BURACOS NEGROS NA HISTÓRIA DA ARQUITETURA NO PARANÁ – 3

24 de abril de 2013 por keyimaguirejunior

Imagem

ARQUITETURA INDUSTRIAL

Em Curitiba, a dispersão no território urbano dos remanescentes industriais, torna desejável sua preservação enquanto marcos isolados. É evidente que alguns agrupamentos – como o Rebouças – deverão ser pensados em conjunto. No caso desse bairro, a questão fica imbricada com a da paisagem ferroviária. Neste texto, tratamos apenas das construções dispersas.

Há alguns exemplos que já podem ser considerados como “pontos ganhos”: o Teatro Paiol, o Treze de Maio, a Fábrica Venske, o Moinho Curitibano. E, ainda que muito alterados pela reciclagem funcional, guardam sinais de sua origem: o Centro de Criatividade de Curitiba e os shoppings Müeller e Curitiba.

Mas na verdade a questão da preservação das construções para a produção  industrial é mais complexa do que listar edifícios de interesse. Trata-se, antes de mais nada, de encontrar ocupações, equipamentos e funções compatíveis com a amplidão desses espaços.

Pode-se pensar a questão, por exemplo, a partir de uma indagação à história econômica do Estado do Paraná: na preservação que temos até o momento, de toda a nossa História, quais os ciclos que contam com instituições para seu estudo e conhecimento? Para ficar com um exemplo apenas, em Pernambuco existe um Museu do Açúcar.

Sendo o Paraná um Estado que deve sua existência à erva-mate, que documentos temos dela? O Moinho da Rondinha é sem dúvida excelente documento, mas não dá conta – nem poderia – de tudo o que a Ilex representou culturalmente. Limita-se ao processamento, entre a extração e a moagem. Do cultivo ao barbaquá, do ensacamento à exportação – fases ricas culturalmente – nada temos.

O mesmo quanto à madeira: como um bando de bárbaros descontrolados, zeramos a magnífica e exuberante cobertura vegetal do Estado e dela não guardamos nenhum produto cultural. Átila dizia que onde seu cavalo passasse, a erva não crescia mais – e onde passamos nós, não crescem mais araucárias, nem imbuias, nem perobas nem coisa alguma alem de soja.

Se alguém quiser estudar a presença da erva-mate ou da madeira na economia brasileira, terá que se contentar com instituições genéricas. Que não têm condições, como é evidente, de chegar ao fundo na pesquisa e preservação documental referente a esses – ou aos outros – ciclos econômicos regionais. E encontrará apenas papelada, – se encontrar… – nada dos mecanismos, objetos, instrumentos que podem não apenas falar eloqüentemente das conexões entre extração e produção, como ser suporte científico para invenção e tecnologia de desenvolvimento.

Da mesma forma, quanto ao café. A cultura cafeeira determinou construções – no sentido literal e teórico -, ocupações e tradições que se perdem a cada dia que passa.

Então, senhores governantes, aí vai uma idéia capaz de ocupar pelo menos três grandes espaços industriais: os GRANDES museus do mate, da madeira e do café. E aqui fala-se de museus de verdade, com estrutura e condições de pesquisar, captar acervo e conhecimento, e divulgá-lo, sem o que, de nada servem. De passagem, criando mais atrativos para a cidade – visto que cultura, ainda que pouca gente acredite nisso, vai além de shows e carnavais. Há que pensar GRANDE.

Isso a nível da capital. A nível de Estado, a complexidade aumenta: não se pode deixar de pensar nos dois Matarazzo, em Antonina e Jaguariaíva, requerendo atenção urgente. Deve haver mais casos como o da Sguario, a serem preservados na sua integralidade – e funcionamento – com barracões de produção, represa, conjunto habitacional, usina elétrica, paisagem circundante. Apenas três exemplos “ao correr da pena”, ou do teclado.

Vale aqui citar o exemplo da usina hidroelétrica de Sibiu, na Romênia, uma das primeiras do mundo. Funciona ainda hoje, mais de um século após a construção, produzindo discreta porcentagem da energia consumida na região. Mas além da usina em si, guarda em pequeno museu anexo toda a documentação a ela relacionada, por exemplo, fotos de visitantes ilustres como Henri Ford e Albert Einstein. E, perfeccionismo cultural difícil até de imaginar, é operada pelos descendentes da equipe original de manutenção.

digitalizar0005

Bibliografia preliminar

1 – AUGUSTIN, Jean ET allii. Kombinat; ruines industrials ale epocii de aur. Bucuresti, Igloo, 2007.

2 – BRUNA, Paulo J.V. Arquitetura, industrialização e desenvolvimento. São Paulo, Perspectiva, 1976.

3 – IMAGUIRE JUNIOR, Key et allii. A Casa de Araucária. Curitiba, Instituto Arquibrasil, 2011.

4 – INDUSTRIE. L’Architecture d’Aujourd’hui, nº 133, septembre 1967.

5 – MAIA, Tom & BUARQUE DE HOLLANDA, Sérgio. Vale do Paraíba, velhas fazendas. São Paulo, Cia.Edit.Nacional, 1976.

6 – MERCADANTE, Paulo. Crônica de uma comunidade cafeeira. Belo Horizonte, Itatiaia, 1990.

7 – MIRANDA, Nego & URBAN, Teresa. Engenhos e barbaquás. Curitiba, Posigraf, 1998.

8 – STOLZ, Eddy. L’archeologie industrielle; une source pour l’histoire du mode de vie dans une societé industrielle. IN: Les Cahiers de Clio (separata). Bruxelles, CPHSH, s/data.

9 – SUCURSALA HIDROCENTRALI SIBIU. (Folder, disponível em WWW.hidroelectrica.ro)

10– UNESCO. Museums, imagination and education. Paris, Unesco, 1973.

Ilustração: a primeira gravura foi publicada sistematicamente no “Correio dos Ferroviários” na década de trinta. A segunda, na “Vamos Ler” dos anos quarenta.

Anúncios
%d blogueiros gostam disto: