AS VIAGENS DE ARQUITETURA BRASILEIRA

6 de maio de 2013 por keyimaguirejunior

SEXTA-FEIRA, 03 DE SETEMBRO…

1 – A Partida

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O 106 em Paraty. Foto: (?)

                        A sexta-feira antes da Semana da Pátria é o dia da saída das Viagens de Arquitetura Brasileira. Muita correria – depósitos bancários em dinheiro, inúmeras ligações interurbanas, disputa das vagas – termina diante da Prefeitura da Cidade Universitária, onde ainda há gente trabalhando. O pessoal cheio de malas e mochilas, muito animado, preocupado – “será que vai dar tudo certo?!” Prá muita gente, é a primeira soltada da barra da saia da mãe. E mães e pais são os mais ansiosos:

_  O sr. cuida bem dessas crianças, né, professor?

_  Qualquer imprevisto o sr. me liga, taqui meu telefone.

_  Vocês não vão ficar entrando em casa velha com risco de desabar, né?

_  O sr. lembra a ela de tomar o remédio, faz favor? (Na hora eu digo que sim, lembro sim senhora, mas em geral o que acontece é eles me lembrarem de tomar o meu… ao me verem sair da pousada de câmera em punho.)

_  O sr. dá uma atenção se ela ficar desenturmada?

_  O sr. que é o professor Miyagi?

Isso são as mães modernas, a minha, quando comunico mais uma viagem, invariavelmente pergunta, alarmada:

_  Mas você consegue controlar esses jovens todos? Senão, vão fazer bandalheira e pega mal prá você!

Eu respondo:

_ Ah, que nada, de noite eles estão tão cansadinhos que só querem dormir…

Prás outras mães, eu digo qualquer coisa tranqüilizante, mas o que tenho vontade de dizer é:

_  Olha, dona, aqui é a UFPR, não é nenhum colégio de terceiro grau, não…

Até que desponta ao longe o poderoso 106 da Montana, conduzido pelo Jorge, e fico feliz de não ser uma das relíquias patrimônio histórico da UFPR, com seus motoristas auto-suficientes. Ou, pior ainda, um Grendha…

Pela quantidade de tralha que o pessoal carrega prá passear pelo Brasil afora, até que o embarque é rápido. Nunca precisei requisitar, todos sabem que o primeiro banco, atrás do motorista, é meu lugar – faz sentido, certo? – e o do lado, vazio por alguma desistência de última hora, é da bolsa da minha câmera. Em algumas emergências – briga lá atrás, arrufos, e até aquela pergunta infalível “prá onde que a gente tá indo? demora muito? tem parada prá banheiro pelo caminho?” – é temporariamente ocupado por gentes.

Sempre tem um atrasadinho (“daqui a dez minutos estou aí!”) e, depois que ele chega,  tem um discurso do motorista e saímos do campus. Em poucos minutos estamos na BR, e o 106 assume logo sua “velocidade de cruzeiro”, tranquilão. Com o cansaço acumulado nos últimos dias, eu só esperava por isso prá pegar no sono – mas antes faço o “serviço de bordo” distribuindo os caderninhos de viagem. Não tenho ilusões: muita gente só fica sabendo prá onde vai a partir desse momento – isso prá não falar dos que vão e voltam sem saber por onde andaram… Já pensei em fazer um CD com músicas – indo do órgão de Manoel Dias de Oliveira até o Milton Nascimento – ia ficar muito chique, o caderninho de viagem com CD! Mas tem toda aquela chatice com direitos autorais e achei melhor deixar quieto.

Meu método  é começar sempre pelo local mais distante, e depois ir fazendo a volta por aproximação. Chegar em Goiás, Diamantina, Serro, Salvador e depois vir voltando… são trinta, quarenta horas pontilhadas de paradas para xixi e lanche, xixi e almoço, xixi e… enfim…

É um fim de tarde quando chegamos ao primeiro destino – e depois do tradicional bate-boca à entrada da pousada, mesmo que o rooming tenha vindo pronto e aceito por todos – as bagagens vão para os quartos e saímos para o primeiro passeio: aquela sensação de estar em outra cidade, outra região, outro planeta com outros costumes, outras pessoas, outras comidas – e sem professor prá encher o saco(!) Eu dou as dicas a quem as pede, mas acho que descobrir as coisas faz parte das delícias da viagem. E é muito comum eu receber boas informações de quem se lançou em explorações…

No dia seguinte, depois do café na pousada – sempre com pão de queijo e o inevitável “Key, tomou o remédio?” – começamos e explorar, fotografar, visitar, xeretar, sempre sem esquecer de observar lugares onde possa haver um almoço bom e barato.

