que acho mais satisfatória, mesmo usando um conceito tão vago, abstrato e relativo quanto o de “felicidade”…

5 – “O kitsch é a citação” (Ana Maria Burmester). Também gosto dessa, mas o reverso não funciona: nem toda citação é kitsch.

6 – Jacques Sternberg tenta (ano?) fundar uma revista especializada em kitsch com três amigos. A tentativa falha: para o primeiro, o kitsch era o vulgar, ordinário e abobalhado. Para o segundo, era a pop-art; e para o terceiro, era o pornô-kitsch. Para ele mesmo, nessa ocasião, o kitsch eram as artes decorativas da belle époque (e portanto, o art-déco); atualmente, é o excesso.

7 – Herman Broch (em 1955) define que “ a essência do kitsch consiste na substituição da categoria ética pela categoria estética; impõe ao artista a obrigação de realizar não um bom trabalho, mas um trabalho agradável, o que mais importa é o efeito. (…) A satisfação pessoal dos efeitos constitui a fonte mais abundante do kitsch.”

E depois de concordar com Moles, concorda comigo: “Não é totalmente injusto considerar o século XIX como o século do kitsch, em vez do século do romantismo (…) impulsionada por uma sensação para o poder (a burguesia) teve, por um lado, que assimilar o patrimônio tradicional da classe cortesã feudal que se propunha substituir, e por outro, reafirmar sua própria tradição original, anteriormente revolucionária.”

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PERIODIZAÇÃO

     Uma indispensável tentativa de periodização do Ecletismo – aqui na iminência de ser rotulado como kitsch – esbarra na sua própria definição. O início é vago, com as sobreposições iniciadas pelo neoclassicismo e que sofrem a incidência de muitas (todas?) as vertentes da História da Arte. A sobreposição e a incidência em si são agravadas pelo acúmulo, mistura com resultado ilegível.

A classificação do Ecletismo como kitsch conta, entre outras, com as caracterizações: mistura com diluição e empobrecimento dos estilos; acumulação de formas e funções, num contexto de falta de originalidade; falseamento dos materiais e rejeição das novas tecnologias; a busca de uma modernidade burguesa do arquiteto “burguês contra a burguesia”.

O fim do Ecletismo é bem conhecido: recebe um pouco cordial “chega prá lá” do Modernismo. Houve a fadiga de que fala Lucio Costa, cansaço da frivolidade burguesa dos “estilos” e ornamentação temática que transformaram as cidades numa Disneylandia estilística. Assim como o Modernismo será combatido e superado pela hiper-racionalidade e proibição da ornamentação dos  modernistas, que muito facilmente se entende como deficiência projetual estética.

Já o Modernismo, foi conceitualmente muito bem estruturado e convenientemente atrelado às idéias de “Modernidade” e “Funcionalidade”. Um formulário simples, com meia dúzia de regras, permitiu que se consolidasse com “o último estilo da História da Arte”. “Menos é mais”, “O ornamento é crime”, “O moderno é o funcional”, e cosi via. Um arquiteto modernista, que me viu projetando uma curva ao redor de uma pedra do terreno, escandalizou-se: “Ah, curva não! Que coisa mais antiga!”

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CATEGORIAS

     Com base em A.Moles, mas também com apoio dos demais autores da bibliografia, ensaiaremos um precisamento do kitsch pelas suas vertentes, pensando numa aplicação à Arquitetura.

1 – Inadequação funcional. No caso dos objetos, rolhas com cabeça de gente ou animais, garrafa imitando livro, óculos escuros com walkman. Antifuncionalidade: coleções de objetos funcionais, como canetas, relógios, canecos.

2 – Acúmulo de funções, empilhamento de coisas. Canivete suíço, caneta esferográfica com mira lazer. Eu colocaria aqui os excessos cromáticos, não uma ou outra cor (“pink” é quase oficialmente kitsch). “Gadgets”. No caso da Arquitetura, fachadas ecléticas e, no espaço interior, as salas. Assinala-se aqui um conflito das “auras” dos objetos. O acúmulo de funções pode ser estritamente funcional e não kitsch: a bandeja de instrumentos cirúrgicos, a caixa de materiais de desenho, uma estante de livros.

3 – Percepção sinestésica. Canhão de apartamento/isqueiro, porta-jóias/caixinha de música/ perfumador de ambiente. Talvez o mais consumado e emblemático símbolo do kitsch seja o pingüim de geladeira, anunciando o “lugar do frio” na casa. Ou os anões de jardim, sempre com instrumentos de jardinagem insinuando esse trabalho.

4 – Moda: quase toda a moda de vestir. A moda é kitsch, mas é um kitsch de vanguarda. As pessoas adquirem roupas por estarem na moda, não por lhes cair bem. O jeans passou de roupa de trabalho às boutiques elegantes. As botas igualmente, transitaram do uso militar ao erótico.

5 – Conforto: um instrumento para cada função, que poderia ser desempenhada por um instrumento genérico. Contradiz, é claro, o segundo item. Aqui se poderia talvez mencionar “a arte da felicidade”: mãos orando/luz de cabeceira; folhinha “Sagrado Coração”. Facas específicas para cada tipo de queijo.

6 – Escala: grande parte dos “souvenirs”, miniaturas de monumentos e estátuas. A Torre Eifell/apontador de lápis seria portanto duplamente kitsch.

