MENOS LEIS E MAIS EDUCAÇÃO

26 de março de 2013 por keyimaguirejunior

Quino 1972

Menos leis e mais educação

  Vem aí mais uma saraivada de leis inúteis, visando o tráfego de bicicletas. Leis que não receberão o mínimo de atenção de quem quer que seja, porque para isso terão sido feitas.

Vamos deixar bem claro: sou totalmente a favor das “magrelas”, tanto quanto sou contra carros e transporte motorizado individual ou a tração animal. Ou melhor, sou contra a maneira irresponsável, abusiva e ultrajante como vêm sendo usados: claro que levar coisas e pessoas de um lado pro outro nem sempre pode ser a pé, nem de bicicleta.

Mas as campanhas a favor delas levam a abusos, há quem ache que faz um favor à humanidade por bicicletar e – mentalidade típica brasileira – está numa condição de superioridade podendo fazer o que bem entende, principalmente desprezar os pedestres.

As rampas para portadores de necessidades especiais de locomoção estão sendo usadas por ciclistas, carrinheiros e motoqueiros para subir nas calçadas e atropelar e ameaçar pedestres. E trafegar em alta velocidade, lançando-se sobre as pessoas aos berros e insultos. Nunca vi, desde que foram feitas, serem usadas por cadeirantes.

Andar – essa sim, a locomoção preferencial e perfeita – está se tornando um risco no calçadão da Rua XV e outras calçadas da cidade. Independente das leis inúteis, vai continuar assim, sendo de se prever acidentes cada vez mais graves.

Não se pode supor que, da noite para o dia, seja construída uma rede de ciclovias satisfatória. E mesmo que seja feita, o problema continuará, porque pouco tem a ver com as bicicletas – tem tudo a ver com irresponsabilidade, com o comportamente cafageste e indisciplinado do povo brasileiro.

De nada serve fazer leis que não serão cumpridas. Ou melhor, não adianta tentar resolver problemas que não dependem de legislação, mas rendem visibilidade eleitoral.

E assim como bicicletas, os celulares. É comum ver-se motoristas celulando na cara dos guardas de trânsito, que fingem não estar vendo. Principalmente se for um carrão, vai que é algum poderoso ou ricaço. Nos bancos, a mesma coisa: as pessoas sacam seus celulares diante dos vigilantes, para atender chamadas ou resolverem um problema com o contador. Já vi pessoa ser advertida e desacatar o vigilante: “… e quem resolve os meus negócios?”

Como diz Umberto Eco, celular é para fazer gênero: alguém que realmente tenha negócios importantes, tem também estrutura para resolve-los, não o faz na fila do banco ou no restaurante.

Independente de quais venham a ser as regras dos legisladores, elas não serão cumpridas. Mas mesmo que pudesse haver um controle eficiente, seja das bicicletas seja dos celulares – e não tenho a menor idéia de como isso poderia ser feito – não resolveria os problemas. Como evitar que a perua chata saque seu reluzente celular incomodando os demais freqüentadores de um local público com sua vulgaridade? Ou a arrogância de alguém mandando a secretária “dar dez mil reais prá esse cara prá ele parar de incomodar”? Ou como já escutei em aeroporto, um elemento andando nervosamente de um lado pro outro e berrando “mas essa empresa não percebe que cada minuto que eu fico aqui parado eles perdem quinhentos mil dólares?!” (Dólar é a moeda oficial para falar ao celular.)

Não adianta fazer leis porque o problema não é legal, é de educação. Educação lato sensu, desde escola e exemplo familiar e insistência na mídia, até comportamento público de pessoas públicas.

A imagem brasileira – futebol, carnaval e praia – é de irresponsabilidade, cuidadosamente cultivada pela mídia e incentivada pelo poder público, interessados maiores na irreflexão do rebanho. O exemplo da irresponsabilidade vem de cima e deságua no cotidiano das bicicletas e celulares. Que é encontrada em todos os níveis, lugares e circunstâncias da nossa inominável falta de educação.

Ilustração: cartum de Quino, no livro “Al fin solos”, de 1972

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