Formam-se grupos – a maior parte já veio formado antes – o que é o melhor esquema possível, eu não gostaria de contribuir com mais uma horda de turistas nesses lugares. O objetivo, reforço sempre, é fazer viajantes. Nos meus percursos, encontro sempre quem me faça perguntas, se rebele contra besteiras dos guias, queira um esclarecimento qualquer – e isso são aulas muito rápidas e concisas, e nelas está talvez o mais importante da viagem. Nas refeições e paradas para descanso também, formam-se seminários sobre patrimônio cultural brasileiro, espontâneos e mais proveitosos que as cento e vinte horas de aula na PD-06.

E assim vamos indo – algumas cidades, como Brasília e Belzonte – são mais impactantes e o apelo comercial faz suas vítimas – mas o bom mesmo são as cidades com grandes centros históricos. Além das já mencionadas, Parati, Tiradentes, Mariana e a inigualável, incomparável, inacreditável Vila Rica do Ouro Preto, com sua magia, suas ladeiras, suas fantásticas matrizes e sua ainda mais inacreditável República Pureza.

Eu entendo que nessas repúblicas há personagens, rituais, procedimentos que fazem parte do patrimônio cultural imaterial brasileiro – e com risco de desaparição. É mais uma experiência da viagem, e além do mais, fica lá embaixo da ladeira das Mercês. Na última viagem, fiz a estatística: foram 25 subidas até a Praça Tiradentes…

A chegada e a saída da Pureza são uma chatice que não consegui resolver a contento. Ou o ônibus pára no Ponto Turístico e descemos até lá em vans, coisa cara e chata com motoristas que atendem mal – ou, como fizemos das últimas vezes, descemos carregando tudo tipo formiga saúva fazendo carreiro – até uma pracinha junto da Ponte de Antonio Dias, a cem metros da Pureza, que o Jorge descobriu.

Eu entendo que três lugares não podem faltar numa boa viagem de Arquitetura Brasileira: Goiás (ou Diamantina), Ouro Preto e, é claro, o Caraça. Eles lá dizem que é a “Porta do Paraíso”, e eu acredito. Se alguém aí muito bonzinho for para o Paraíso, e a entrada não for pelo Caraça, desconfie: estão te enrolando.

A igreja, a biblioteca, o parque, a comida – são coisas sem explicação, só estando lá prá ver e sentir. E o melhor de tudo, o ritual da visita dos lobos-guará. Aquela chegada deles, subindo a escada até o adro da igreja, com seu jeito tímido, sua beleza, seu charme canino – prá quem está lá, é um limiar da condição humana. Se você não se emocionar com isso, você é um mineral, vá ser pedra de rua em Sanpa.

Nos dias em que estamos lá – começo de setembro – no fim da tarde, o sol se põe por trás de uns morros em frente à igreja – as sombras vão subindo e a agulha é a última a ser iluminada no dia. Antes disso, a luz vem pelo adro, entra pelas portas sempre abertas e ilumina o altar lá no fundo da nave – de passagem, lançando uma claridade suave sobre a Ceia barroca do Ataíde, colocada sobre uma porta lateral que vai dar no claustro.

Certos lugares não-programados, ou programados como experiência – podem terminar sendo muito bons: como o garimpo em Diamantina, a Gruta do Maquiné ou o Instituto de Permacultura do Cerrado. Ou podem ser uma roubada inesquecível, como o tal Vale do Amanhecer…

Idalvo de Jesus Globo Rural out2007

Idalvo de Jesus: o garimpeiro que vimos em ação em Diamantina.