7 – “Horror do vazio”: superfícies totalmente decoradas. Aqui também o Barroco e, principalmente o rococó, são kitsch. Poderíamos talvez incluir as tatuagens? São feitas nas grandes superfícies vazias…

8 – Falseamento de materiais e situações: alvenaria com veios de mármore ou madeira, muros de concreto imitando madeira ou pedra. Ou, por outro lado, a heterogeneidade surrealista: presépios de Natal com trem elétrico e araucárias.

Alguns temas são particularmente propícios ao kitsch. Para o momento, citamos o kitsch religioso, o erótico, o souvenir e… a Arquitetura.

A interessante identificação feita por Guimarães e Cavalcanti para a Arquitetura, assinala:

1 – o kitsch como visão do mundo: mar como tema de ambientação numa sala de visitas (ou na casa inteira), infantil (em escolinhas, creches, berçários), flores (é uma verdadeira obsessão para caracterizar feminilidade), futebol (sem comentários, é uma caixinha de surpresas).

2 – visionário: para quem conhece, o palácio de Francisco Bolonha, em Belém, tem as iniciais FB em todos os azulejos e ladrilhos, telhas, guarda-corpos em ferro batido, jateado nos vidros…

3 – religioso: praticamente tudo o que se encontra dentro de uma visão ingênua de religião. Pode-se dizer que há uma “estética de santinho” para imagens, pinturas e para as próprias igrejas (nave em forma de navio…) O não-kitsch seriam os ícones das religiões ortodoxas, produzidos – escritos, como se diz – como obras de arte.

4 – o kitsch de influência da arquitetura moderna, principalmente Brasília nos anos sessenta. As colunas do Alvorada foram reproduzidas nas situações mais bizarras em construções, paralamas de caminhão, objetos industrializados. Foram um ‘símbolo da modernidade brasileira’ – na verdade, bons tempos, aqueles!!!

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…E O KITSCH EM CURITIBA?

     Somos bastante bons nisso. Igreja em forma de navio, restaurante em avião, capitel pendurado no frontão – todo um acervo de delírios em que, diga-se em defesa da categoria, pesa mais a desinformação do mandante que a formação do projetista.

Mas há uma particularidade curiosa, da qual não sei quantas cidades podem se “orgulhar”: temos toda a História da Arquitetura em templos e igrejas. Desde templo egípcio, passando pelo grego e basílica romana, até barroco e gótico – no percurso, perdemos o que era autêntico, como o colonial e o enxaimel. Temos também o modernismo autêntico, é claro – antes da complicada pós-modernidade.

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CONCLUSÕES INCONCLUSIVAS

     O estado das minhas pesquisas e reflexões sobre o tema ainda não levam a muitas conclusões. Depois de uma apresentação (o tema sobre o kitsch na arquitetura de Curitiba, com o título deste post, foi proposto mais ou menos no ano 2000 na UFPR), a profa.Josilena disse que eu tenho uma “visão modernista” do kitsch: tudo o que é não funcional, seria kitsch. Concordo. Observe-se que todas as categorias aqui vistas, referem-se ao kitsch como, em algum momento, falseando, mentindo, pseudo, dando uma impressão ilusória.

Além do mais, dependendo da abordagem, TUDO É KITSCH. Já li um arquiteto comentar que a Catedral de Brasília é kitsch – o que colide com o meu conceito, que alias não é muito preciso. Para considerar a mencionada obra como kitsch, teríamos que incluir na categoria a própria arquitetura gótica, visto que os princípios geradores do projeto são uma leitura contemporânea das mesmas idéias de luz, estrutura, percurso de acesso. Entendo que, quando um artista parte de uma idéia para chegar a uma forma, não comete kitsch. Comete quando, para uma mesma idéia, re-digere as formas. Mas por favor, isso não é, ainda, uma definição…

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BIBLIOGRAFIA PRELIMINAR

1 – AMELIE O. Made for love. Oostkamp (?), Stichting Kunstboek, 2009.

2 – ARCHITECTURE DOUCE. Revista “L’Architecture d’Aujourd’hui, nº179, mai/juin 1975.

3 – BENJAMIN, Walter. Rua de mão única. São Paulo, Brasiliense, 1993.

4 – BROCH, Hermann. Kitsch, vanguardia y arte por el arte. Barcelona, Tusquets, 1979.

5 – DORFLES, Gillo (org). Kitsch, the world of bad taste. New York, Bell, 1969.

6 – ECO, Umberto. Storia della brutezza. Milano, Bompiani, 2007.

7 – GUIMARAENS, Dinah & CAVALCANTI, Lauro. Arquitetura kitsch: suburbana e rural. Rio de Janeiro, Funarte, 1979.

8 – (idem) Arquitetura dos motéis cariocas. Rio de Janeiro, Espaço, 1982.

9 – LEVY, Hannah. A propósito de três teorias sobre o Barroco. IN: Pintura e Escultura I. São Paulo, FAUSP/MEC/IPHAN, 1970.

10 – MOLES, Abraham. O kitsch. São Paulo, Perspectiva, 1972.

11 – NORMAND, Jean-Michel. Kitsch. France, du Chêne, 1999. 12 – STERNBERG, Jacques. Kitsch. London, Academy, 1974.

13 – WARD, Peter. Kitsch in sync. London, Plexus, 1991.

Observação: as fotografias não são diretamente relacionadas com o texto. Mas acho que ninguém consegue evitar uma “sensação de kitsch” ao observá-las – o que é a razão para estarem aqui.

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