BUSSUNDA E AS CALÇADAS DE CURITIBA

12 de março de 2013 por keyimaguirejunior

Petit-pavê 

         Embora a imprensa esteja desempenhando um papel aparentemente moderador, informando e discutindo, o que se tem dito e publicado sobre as calçadas da cidade dá a impressão de que estão psicografando o Bussunda, tal o nível de besteirol em circulação.

     Evidentemente, sobre todo e qualquer assunto, se diz muita besteira – mas no caso das calçadas, a coisa se torna perigosa quando parte de dentro do próprio poder público. Como no caso da solicitação – OFICIAL!      – por parte da prefeitura ao Patrimônio Histórico do Estado do Paraná para que as calçadas das áreas históricas sejam consideradas “fora do tombamento”. Essa é de grosso calibre, visto que criaria a categoria “mais ou menos tombado”, ou “tombado salvo interesse em contrário”. Não sei nem quero saber qual foi o cerebrozinho burocrático que perpetrou esse pedido. Mas atenção, sr.Prefeito, pense em quem tem o direito de intervir nas características essenciais da cidade!

     Os tombamentos, UIPs e mais recursos de preservação cultural são aplicados em Curitiba para preservar paisagens, menos que monumentos, que são poucos. E no caso, as calçadas são componentes indispensáveis, inseparáveis da paisagem.

     Os padrões decorativos da Rua XV e Setor Histórico baseiam-se em estudos de Lange de Morretes – artista entre os nossos principais – dentro de uma tendência não por acaso chamada de “Paranismo”, isto é, buscadora de uma identidade nas coisas regionais. Não foi muito longe, o Paranismo – o que é mais uma razão para guardarmos seu parco legado à cidade. Esse pessoal tinha boas intenções – coisa que anda rara atualmente. Às cabecinhas globalizadas e globalizantes, talvez isso pareça insignificante – mas é importantíssimo. São pequenas coisas como essa que compõem uma cultura e não apenas a regional, mas também a nacional.

     A maior prova da má-fé dos reformadores de calçada está em identificar a má conservação dos pisos com o material de que ele é feito. E é claro que a conservação é péssima – periodicamente fazem-se obras nessas ruas e a empreiteira louvada é escolhida segundo os critérios prefeiturais. A obra acaba então de qualquer jeito, nas coxas, prá dar a coisa por terminada e o dinheiro por recebido.  Pois é: isso vai continuar acontecendo e, seja qual for o material utilizado, em alguns anos, muitos menos do que dura uma calçada de petit-pavê, estará em estado lastimável pior do que os atuais.

     A segunda prova da má-fé dos interessados nessa mudança de material, está em usar os Portadores de Necessidades Especiais de Locomoção para chantagem emocional, alegando que o petit-pavê não tem acessibilidade. É simples e vulgar mentira, e como todas, tem pernas curtas. DE ONDE VEM ESSA AFIRMAÇÃO, ALARDEADA COMO VONTADE DIVINA? Quem demonstrou que as características do paver são melhores que as tradicionais? Há testes técnicos, feitos por INMETRO, UTFPR ou outra instituição confiável, provando isso? Se há, não os conheço, e isso tem que ser divulgado – com honestidade, sem manipulação – para a população. Tem que haver uma superioridade técnica MUITO EXPRESSIVA, uma pequena vantagem não justifica a agressão à cidade nem o alto custo da substituição de revestimentos que são apenas – é preciso repetir até que isso seja entendido – mal conservados.

     Tenho quase setenta anos de convívio com ruas calçadas em petit-pavê – São Francisco, Rua XV, Centro Politécnico – e, pedestre convicto, não vi, uma única vez que seja, qualquer pessoa deslizar, escorregar, desequilibrar-se onde o calçamento estivesse em bom estado. Fiz esses percursos milhares de vezes, em circulação para meus locais de morada, estudo, trabalho e lazer. Frequentemente acompanhado – ora pois! – por senhoritas e senhoras calçando elegantes saltos stiletto  – e as poucas reclamações de que tenho lembrança são quanto às lajotinhas de pedra – que também me são simpáticas – mas, quando soltas e pisadas descuidadamente, esguicham lama pelo outro lado na roupa da gente. Não lembro se já disse, mas é puro e simples problema da conservação.

     É preciso demonstrar também que esse tal de paver resolve os problemas sem criar outros piores, sendo a prova do desleixo da prefeitura e seus empreiteiros do coração. A mim o material se apresenta muito feio, não permite bons acabamentos e, sendo poroso, encarde e guarda sujeira, umidade e, provavelmente, vírus,  o que jamais será uma boa idéia em Curitiba.

     O petit-pavê exige mão de obra artesanal especializada? Ah, me poupem de mais essa besteira: entre um e outro material, a diferença está apenas nos minutos que o mestre de obras ou capataz ou feitor vai precisar para explicar como se faz. Ninguém é tão tapado que não possa aprender uma tecnologia tão simples, tão simples quanto a das tais peças de cimento.

     Essas considerações valem apenas para a Rua XV, Setor Histórico e alguns outros logradouros de paisagem interessante. Ruas inexpressiva e chatas como a Mal.Deodoro e a maioria das ruas da cidade, podem ser deixadas à sanha dos empresários. Mas essas não chamam tanta atenção e, é claro, a cada quatro anos, tem eleição… É bom que muita calçada, a essa altura, foi feita com o paver – e em poucos meses, já se desmanchou. Não foi preciso nem obras prefeiturais para demonstrar sua baixa qualidade.  O que foi feito em petit-pavê, está aí há décadas.

     Há quem, ingenuamente, diga que estraga os sapatos nas calçadas – é mais Bussunda encostando por aí. Piada sobre a quantidade de sapatarias da nossa rua comercial. Quando receber seu carnê de IPTU, pense nos interesses que há por trás dos recursos a serem empregados para substituir milhares de metros quadrados de calçadas que precisam apenas de manutenção.

     Apenas manutenção.

Foto: calçadas da Praça João Cândido, desenhos de Lange de Morretes,

não prende salto coisa alguma!


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