Revista “Globo Rural” , outubro de 2007

Mas é altamente recomendado que se vá à missa. Não aquelas missas de casamento, que a gente não vê a hora de terminarem prá ir ao juantar, mas à missa comum com gente comum.Depois de assistir à missa das 7:30 na NS Carmo de Ouro Preto – aliás minha preferida – entendi um pouco melhor como foram possíveis todas aquelas maravilhas do Barroco Mineiro.

E depois de uma missa no Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro, em latim e com Canto Gregoriano, entendi melhor o espírito da Ordem Benidina – inclusive, é claro, sua arquitetura.

Eu me orgulho muito de dizer que jamais tive um aborrecimento sério em alguma das dezoito grandes Viagens de Arquitetura Brasileira – e sei perfeitamente que isso se deve muito mais a vocês do que a mim. Tenho menos trabalho circulando pelo Brasil com 45 estudantes do que com um pequeno grupo numa viagenzinha de fim de semana. Também as dezenas de viagens curtas, com uma ou duas noites fora, jamais representaram um abacaxi, ou uma obrigação desagradável. Os incidentes mais graves foram do tipo picada de formiga no pé numa fazenda do Vale do Paraíba, dor de ouvido numa filha de médico, uma diarréia por excessos alimentares… Claro que, do meu posto lá perto da cabine de comando do 106, sei que da metade pro fundo do ônibus rola muita fofoca, corações partidos, arrufos, amores à primeira – ou segunda, ou terceira – vista, mas isso não precisa de viagem prá acontecer. Eu raras vezes fico sabendo e acho que nem é da minha conta.

2 – Episódios e frases

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Primeira viagem: Sítio Santo Antonio, Cotia, SP (Foto: Key 1983)

Acontece muita coisa engraçada, é claro, mas que só tem graça na hora que acontece, contado depois, é meio bobinho. Mas, só prá não ficar sem alguns registros:

1 – Na última viagem, uma caloura – dá de tudo nessas viagens! – ao receber seu ingresso para entrar no Museu Imperial de Petrópolis, perguntou:

– Que Museu Imperial? E quando que a gente vai prá lá?

– O Museu Imperial é essa construção neoclássica aí atrás de você…

Depois a vi pelas salas, babando diante da coroa do Império, do Manto dos Tucanos, e do mais que aquele museu tem…

2 – Às vezes, consegue-se um hotel ou pausada com certa qualidade a preço de estudante. Foi o caso de um em Maquiné, com piscina e outras instalações. Chegamos aí pelo meio da tarde, as meninas vestiram seus biquínis e foram para a piscina. Pelo caminho, cruzaram com um grupo de engenheiros ou coisa parecida, em curso de treinamento no local.  Um deles olhou tudo aquilo passando e disse para os outros:

-A gente não vai mais jogar futebol, né?!

3 – Nem todas as viagens foram para o centrão do país, houve várias que saíram desse esquema e foram muito boas: por exemplo, para o Sul.  Numa dessas, houve a inevitável tomada do caminho errado pelos motoristas que resultou cairmos numa estradinha caótica na Serra Gaúcha, para chegar a Antonio Prado. Depois houve  horas de muita lama, ônibus rabeando à beira do despenhadeiro (“Key, você viu o tamanhinho das cidades lá embaixo?!”).  Não sei o que teria acontecido se viesse um veículo em sentido contrário e, numa escuridão absurda, achamos uma placa para saber onde estávamos. Fui comunicar ao pessoal que estávamos próximos a São José dos Ausentes, o que causou um quase pânico. Acho que criamos uma lenda nova: um ônibus branco que na madrugada pára diante das casas para pedir informação…

E o melhor é que ninguém acredita nisso: o lugar é considerado inacessível de jipe, com os velhos ônibus da UFPR, é de se duvidar mesmo.

4 – E tem aquela da aluna vegetariana, num bufê de beira de estrada, sentada na mesma mesa que eu, comendo suas verdurinhas, quando um velhinho desastrado, ao passar pela balança, inclina a bandeja, o prato desliza – e dá um banho de molho de carne nela, em cheio…

5 – Houve um “episódio heróico” ( a classificação não é minha…) na viagem a Salvador. Depois de uma manhã curtindo tartarugas nessa coisa bonita e que dá a sensação de que o ser humano talvez tenha jeito – Projeto Tamar – houve um almoço que demorou uma eternidade prá sair. Daí, já no meio da tarde, fomos para a Casa da Torre de Garcia d’Ávila. Mais perda de tempo no caminho, quando uma guardinha invocou com uma trinca no vidro do 106, mas chegamos lá. “Nessas estrada, tem muito pobrema com praca”… Quando o ônibus encostou na portaria do parque, desabou um aguaceiro tropical tenebroso: raios e trovões, água que não acabava mais, vento de inclinar as palmeiras, o dilúvio, o fim do mundo, o céu caindo sobre nossas cabeças ou coisa pior.

Mas era uma das minhas razões para programar aquela viagem, e fui ver o que tinha ido para ver… E todos se jogaram atrás, dizem que só um ficou no ônibus… Foi um festival de sombrinhas viradas pelo avesso, capas voando sem ninguém dentro, quase-tombos nas passarelas de ferro molhadas, gargalhadas sinistras dos fantasmas do século XVI…

MAS NÓS VIMOS O CASTELO DA TORRE DO GARCIA D’ÁVILA!!!

Nessas frases a seguir, vocês vão notar que algumas são meio encomiásticas, mas o que fazer, ego é uma coisa difícil de administrar.

– Se for prá fumar, beber, zoar, vá aos Enea, Elea, Erea. Se for prá ver coisa boa, aprender e se divertir, vá nas viagens do Key. (De uma veterana a uma caloura que pediu informação sobre “todas essas viagens de que falam tanto.”)

– Agora vou prá casa e vou ficar uma semana paradão, pensando, até entender tudo o que vi nessa viagem. (De um estudante do quarto ano, voltando da viagem.)

– A gente sobe ladeira, sobe ladeira, sobe ladeira, anda, anda, anda – e engorda! (De uma aluna, reclamando das excelências da cozinha mineira.)

– O que fica do curso é a atuação no GAU, são as viagens do Key… (Da profa.Gislene, que estava na primeira viagem.)

– Nós não queremos voltar prá casa. Você seqüestra o ônibus, nossos pais pagam o resgate e a gente continua viajando… (Grupo de alunos com ar sinistro, depois do último embarque da última viagem.)

3 – Rangos memoráveis

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Chegou a sobremesa! Refeitório do Caraça . Foto:(?)

Não se trata, aqui, de lugares com boa comida, o que seria uma lista grande e com muito risco de esquecimento.  Foram refeições em que estavam presentes todos ou quase todos os viajantes – num clima de invejável satisfação.

– Praia do Santinho: um churrasco assado pelo Zé Rodrigues, com o episódio do chamuscamento das traseiras de um pessoal muito próximo da churrasqueira;

– Pracinha da Matriz do Serro: na noite da chegada, com lua cheia e calor, bom serviço: a Luz e a Camila esperaram uma hora pela pastasciuta;

– Centrão de Salvador; na noite da chegada, num boteco onde rolou muita fofoca, cerveja e petiscos baianos;

– Numa escuna em Paraty, uma muqueca de peixe impecável, que saiu às quatro horas da tarde;

– Num CTG quase inincontrável de Porto Alegre (“já passamos três vezes pela frente do hotel!”) onde um boleador gaúcho desmanchou o cabelo da Monize;

– Em Jaguariaíva, na Fazenda Vale do Corisco, carne temperada pelo prof. Humberto Mezzadri, sob o céu mais estrelado do planeta;

TODAS as refeições, mas principalmente o café da manhã no Caraça; e a janta seguida de missa, pipoca e lobos;

– Uma orgia gastronômica em que foram consumidas DEZOITO pizzas num Albergue da Juventude em Teresópolis;

– No Pelourinho de Salvador, o Buffet de comida baiana de um SESC local;

– O café da manhã na Pureza: pão fresco, manteiga caipira e café preto.

4 – Conclusão

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Subida para o Convento NS da Penha, Vitória. Foto:(?)

            Bom, a gente era feliz e sabia disso…

Claro que eu não tenho e-mail de todos o participantes das viagens, então vocês por favor encaminhem para os colegas que também gostavam delas.

Abração com saudades!

Key

(Continuo aceitando contribuições, em fotos e causos. Atualizado para meu blog “keynews” em abril de 2013.

Também preciso de uma ajuda para identificar os autores das fotos.)

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