BURACOS NEGROS NA HISTÓRIA DA ARQUITETURA NO PARANÁ – 9

3 de maio de 2013 por keyimaguirejunior

Imagem

Os sobrados ecléticos

As grandes expressões da arquitetura tradicional curitibana, ensejadas pelas economias ervateira, madeireira e, em parte, cafeeira, são os sobrados e “villas” ecléticas. Não há como particularizar, ainda, uma escala social para essas produções – o que depende de uma tipologia,antes de mais nada.

Nas áreas centrais, onde há concentração de unidades arquitetônicas preserváveis, a fórmula do sobrado é dominante. Foram construídos, em parte, sobre as formulações do período colonial, herdando delas as características funcionais. E vão sendo engolidos por modernismos e pós-modernismos de qualidade discutível. Mas são ainda presença admirável na composição dos cenários dos logradouros tradicionais. Setor Histórico, Rua XV de Novembro, Rua Barão do Rio Branco/Praça Eufrásio Correa, Ruas Riachuelo e São Francisco, Praças Tiradentes e Generoso Marques – para ficar nas menos alteradas. No resto da cidade foram comuns até pouco tempo – digamos, até a metade do século XX, sendo demolidos contra os nossos interesses e a favor dos imobiliaristas.

Representam uma transição do colonial, seguido do ecletismo rumo ao moderno com passagem pelo art-déco. Na origem, o sobrado curitibano reproduz a formulação colonial. O pavimento térreo com uso comercial – várias portas; no sobrado os espaços residenciais – salas, sacadas ou balcões – e aos fundos, os quartos. O aproveitamento do sótão não é regra, a presença de mansardas é rara.

Formalmente, representam a tendência ornamental eclética, embora com predomínio do vocabulário neoclássico das colunatas, frontões e platibandas balaustradas. Chegam até o Paranismo, do qual há um único remanescente; e há resquícios de um neo-colonial mal digerido.

Mesmo quando “atualizados” para a estética art-déco ou intercalados com as primeiras fases modernistas, compõem paisagens interessantes, visualmente ricas de informação. Não esquecer que, antes dos slogans políticos de manipulação, o apelido de “Cidade Sorriso” devia-se à paisagem eclética.

Passar pelas paisagens ecléticas de Curitiba faz lembrar a Rua Augusta, em São Paulo. Na origem, sobrados de classe média. Nos anos sessenta, em antecipação aos shoppings, reformados, concentração de lojas da moda. “Comprei na Augusta” era uma referência de prestígio nacional. E hoje, nas quadras adjacentes a uma das avenidas mais poderosas do país, viraram escombros, cortiços, muquifos. Uma das muitas lições paulistas que nos recusamos a aprender.

Em que pesem as muitas reformas por que passaram, pode-se estudar nos remanescentes e na documentação, notadamente nos projetos e levantamentos, questões construtivas e da arquitetura residencial.

É um dos maiores vácuos no nosso conhecimento da arquitetura da cidade. E dos mais graves, em vista de ser o principal componente da nossa paisagem tradicional. Em que pesem algumas ações de preservação existentes, esses imóveis provocam intensa salivação nos imobiliaristas.

Bibliografia preliminar

1 – BACOCCINI, Luiz & SLOMPO, Sabrina. Percursos da Arquitetura; Arquitetura em Curitiba 1721/1962. Curitiba, dos autores, 2001. (Cartaz e CDrom)

2 – Boletins da Casa Romário Martins da Fundação Cultural de Curitiba.

3 – DUARTE, Otávio & GUINSKI. Imagens da evolução de Curitiba. Curitiba, Quadrante, 2002.

4 – SUTIL, Marcelo Saldanha. Arquitetura eclética em Curitiba. Curitiba, Máquina, 2002.

ILUSTRAÇÃO: projeto de sobrado paranista à Rua XV de Novembro, registrado em 1932. Acervo da Casa da Memória.

Anúncios
%d blogueiros gostam disto: