MONTEIRO LOBATO, DE COMUNISTA A RACISTA

16 de fevereiro de 2013 por keyimaguirejunior

LeBlanc/Key

Key Imaguire Junior

Nos anos sessenta li “Monteiro Lobato; ou o comunismo para crianças”. Vi-o em alguma estante da BPP e, tratando-se do meu ídolo literário de então, levei prá casa. O autor conseguiu, usando de uma capacidade desinterpretativa fenomenal, perpetrar uma das maiores insanidades numa área onde a insanidade campeia solta, qual seja, a crítica literária brasileira. Dessa leitura, adquiri convicções socialistas  muito mais fortes do que com a leitura do “Capital”…

Como é que se pode atribuir propaganda comunista a um americanófilo defensor do liberalismo e da livre iniciativa como Lobato?! O atual debate sobre as “Caçadas de Pedrinho” vai pelo mesmo caminho, e demonstra o conhecimento superficial da obra do escritor.

As supostas ofensas à Tia Nastácia não partem das personagens humanas – mas da boneca Emília, explicitamente “asneirenta” e irresponsável. Em “Memórias da Emilia”, ela confessa que “sempre brigou e sempre há de brigar” com a cozinheira de Dona Benta – mas que a ama e respeita como sua verdadeira mãe.

Quando, no fim do “Pica-pau Amarelo”, Tia Nastácia desaparece e descobre-se que foi raptada, o grupinho empreende aventurosa viagem à Grécia Clássica e Mitológica para resgatá-la, numa edificante demonstração de carinho e apreço.

Não esquecer ainda que nas “Histórias de Tia Nastácia”, esta é considerada detentora de uma cultura “de raiz” digna de ser conhecida e virar mais um belo livro.

Ao longo da obra infantil de Monteiro Lobato – infelizmente, escassos 23 livros – as personagens encarnam papéis precisos e claros, o que é um dos segredos de seus encantos: o leitor se identifica com a Sabedoria de Dona Benta, com a Coragem de Pedrinho, com a Feminilidade de Narizinho, com a Erudição do Visconde, com a Audácia da Emília – e com a Bondade de Tia Nastácia.

Comparecem muitos outros personagens, sempre bem caracterizados portadores de boas ou más qualidades humanas – todos transitórios, permanecendo a meia dúzia central como condição necessária e suficiente para dar conta de todas as situações – das mais aventurosas às mais didáticas. A riqueza desse universo é muito grande e não pode ser levada aos reducionismos que têm sido praticados.

Na verdade, não alcanço onde se quer chegar com essa discussão. Proibir seus livros? Seria um crime inominável contra a cultura brasileira.

O desconhecimento da obra de Lobato por parte de quem o acusa de racismo é acintoso. Não toma em consideração, por exemplo, “O Presidente Negro” – que não é uma profecia sobre Obama, mas um alerta sobre os extremos a que pode chegar a intolerância racial.

E por falar em intolerância racial, “Mein Kämpf” esteve proibido no Brasil durante décadas. Mas tudo o que se escreveu contra Hitler não mostra tão claramente o desequilíbrio mental do ditador quanto este livro, escrito por ele mesmo.

Quem preconiza a censura a Lobato ou a qualquer outro escritor, deve procurar – se achar, em algum fardo de papel imprestável destinado à reciclagem – o livro de Salles Brasil citado no início. A visão distorcida e medíocre do autor faz parte de uma neurose que custou ao Brasil, trinta anos de obscurantismo.

A maré do “politicamente correto” – que é apenas politicagem incorreta – pode chegar ao mesmo ponto, fácil. Não por acaso, usando a obra de um dos brasileiros mais patriotas, lúcidos e combativos que já existiram. Com suas contradições, é verdade – mas com uma genialidade muito acima delas.

Ilustração: intervenção em ilustração do André LeBlanc, edição dos anos cinquenta.

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