BURACOS NEGROS NA HISTÓRIA DA ARQUITETURA NO PARANÁ – 6

2 de maio de 2013 por keyimaguirejunior

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CINEMAS

Escreve-se muito sobre ele, mas a bibliografia sobre o cinema como fator de sociabilidade, ou a presença das salas de projeção como cenário dessa sociabilidade e como arquitetura, é inexistente.

No entanto, a sociabilidade brasileira, que nos tempos coloniais era administrada pela Igreja, é laicizada a partir da segunda metade do século XIX, indo se alojar nos teatros – ainda não estudados como o mais monumental conjunto de edificações produzido pelo Ecletismo. Nos anos centrais do século XX, desloca-se para os cinemas, pelo menos como fator mais evidente e mais brilhante. Aquele que pode ser entendido como o grande e mais original produto cultural de seu tempo. Nas salas de projeção, termina um longo processo de criação, concepção e produção – aí incluídos inúmeros prodígios técnicos – que resultam em noventa minutos de emoção (ou de chatice, é claro).

A forma arquitetônica desenvolvida para esses espaços, revela sua presença social: são dotadas de imponente entrada, salas de espera, bombonière, – substituída pelo pipoqueiro… – sanitários e gerência, além dos espaços técnicos de produção e armazenagem. Eram localizados em áreas centrais das cidades – as chamadas “cinelândias” – locais privilegiados que favorecem o acúmulo de público entre as sessões. Os hábitos de encontro das pessoas são ritmados pelas sessões, bem como a programação se faz para públicos específicos: domingo pela manhã, há “matinada” para crianças; nas “matinês” predomina o público adolescente (às vezes matando aula) e à noite é a vez dos adultos. Estou tentando demonstrar um pouco a riqueza de abordagens possíveis – antes da mediocrização imposta pelos shoppings.

O edifício deve comportar produções que vão desde superproduções contando a vida de “reis, santos e heróis”, potentados manipulando multidões, até a desolação dos desertos e a miséria mais extrema.

Externamente, o edifício se revela pela caixa da sala de projeção, sob a qual a entrada, saguão e espaços de serviço. Alastra-se pelas imediações com comércio, e define uma paisagem com cartazes e anúncios luminosos referentes aos filmes. Essa arquitetura do edifício-cinema fica mais evidente nos tempos modernos, mas houve adaptação para salas de projeção desde ecléticas (velhos teatros) até art-déco e modernistas. A proximidade dos vários cinemas entre si também estabelece configurações especificas, conhecido nas grandes cidades como a já mencionada “Cinelândia”. Mas há salas de prestígio isoladas, guardando ou não proximidade da concentração.

Agrupados ou isolados em bairros, onde seu papel de cenário da sociabilidade é diferente mas também intenso, sempre foram definidores de hábitos e práticas da população, para todas as idades e classes sociais. Estimularam uma interação intensa e apropriação de espaços públicos. Mesmo os cinemas com caráter de “cinemateca”, mais elitistas culturalmente, tiveram esse papel.

Isso para tempos relativamente modernos – pelo menos em Curitiba, as décadas de 60 e 70 parecem-me corresponder ao prestígio  máximo do cinema. Limites, é claro, muito difusos.

Não foram os shoppings que acabaram com os cinemas de rua, eles apenas se apropriaram do vasto público dos“sem-cinema” – gente com medo de sair de casa para a rua. Quem matou o cinema foi o neoliberalismo, com seu estímulo e proteção à criminalidade. Criou-se uma nova ágorafobia, receio de locais sem seleção de freqüentadores, sem seguranças de óculos escuros ostensivamente vigilantes.

Ironicamente, as salas de projeção abandonadas pelos cinemas, são apropriadas em sua maioria pelas seitas religiosas neoliberais (tudo se encaixa, né?!) Salas que exibiram obras de arte requintadas, freqüentemente contestadoras, vanguardistas e renovadoras, produzidas por diretores inteligentes e politizados, em choque permanente com o Poder, foram transformados em palco do reverso ideológico.

Bibliografia preliminar

1 – MELO JUNIOR, Cordovan Frederico. Cine Luz nos tempos do cinema. União da Vitória, Fundação Municipal de Cultura, 1996.

2 – SANTOS, Francisco Alves dos. Cinema no Paraná, nova geração. Curitiba, FCC, 1996. Boletim da Casa Romário Martins, 112.

3 – SANTOS, Francisco Alves dos. Cinema Brasileiro 1975. Curitiba, Edições Paiol, 1975.

4 – WERNECK LIMA, Evelyn Furquim. Arquitetura do espetáculo. Rio de Janeiro, Editora UFRJ, 2000.

Foto: ruínas do Cina São João, que foi dos melhores de Curitiba. Foto maio 2013.

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