BURACOS NEGROS NA HISTÓRIA DA ARQUITETURA NO PARANÁ – 4

29 de abril de 2013 por keyimaguirejunior

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O ART-DÉCO: UMA ERA DE TRANSFORMAÇÕES

O art-déco representa, em termos regionais ao menos, mais do que um momento de estética própria entre o Ecletismo e o Modernismo. As contribuições do final do XIX à Arquitetura como que permeiam para o exterior, são assumidas: o que foi feio e escondido com variados e ingênuos recursos, passa a ser acolhido e exibido como atestado de status e de modernidade. Estruturas, materiais fabricados em série por máquinas, ou delas dependendo para utilização – ingressam triunfalmente no cenário construtivo. São ostentados em fachadas, vestíbulos e áreas sociais. Ladrilhos, “mosaicos”, guarda-corpos metálicos, o próprio vidro, o revestimento prioritário em pó-de-pedra, marcam um novo momento sobre as formas que prenunciam a modernidade arquitetônica.

Mas, ainda que marcante, no contexto curitibano e paranaense, a inovação estética não é o maior interesse dessa fase. O que vemos acontecer é um momento angular no que será adiante, a infernização da vida urbana: o adensamento e a verticalização.

Não tratamos ainda dos grandes prédios que, no início dos anos quarenta, começam a surgir na cidade: construções de elevado padrão como o Santa Julia, o Marumby, o Rosa Perrone entre outros. Nossa referência, nesse momento, são as construção assobradadas, e não mais altas do que isso, comportando moradias seriadas sob a mesma cobertura. Pode-se ver nelas herdeiras do sobrado colonial brasileiro – em que pesem as muitas e notáveis diferenças. No entanto, o art-déco chega a todas as gradações de intensidade de presença formal, bem como de programa e volumetria. “Villas” burguesas como o Palácio São Francisco e a Residência Santana Lobo, esta talvez seu mais elaborado exemplo. Rara ocorrência na arquitetura religiosa, o Seminário e Igreja de São Vicente. Nos edifícios, a interessante transição representada pelo Edifício Garcez, ainda utilizando decoração eclética num edifício, por outros aspectos, totalmente art-déco.

O volume – o mais das vezes em esquina – favorecendo a concordância das ruas num arco de círculo – comporta soluções em volume único e contínuo, tratamento característico do art-déco e revestimento quase sempre em pó-de-pedra. Este vem sendo descaracterizado com pinturas em PVC (que lhes cobre irremediavelmente a textura cinza escuro com brilhos de mica). O mais das vezes usam-se esquadrias metálicas (vitrôs), embora ocorram ainda as de madeira, com folhas em guilhotina. Internamente também é marcante o uso dos materiais industrializados: “mosaicos” nas áreas molhadas e de serviço, tacos ou parquetes (que usam a variação de cor e textura das madeiras regionais) nos pisos, forro “paulista” em caprichosos tratamentos de desenho.

Evidentemente, não se encontram todas essas características em todas as edificações, é uma tendência evolutiva partindo do Ecletismo e chegando ao Modernismo.

Há várias amostragens possíveis no universo citado. Os prédios públicos da “Era Manoel Ribas”, os citados grandes prédios nas praças centrais. Mas certamente o caráter de “edifícios horizontais” é o mais rico para estudo das transformações na arquitetura da cidade.

E o estudo do art-déco paranaense não se exaure em Curitiba. Em todas as cidades do Paraná Tradicional são encontradas suas manifestações, e mesmo em regiões de ocupação recente como os Nortes Pioneiro e Novo, e também no Sudoeste. O acervo art-déco de Porto União da Vitória é extenso e sua ferroviária, a melhor construção dessa fase do Paraná.

Bibliografia preliminar

1 – BROWN, Robert. Art-déco international. New York, Quick Fox, 1977

2 – CASTELNOU, Antonio. Arquitetura art-déco em Londrina. Londrina, do autor, 2002.

3 – EXPOSITION DES ARTS DÉCORATIFS. Paris, L’Illustration, ano 83, nº 4286, avril 1925.

4 – FAHR-BECKER, Gabriele. Wiener Werkstate. Köln, Taschen, 1995.

5 – GUIA DA ARQUITETURA ART-DÉCO DO RIO DE JANEIRO. Rio de Janeiro, Casa da Palavra, 2002.

6 – MAENZ, Paul. Art Déco: 1920-1940. Barcelona, Gili, 1974.

7 – SCARLET, Frank & TOWNLEY, Marjorie. Arts décoratifs 1925. London, Academy, 1975.

8 – UNES, Wolney. Identidade art-déco de Goiânia. Goiânia, Ateliê UFGO, 2001.

9 – DUDEQUE, Irã & GNOATO, Luis Salvador. A modernidade esquecida: art-déco na área central de Curitiba. Revista “Locus”, PUC/PR, Nº 004, setembro 2000.

10 – DUDEQUE, Irã. Espirais de madeira; uma história da arquitetura de Curitiba. São Paulo, Nobel, 2001.

Foto: edifício art-déco na Praça Tiradentes, Curitiba, foto maio 2013

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