BURACOS NEGROS NA HISTÓRIA DA ARQUITETURA NO PARANÁ – 10

4 de maio de 2013 por keyimaguirejunior

 Imagem

SÃO FRANCISCO, MERCÊS E ADJACÊNCIAS

Uma seqüencia de pequenas casas, com uns 150/200 metros construídos. Jardim frontal bem cuidado, árvores e canteiros. Despretensiosas, cara de casa de gente decente. Nos fundos, árvores, plantas, arbustos floridos, às vezes uma pequena horta. A casinha do simpático guapeca, gramado para quarar a roupa, quartinho de despejo, eventualmente, um poço.

Mais adiante, uma fileira de pequenos sobrados residenciais, cada qual de uma cor, anunciando proprietários diferentes.

As “villas”,algo imponentes, mas sem grosserias de prédio, bonitas – circundadas de jardins com anões, bancos de praça e garças. Tudo em meio a canteiros floridos, árvores. Tudo do tempo em que as pessoas cuidavam de plantas e bichos em vez de se imbecilizar diante da televisão. “Mandei cortar a árvore, derrubava folha e eu tinha que varrer”.

Até algumas casas de madeira, esperando resignadas pelo incêndio ou demolição.

Ruas de paralelepípedos, calçadas em lajotinhas de duas cores: granito, material para a eternidade. Canteiros bem cuidados, muita área permeável, pouca iluminação noturna, aconchegante como para quem não tem medo de bicho-papão, ladrão ou traficante.

É arquitetura sem arroubos formais, à margem de modas e estilos, difícil datar pela aparência. Como os humanos: uns feios e muito feios, outras lindas e muito lindas. Mas no geral, apenas normais. Salva a simpatia, o charme, a urbanidade.

Tudo muito limpo e cuidado, tranqüilidade de área residencial, pouco tráfego para as crianças poderem brincar e jogar bola na rua, que serve prá isso também, sem arrogância de play-ground fechado. Os passarinhos nidificam nas árvores e não assistem os filhotes atropelados quando tentam aprender a voar. Uma ninhada de gatinhos ou cãezinhos acha adoção fácil nas casas, onde se sabe que gente sem bicho vira bicho.

Dá prá aceitar pequenas vendas, daquelas que têm de tudo, muito melhores que qualquer supermercado, porque o dono sabe o que a vizinhança consome e já escolheu os produtos mais vantajosos. Comércio de essencialidades, digamos assim. Poucos e discretos serviços – sapateiro, bicicletaria, costureira – mas sem os majestosos e opressivos escritórios de advocacia e clínicas – lugar dessas coisas é em edifício. Virem-se lá com o “estacionamento fácil”, sem desapertar prá cima de quem quer apenas morar direito.

Perto do meio-dia tem cheiro de comida boa no ar; quando chove sobe um cheiro de terra molhada; algumas flores noturnas perfumam a brisa perto do portão onde se namora.

Pois é… essa é que era a Curitiba “Cidade Sorriso”. Assisto à sua morte sem poder reagir. Não há o que fazer, embora parar de espernear e berrar esteja fora de questão. É o “preço do progresso”, dizem os imobiliaristas e seus prefeitos-lacaios. Mas progresso prá quem?!

Como diria Chico Buarque, “diz que me ama e eu não sonho mais”…

Bibliografia preliminar

1 – ARGAN, Giulio Carlo. História da Arte como História da Cidade. São Paulo, Martins Fontes, 1992.

2 – BARROS LATIF, Miran de. Uma cidade nos trópicos. Rio de Janeiro, Agir, 1965.

3 – BENJAMIN, Walter. Le livre des passages. Paris, Cerf, 1992.

4 – EISNER, Will. New York, a vida na grande cidade. São Paulo, Quadrinhos na Cia, 2009.

5 – L’histoire Du Vieux Montréal à travers son patrimoine.

Québec, Les Publications Du Québec, 2004.

6 – LYNCH, Kevin. ?De qué tiempo es este lugar? Barcelona, Gilli, 1972.

7 – PAMUK, Orhan. Istanbul. São Paulo, Cia das Letras, 2007.

8 – RIPELLINO, Angelo. Praga mágica. Milano, Einaudi, s/data.

9 – RUSKIN, John. As pedras de Veneza. São Paulo, Martins Fontes, 1992.

10 – WAISMAN, Marina. La estructura histórica Del entorno. Buenos Aires, Nueva Visión, 1977.

Ilustração: Tinho, morador das Mercês. Foto do autor, 2013.

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