SOLDA, CENSURA E NEOLIBERALISMO OU

4 de maio de 2013 por keyimaguirejunior

El presidente y los macaquitos ou

Os macaquinhos no sótão do Solda ou

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(Coloque seu próprio título na linha pontilhada)

 Imagem

             Quando digo que há menos liberdade hoje que no tempo da ditadura militar, tem gente que vira ouriço. O mínimo que me chamam é de pessimista, entre outros adjetivos mais pesados.

No entanto, aí está o “Caso Solda” prá mostrar que tenho razão. Os fardados prendiam e arrebentavam, na consagrada expressão de um deles, que esqueci quem foi. Agora a opressão é por mecanismos jurídicos e econômicos, sacaneando quem ousa extrapolar da passividade feliz generalizada. Os engravatados do neoliberalismo demitem os discordantes.

Não lembro se o Solda foi censurado durante as quase três décadas de regime ditatorial. Mas foi vitimado, já na segunda década do século XXI, pela mais tosca e safada das pressões: aquela que atinge a pessoa em seu sustento. O recado é do tipo: concorde ou morra de fome.

Nos anos setenta, Umberto Eco, um dos “professores da modernidade”, escreveu uma de suas muitas obras primas que ajudaram a abrir a cabeça do mundo para os fenômenos da contemporaneidade. Em “Obra Aberta”, ele assinala que as obras mais importantes da História da Arte são ambíguas em seu recado. O sorriso da Gioconda, uma capela do Mies van der Rohe, um filme de Godard (exemplos meus): quem vê, conhece, assiste, atribui à obra significados que não são necessariamente da intenção do autor, mas em grande parte – variando de zero a cem por cento – do repertório cultural, dos valores do leitor.

Para além da excepcional qualidade do desenho inconfundível do Solda, que o coloca entre os maiores cartunistas brasileiros de todos os tempos, o cartum censurado contém ambigüidades, como deve ser uma obra não fechada e não hermética, que essas só são qualidades nas academias. E, portanto, na ótica de um pensador acima de qualquer suspeita como o Eco, tem a qualidade de permitir a seus leitores que vejam nela significados nos quais nem o próprio Solda pensou, nem poderia ter pensado, visto que dependem do acervo do leitor. A legenda, que remete ao gesto do macaco, participa dessa ambigüidade.

As acusações contra o Solda são de racismo e abuso da liberdade de expressão. Ambas são ridículas: liberdade de expressão, como qualquer outra liberdade, existe ou não existe; se existe é para ser usada. Lá nos tempos ditatoriais, Millôr Fernandes disse que “só jornais mentirosos, escandalosos, corruptos e caluniadores nos dão a medida da nossa liberdade de imprensa”. Quer dizer: se há limites, não há liberdade.

Quanto à acusação de racismo, ai que cansaço: o Solda, se tem algum tipo de intolerância, é contra qualquer tipo de preconceito. Está aí toda a sua obra, de décadas, como prova disso. Essa acusação idiota é apenas mais um inbecilismo do “politicamente correto”, uma farsa destinada apenas a gerar processos e deixar tudo igual. Ou pior, visto gerar votos.

Qualquer macaco velho com a folha de serviços do Solda, sempre batalhando por uma Justiça de verdade, sabe que levar porrada faz parte do ofício de quem ousa ser contra a subserviência ao autoritarismo. Humor a favor não existe, a não ser como piada. A própria atitude do jornal, não dando explicações, é no melhor estilo autoritário “fi-lo porque qui-lo”.

Ninguém se refere ao tema do cartum, que é a revolta planetária contra a facilidade com que o xerife saca seus mísseis e mariners contra os fracos e os indefesos. Entre os quais nós, bananeiros. Pelo menos os que não acreditamos nessa conversa prá macaco dormir de “sétima economia do mundo”. Pensando bem, sete é conta de mentiroso mesmo.

Continuamos a ser tratados com condescendência, como macaquinhos de zoológico (vamos começar a dizer “Zoo”?), nos dão umas bananinhas nanicas prá acharmos que a jaula é melhor que a floresta. No fundo, não temos opção, porque com a floresta eles acabaram também.

Liberdade de expressão, liberdade de imprensa – banana prá quem acredita que isso existe em “democracia” neoliberal…

Key Imaguire Junior

                             Curitiba, maio de 2012

Ilustração: cartum do Solda que causou sua demissão e motivou o texto acima.

 

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