ADEUS CURITIBA!

29 de março de 2013 por keyimaguirejunior

 Coelha Gibitiba 6-1979

Nos 320 anos de Curitiba, me inscrevo entre os que pretendem abandoná-la proximamente. Em parte, devido à bandidagem que aqui se instalou: a conivência das autoridades municipais estaduais federais com a criminalidade vai além do suportável. Viver entrincheirado e, ao sair de casa cruzar com olheiros de ladrões, drogados e maloqueiros, circulando como donos da cidade – isso não é vida.

Mas esse é apenas um componente do mal maior que me está expulsando, e que é a descuritibanização da cidade.

Acredito que Curitiba seja a cidade mais espezinhada do Brasil. Volta e meia chega pela internet uma daquelas listas de “Curitiba é isso e aquilo, curitibanos são assim e assado” – sempre hostis e depreciativos. Quanto a isso, não estou incomodado, é só ler as listas para perceber que o grande crime é não seguirmos os modelos nacionais vigentes: o baianismo, o carioquismo e quetais. As eleições por aqui sempre são “zebra” para partidos e candidatos. Nesse contexto, só os gaúchos seguram sua própria cabeça – mas lá há um histórico de revoluções e caudilhos respeitável.

Os ataques ao – pouco, pouquíssimo – que a cidade tem de seu, são diários e letais. Partem sempre dos poderes imobiliaristas e seus capachos diretos, os políticos. Ataques contra os quais não há defesa possível, porque partem de quem manda em tudo. Quem pode competir com anúncios de página inteira ou dupla página, apresentando como maravilhas da arquitetura contemporânea horrores de um mau gosto ostensivo?

Depois da insistência e má fé dos ataques – baseado em mentiras, exageros e chantagem emocional às calçadas e às árvores, vem aí coisa pior. Nenhuma cidade brasileira tem calçadas bonitas e personalizadas como Curitiba – em que pese a má conservação. Mas as árvores também estão na mira dos inimigos da cidade: qualquer Jeca Tatú (ave Lobato!) sabe que não se deve ficar embaixo das árvores grandes quando há temporal; mas aqui se preconiza cortá-las. Inclusive, insanamente, as araucárias, que têm direito ético de precedência na região. Aos domingos e feriados, escuto a moto-serra trabalhando – olho pela janela e há uma araucária a menos.

Mas desgraça pouca é bobagem, e agora a prefeitura aponta seus canhões de destruição para as Mercês. Depois de providenciar a descaracterização do Tatuquara, a má-fé e venalidade ostensiva dos planejadores da cidade é um dos capítulos finais da destruição da identidade de Curitiba. Que essa gente é babaca e vendida, não precisa mais que a denominação de “Soho curitibano” como demonstração.

Não falo do Batel, visto que esse já está verticalizado, adensado e parece com qualquer lugar de qualquer cidade – o belo exemplo paulista de acabar com as casas dos barões do café da Paulista, vingou e nós deixamos acabar a nossa herança dos barões ervateiros.

Mas nas Mercês sobreviveu até aqui um “jeito curitibano de viver”, apesar de muito prejudicado pelo carrismo do planejamento urbano prefeitural. Com um pouco de esforço, seria reversível. Mas a estupidez e má-fé do “adensamento e verticalização” não são reversíveis, são a pena de morte para qualquer lugar a que sejam aplicadas. Estupidez e má-fé, sim senhores: se Berlim – capital do país mais rico do mundo – não precisa de mais de seis pavimentos, porque Curitiba precisa?! E assim muitas outras cidades do mundo, a habitabilidade é perfeitamente desvinculável da “adensamento e verticalização”. A verticalização desenfreada tem como exemplo de seus apologistas em Chicago – e foi lá que a Máfia se deu bem, não foi?!

Não precisa pensar muito – coisa que não se tem feito por aqui – para perceber que o adensamento e verticalização de um bairro próximo ao centro traz problemas graves para o próprio centro e para os bairros adjacentes.

A sanha imobiliarista não conhece limites – tem a prepotência de quem está escorado no poder e nos políticos. Haveria muito o que fazer e construir na cidade sem esse retrocesso acintoso – mas quem manda nessa gente é o Baal-mercado. Dane-se essa tal de Curitiba e seus habitantes metidos a diferentes.

Tá bom, desisto, nada há a fazer. Encham tudo com essas imundícies de pavers, cortem as árvores e se entupam de dinheiro com os monstrengos de vocês.

Mas não vou ficar assistindo parado.

Ilustração: Zezé Coelha, Gibitiba nº6, 1979

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